Reúnem-se aqui doze contos de Carson McCullers numa selecção feita por Ana Teresa Pereira. Embora seja conhecida pelos seus romances, Carson McCullers foi uma notável contista, inserindo-se na tradição sulista da literatura norte-americana. Carson McCullers dedicou-se aos contos desde os 17 anos, ano em que escreveu «Sucker», tendo muitos deles começando por aparecer em revistas literárias. As suas capacidades de observação e o seu estilo revelam uma assumida filiação em autores tão diversos como Flaubert e Dostoievski. Julie Harris considerou-a mesmo «uma mulher encantadora e misteriosa que escrevia como um anjo». Carson McCullers foi reconhecida pelos grandes escritores da sua época. Graham Greene declarou preferi-la a Faulkner, e Tennessee Williams disse que a sua obra «não se eclipsará com o tempo, mas irradiará cada vez mais fulgor». Contos Escolhidos de Carson McCullers CRÍTICAS DE IMPRENSA «Pode dizer-se que há dois tópicos fundamentais que atravessam esta selecçã as vivências da infância e da adolescência e as relações no casamento.» Gonçalo Mira, Público
Carson McCullers was an American novelist, short-story writer, playwright, essayist, and poet. Her first novel, The Heart Is a Lonely Hunter (1940), explores the spiritual isolation of misfits and outcasts in a small town of the Southern United States. Her other novels have similar themes. Most are set in the Deep South. McCullers's work is often described as Southern Gothic and indicative of her Southern roots. Critics also describe her writing and eccentric characters as universal in scope. Her stories have been adapted to stage and film. A stage adaptation of her novel The Member of the Wedding (1946), which captures a young girl's feelings at her brother's wedding, made a successful Broadway run in 1950–51.
McCullers's explorations in the dynamics between "home and away" began with her adolescent studies of classical music and her great love of classic literature. She cites the Southern writer William Faulkner as an enticement and Dostoevsky, Tolstoy, Flaubert, and her contemporary Isak Dinesen.
E uma dor assim não é uma coisa constante, exigente quanto à medida, cobrando os seus direitos de uma forma fixa. Antes (porque o judeu era um músico) esta dor é como um tema secundário mas insistente numa partitura de orquestra (…). E este tema, embora quase sempre subtilmente escondido, afecta pela sua pura insistência a música como um todo muito mais do que as melodias aparentemente maiores. (…) Mas com a dor há aqui uma diferença. Porque não são chamamentos fixos, como o sinal da mão do maestro, que activam uma dor adormecida. É o indirecto, o que não se pode prever. - Os estranhos
Só por esta breve amostra se percebe a profundidade da escrita de Carson McCullers neste que é um dos meus contos preferidos desta colectânea. É notável que esta autora do Sul dos Estados Unidos, em décadas marcadas pelo preconceito e pela xenofobia, fale de judeus e negros não como estereótipos como tantas vezes se vê na literatura, mas como personagens bem articuladas, participantes na narrativa por direito próprio e não para dar um certo colorido. Em “Fragmento sem Título”, outra história igualmente pungente, tal como no romance “Frankie e o Casamento”, é a criada negra que serve de cuidadora, confidente e conselheira dos jovens da casa, sobretudo do protagonista, a braços com as incertezas e a agonia típicas da idade.
Sozinho no telhado, sentia sempre que tinha de gritar – mas não sabia o que queria dizer. Parecia-lhe que, se conseguisse transformar aquela coisa em palavras, não seria um rapaz com grandes pés ásperos e nus e mãos desajeitadas (…) A sua voz teria a força da música.
É, sem dúvida, a perplexidade face às dores do crescimento o tema prevalente nesta compilação e aquele em que a autora revela toda a sua empatia ou memória dessa fase conturbada da vida, em verdadeiras pepitas como “Uma árvore, uma rocha, uma nuvem”, “O rapazinho assombrado”, “Wunderkind”, “Se é assim” e “Sucker” que escreveu com apenas 19 anos.
Ele estendeu-se na colcha cor-de-rosa e chorou de alívio e de cansaço, um cansaço tenso e gelado que durara tanto tempo. Os soluços sacudiram o seu corpo e aquietaram o movimento rápido de jazz do coração. - O Rapazinho Assombrado –
A angústia, porém, não é exclusiva da adolescência e com a idade adulta chega o desgosto amoroso, o casamento infeliz e o alcoolismo, também eles aspectos autobiográficos desta soberba escritora sulista.
Eu sou uma pessoa que sente muitas coisas. Toda a vida, uma coisa depois da outra me impressionou. O luar. A perna de uma rapariga bonita. Uma coisa depois da outra. Mas o importante é que, depois de desfrutar de uma coisa, havia uma sensação estranha, como se tivesse ficado solta dentro de mim. Nada parecia completar-se, ou encaixar-se nas outras coisas. - Uma árvore, uma rocha, uma nuvem -
Wunderkind - 5⭐️ Uma árvore, uma rocha, uma nuvem - 3,5⭐️ Um dilema doméstico - 5⭐️ O rapazinho assombrado - 5⭐️ Quem viu o vento? - 4⭐️ Sucker - 3⭐️ Um pátio em West Eighties - 3⭐️ Um sopro vindo do céu - 3⭐️ Um instante da hora seguinte - 5⭐️ Se é assim - 5⭐️ Os estranhos - 3,5⭐️ Fragmento sem título - 3⭐️
Bastante interessante de forma geral. Gostei bastante da escrita da autora. Sem duvida que vou querer ler mais.
Um volume com doze contos de Carson McCullers, seleção e tradução de Ana Teresa Pereira. Belos textos de uma autora que tenho vindo a descobrir e que me levou mais uma vez a viajar para os espaços do sul dos Estados Unidos. Gostei particularmente de “Sucker” e “Quem viu o vento?”. Deste último conto retiro este pedaço: “No entanto houvera uma altura (há quanto tempo?) em que uma canção na esquina, uma voz da infância, eram suficientes para que a paisagem da memória condensasse o passado, de forma que o acaso e o presente se transfiguravam num romance, numa história; houvera uma altura em que a página vazia evocava e selecionava as memórias e ele sentia um domínio fantasmagórico da sua arte. Uma altura, afinal, em que era uma escritor e escrevia quase todos os dias. Trabalhando duro, dividia cuidadosamente as frases, mal escritas e substituía as palavras repetidas.”
São doze os “Contos Escolhidos”, mas não inclui “A Balada da Café Triste”. Em todos os contos há uma prosa detalhada, centrada nas personagens, mas sem descuidar o entorno. Aborda temática da adolescência, alcoolismo, miséria, problemas de casal.
Qualquer conto surpreende pela positiva. A leitura deste coletânea é uma leitura amena.
Gostei particularmente do conto “Quem viu o vento?” Por tratar dos dilemas de um escritor e das repercussões que tem na sua vida familiar a sua fraca personalidade, assim como o final que parece ir mais além do que é contado.
Doze excelentes contos de Carson McCullers em que uma temática se insinua e se repete com interessantes variações: a dor e a desorientação provocadas por uma mutação interior que se não deseja nem compreende completamente a não ser nas suas terríveis consequências ao nível da identidade de quem a sofre.
Uma mudança interior indefinida, por vezes lenta por vezes súbita, como que o partir de uma parte de nós próprios, da nossa alma, e que torna incompletos, perdidos e frágeis.
12 pequenas obras primas, numa autora comparada a Faulkner; e sinceramente não lhe fica atrás, com uma prosa cuidada, bela, rica em descrição de ambientes e sempre em constante observação nas paisagens, pessoas e acontecimentos.
Carson leva-nos ao interior das pessoas destes pequenos contos e tudo o que se passa parece que nos afeta diretamente quando vivemos no interior destas pessoas.