Profundamente familiarizada com o pensamento e a literatura da Grécia Antiga, Jeanne Marie Gagnebin move-se também com extrema desenvoltura entre as diversas formas do pensamento atual, especialmente as filosofias alemã e francesa, sem deixar de lado as obras de língua inglesa. É precisamente essa dupla condição que lhe permite estabelecer nexos bastante esclarecedores entre mito, história, filosofia e literatura, deslocando-se a todo instante entre o passado e o presente. Elaborados ao longo dos últimos dez anos, os catorze ensaios reunidos neste livro põem em prática uma reflexão ao mesmo tempo precisa e abrangente, que, sem se deixar seduzir por grandes sistemas interpretativos, é capaz de distinguir as mais sutis - e decisivas - variações de tom, seja no percurso de Adorno ou no de Ricoeur, numa narrativa de Kafka ou em Proust, na dialética do hóspede e do estrangeiro na Odisséia ou no testemunho dos sobreviventes de Auschwitz.
Jeanne Marie Gagnebin nasceu em Lausanne, na Suíça, em 1949. Após estudar filosofia, literatura alemã e grego antigo na Universidade de Genebra, concluiu o doutorado em filosofia na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, em 1977. Vive e leciona no Brasil desde 1978, tendo realizado estágios de pós-doutorado em Constança, Berlim e Paris. É professora titular de filosofia na PUC-SP e livre-docente em teoria literária na Unicamp. Atualmente é responsável pela organização dos volumes e coordenação da tradução dos escritos de Walter Benjamin na Editora 34. É autora de Zur Geschichtsphilosophie Walter Benjamins (1978), Walter Benjamin: os cacos da História (1982), Histoire et narration chez Walter Benjamin (1994), Sete aulas sobre linguagem, memória e história (1997), Lembrar escrever esquecer (2006) e Limiar, aura e rememoração (2014).
Simplesmente sensacional! Gagnebin trata de temas que, num outro autor, seriam de difícil codificação sem muitas e complexas leituras prévias, mas na pluma da autora suíça, fazem-se possíveis de entendimento com conhecimentos básicos sobre filosofia, história e literatura. Principalmente.
Livros de teorias com esta linguagem me parecem de extrema importância para chamar a atenção de pesquisadores das ciências humanas incipientes. Não me refiro a que autora seja supérflua, muito pelo contrário, mas aborda memória, psicanálise, antropologia, filosofia neo-estrutural e outros, de uma maneira que agrada ao leitor. As interferências quase cômicas no meio da obra me foram muito queridas, dado que não se acostuma a ver estas rupturas com a "seriedade" do texto. No mais, viva Gagnebin.