Henry James (1843/1916) nascido nos Estados Unidos mas radicado na Inglaterra é considerado como um dos melhores escritores em língua inglesa de todos os tempos.
Sua obra de maior destaque que é hoje considerada um clássico já adaptada várias vezes para as telonas e as telinhas é “A outra volta do parafuso”, publicada em 1898. Trata-se de uma bela e clássica história de terror e uma bela oportunidade para conhecer a obra de um dos grandes escritores em língua inglesa e que sabe como ninguém contar uma boa história de fantasmas.
“Até o último fantasma” é uma coletânea de cinco contos de James organizada e prefaciada por José Paulo Paes (1926/1998) poeta, crítico literário e tradutor. Os contos tem em comum a temática ligada ao fantástico e com fortes sugestões sobrenaturais. Só que o sobrenatural e o fantástico na perspectiva do autor não são espectros sangrentos que assombram castelos e mansões. Eles são acima de tudo frutos misteriosos e onipresentes dos traumas, injustiças, enganos e desventuras dos personagens que, ao encarar esses espectros, são forçados, acima de tudo, a encarar a si mesmos. O já citado José Paulo Paes muito bem analisou essa perspectiva “jamesiana” no prefácio que é em parte reproduzido a seguir:
“Governada pelo signo soberano do alusivo, do sugestivo, do oblíquo e do subentendido, a prosa de ficção de Henry James estava, melhor que nenhuma outra vocacionada para a instigação desse tipo de dúvida psicológica entre naturalidade e sobrenaturalidade. Aliás, o próprio realismo de James é psicológico: move-se a maior parte do tempo na interioridade dos personagens para analisar as impressões ali deixadas pelo mundo dos fatos e esmiuçar as componentes morais dos seus juízos e opções. Nesse sentido pode-se dizer que se trata de um realismo ético, na linha de Hawthorne, em quem ele teve seu primeiro modelo”.
Os cinco contos presentes em “Até o último fantasma são “Sir Edmund Orne” que abre a coletânea com um misterioso e assustador fantasma que aparece para o narrador e para a mãe de sua amada que é a única que pode elucidar o mistério revelando a identidade do fantasma. Só que ela tem receio de revelar uma incômoda verdade; “A coisa realmente certa”, onde um soturno espectro de um falecido e conhecido escritor tenta evitar que sua biografia seja escrita atormentando sua esposa e o seu biógrafo; “Os amigos dos amigos” em que acompanhamos um insólito triângulo amoroso entre duas mulheres e um homem. Uma delas falece em circunstâncias misteriosas e seu espectro atormenta os dois sobreviventes. Curiosa a clara atração homoroerótica entre as duas mulheres do conto; “O grande e bom lugar” narra com humor sutil e muito sarcasmo as queixas de um famoso escritor cansado do sucesso que se torna, de certa forma, o seu mais assustador fantasma; “A bela esquina”, em minha avaliação o melhor conto aqui presente, que fecha ao obra e que mostra o intrigante encontro de um homem com seu próprio fantasma, uma espécie de doppelganger que procura lhe mostrar muito mais do que ele deseja ver ou saber.
A obra é interessante, os contos apresentam certa tensão e algum suspense e merecem uma conferida atenciosa mas confesso que, em alguns momentos a narrativa me pareceu arrastada e monótona. Além disso a falta de ação e de horror pode afastar os fãs mais empedernidos de histórias de fantasmas.