Como é possível que relações familiares permeadas de amor e consanguinidade sejam também violentas e repressoras do ponto de vista racial? Em um país onde um terço das relações matrimoniais se dá entre pessoas que se autoclassificam como sendo de raças diferentes, responder a essa pergunta é tarefa urgente para o avanço do combate ao racismo.
Ao indagar se vínculos afetivos em famílias inter-raciais podem amenizar ou desconstruir o ideário racista nos indivíduos, Lia Vainer Schucman percebe que a raça não atua apenas como elemento organizador, mas também como uma categoria geradora de dinâmicas, discursos, conflitos e hierarquias intrafamiliares. É o caso, por exemplo, dos apesar de João se considerar negro, Valéria não reconhece a identificação do filho, negando a origem e a presença da negritude na família. Assim, a mãe reproduz e legitima o racismo no qual foi socializada, ainda que haja amor em sua relação.
Além dessa, mais quatro famílias oferecem relatos comoventes e deixam entrever ora um profundo sofrimento, ora lampejos de consciência racial ativa e coletiva, demonstrando que o espaço familiar pode tanto ser um lugar de enfrentamento da violência, como de sua perpetuação. Das entrevistas também emergem conceitos muito debatidos nos estudos sociológicos e na antropologia — as máscaras brancas de Fanon, a dupla consciência de Du Bois — que, aliados à abordagem psicossocial de Schucman, permitem compreender não só a sociedade brasileira, embasada no mito da democracia racial, como a ideologia do embranquecimento e os impactos disso na vida das pessoas. Vê-se também a dificuldade de classificação racial e o lugar de fluidez do mestiço, este que raras vezes tem sua subjetividade pesquisada.
Famílias inter-raciais é um estudo corajoso e acessível por sua linguagem e sensibilidade. Ao abrir a porta da casa de cada família, escancara o que no debate público já há muitos anos se a formulação de mais estratégias de enfrentamento ao racismo é fundamental para combater a desigualdade e a crise social no Brasil.
Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003), mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2006) e doutorado em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em movimentos sociais, atuando principalmente nos seguintes temas: racismo, psicologia social, branquitude, relações raciais e movimentos sociais.
um estudo muito importante que articula a família e a constituição subjetiva com a construção e a introjeção de noções sobre raça (que, de uma forma ou de outra, acabam permanecendo com a gente). achei interessante tb a relação que ela faz entre autoclassificação racial e processos identificatórios intrafamiliares. mas me incomoda que a impressão que a autora passa é que ela só considera interracial uma família de brancos e negros, e o racismo também como uma problemática que diz respeito somente a brancos e negros. entendo que ela teve que fazer um recorte, mas fico pensando se toda família que ela entrevistou seguiu esse modelo... infelizmente, esse binarismo branco/negro ainda predomina em discussões acadêmicas sobre relações raciais e racismo. que pena. o Brasil é muito maior que isso.
Interessantísmo como a Lia conduz essa pesquisa sobre famílias interraciais. Acho muito importante conhecermos as consequências da colonização/escravidão em nosso Brasil contemporânea. Por eu ser parte de uma família interracial, sempre foi um ponto de curiosidade para mim compreender todas as vivências e complexidades desse arranjo familiar. Uma parte que me atravessou nesta leitura, foi que para falarmos de racismo precisamos de uma postura paradoxal: em um primeiro momento trazemos à tona e reconhecemos o racismo como existente e constitutivo e depois deixamos a cor de lado, para que consigamos atravessar a discussão de acordo com sua subjetividade. Um exercício complexo, mas que necessário!