Bienvenue à Paris dos escritores, dos cafés e das transformações culturais. Ao combinar memórias e entrevistas, a jornalista e tradutora Rosa Freire d'Aguiar oferece um registro extraordinário de uma cidade e de uma época pulsantes.
Durante os anos 1970 e 1980, Rosa Freire d'Aguiar trabalhou como correspondente internacional em Paris. Os restaurantes mais badalados da época, a chegada do primeiro avião comercial supersônico, a devolução do deserto do Sinai ao Egito, tudo que dizia respeito a cultura e política internacional virava notícia, que era rapidamente despachada por telex para o Brasil. E, claro, as longas entrevistas, que marcaram a era de ouro das publicações impressas. Com um texto saboroso, na melhor tradição do jornalismo literário, a autora reconstitui a atmosfera fervilhante que dominava a cidade — dos cafés e livrarias até os embates sociais e políticos que permeavam o dia a dia dos franceses. O livro ainda inclui 21 entrevistas com intelectuais, escritores e políticos, aqui personagens incontornáveis da história cultural do século Alain Finkielkraut, Alberto Cavalcanti, Conrad Detrez, Élisabeth Badinter, Ernesto Sabato, Eugène Ionesco, Fernand Braudel, François Perroux, Françoise Giroud, Georges Simenon, Jorge Semprún, Julio Cortázar, Michel Serres, Norma Bengell, Peter Brook, Raymond Aron, Roger Peyrefitte, Roland Barthes, Romain Gary, Simone Veil e Suzy Solidor.
O livro tem uma escrita bem jornalística, e dá para sentir a veia curiosa da Rosa em cada página.
Ele é dividido em duas partes: - a descrição da jornada da Rosa em Paris e - as entrevistas com convidados.
A primeira parte é muito interessante. Você consegue acompanhar a evolução dela – tanto pessoal quanto profissional. Os lugares que ela cita já viraram pins para minha próxima viagem a Paris. Ela conduz você de forma muito leve pelas ruas da cidade, mostrando tudo pelos seus olhos. É uma parte deliciosa de ler.
Já a segunda parte traz entrevistas com convidados diferenciados. Para quem gosta de uma boa fofoca, é um prato cheio. Em alguns momentos, essa parte pode se tornar um pouco cansativa, mas tem um detalhe que me fez refletir: as datas em que essas entrevistas foram feitas. Isso me fez pensar sobre a mentalidade daquela época e como as previsões e questionamentos dos entrevistados se desenrolaram no futuro. Alguns estavam certos, outros erraram completamente, e teve quem parecesse prever o futuro.
É uma leitura que vale a pena, embora possa ser um pouco arrastada.
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOKO DEMAIS! A FOFOCA GOURMET QUANDO BEM SERVIDA GANHA UM CHARME ÚNICO. TODO MUNDO FODA TAVA EM PARIS NA DECADA DE 70 E A ROSA FREIRE TEVE AS MORAL DE FALAR COM TODAS ESSAS PESSOAS. PESSOAS FELIZES NÃO TEM LEMBRANÇAS. ROSA GÊNIA.
A carioca Rosa Freire D´Aguiar, nascida em 1948, formou-se em jornalismo e atuou como correspondente de vários veículos da imprensa nos anos 70 e 80 do século passado na cidade de Paris. De volta ao Brasil ela passou a atuar também como editora e tradutora e recebeu, desde então, vários prêmios por seu trabalho principalmente na tradução. Suas experiências na cidade de Paris a marcaram de forma indelével e ela as reuniu nesse ótimo “Sempre Paris”, livro que recebeu, de forma para lá de merecida, o prêmio “Jabuti” de melhor livro do ano em 2024. O cientista político, professor aposentado da USP e membro da Comissão Nacional da Verdade Paulo Sérgio Pinheiro, nascido em 1944, autor do ótimo texto incluído na “orelha” desse livro, escreveu o seguinte:
“Decisão generosa de Rosa Freire D´Aguiar reunir em ‘Sempre Paris’ o relato de sua vida na cidade e entrevistas com escritores, intelectuais e artistas a partir dos anos 1970 até os anos 1990. [...] Um encantamento ler ‘Sempre Paris’ que entrecruza e sobrepõe os ângulos da cidade em arranjos inesperados. Todos descobertos e revelados pela profunda e aguda sensibilidade de Rosa Freire d´Aguiar”.
A autora não consegue disfarçar o encantamento que sobre ela exerce a cidade de Paris. Já no início da obra ela celebrou a sua chegada à “cidade luz” de forma entusiástica:
“Tudo começou com uma porta de vidro. O voo devia chegar em Orly às 15h30 de uma quinta-feira. Na cabine, a carioca estava em transe, acompanhando pela janelinha o sobrevoo dos arredores da capital. Eu ia aterrissar em Paris, eu ia morar em Paris, eu ia trabalhar em Paris”.
Em “Sempre Paris” a autora fez uma ótima coletânea centrada nas suas impressões sobre a cidade, reunidas na primeira parte intitulada “Antes que me esqueça”, em que ela não disfarça seu deslumbramento acerca dos cafés, livrarias e restaurantes e também discorre acerca das tendências políticas e culturais que ela acompanhou de perto e nas entrevistas que ela fez com grandes personalidades do mundo cultural, literário e político reunidas na segunda parte intitulada “Eles e elas: entrevistas”. A primeira parte é por demais interessante, mas a segunda parte, na minha avaliação é o ponto forte da coletânea pois a autora teve o privilégio de ter conversado de forma franca com grandes escritores, atores, filósofos e políticos que com ela falaram sobre temas diversos como feminismo, a importância da literatura, comunismo, anti-comunismo, feminismo, os desafios do engajamento político, o direito à interrupção da gravidez e muitos outros. Em minha avaliação as melhores entrevistas foram as que cito a seguir:
• Entrevista feita em 1985 com a filósofa Élisabeth Badinter (1944) que causou alvoroço, para não dizer escândalo, quando, nos anos 80 ousou questionar o amor materno com indagações fortes como: existe mesmo o amor materno ou ele é um sentimento como todos os outros?; esse sentimento seria manipulado pela sociedade?; Mães tem que necessariamente amar seus filhos?; Sempre foi assim? Seria o amor materno uma farsa criada pelos homens para impor às mulheres a máxima de que elas só se realizam como mães? Existiria mesmo um fator biológico na origem do amor materno? O que ela afirmou como resposta a essas indagações certamente chocaria muitas mulheres e homens, tanto à esquerda como à direita, inclusive nos dias de hoje, mas, faz pensar sem dúvida alguma. • Entrevista feita em 1984 com o historiador francês Fernand Braudel (1902/1985), um dos expoentes da célebre “École des Annales”, diretor da famosa “Revue des Annales” e elaborador de um enfoque acadêmico que congregava de forma revolucionária a história, a geografia e as ciências sociais que inspirou a ajudou a formar várias gerações de historiadores. Braudel, que em uma de suas temporadas no Brasil, ajudou a criar a USP, discorreu, nessa entrevista, acerca de temas interessantes como as estratégias que teve que desenvolver para lidar com a falta de conhecimentos básicos dos alunos brasileiros que assistiam suas aulas. • Entrevista feita em 1975 com a jornalista e ativista Françoise Giroud (1916/2003), titular, na França do polêmico e pioneiro “Ministério da Condição Feminina”. Nessa entrevista ela aborda temas como o “machismo estrutural”, as dificuldades das mulheres em fazer valer seus direitos e conquistas e como, a despeito dos avanços, ainda falta muito para a tão sonhada igualdade entre os gêneros. • Entrevista feita em 1976 com o prolífico e brilhante escritor belga George Simenon (1903/1989), cuja obra já ultrapassou a marca dos 200 milhões de exemplares mundo afora. Nessa ótima entrevista ele discorre acerca de temas como os seus processos criativos, a importância da leitura e da literatura e de sua relativa mágoa acerca do fato de sua obra ir muito além do principal personagem que ele criou, o célebre e racional Inspetor Maigret, protagonista de dezenas de histórias e cuja máxima – “Compreender, e não julgar” - expressava os posicionamentos do próprio autor e poucas pessoas realmente saberem que há muito mais na obra de Simenon do que as histórias de suspense e mistério envolvendo o inspetor Maigret.. • Entrevista inédita feita em 1978 com o grande escritor argentino Júlio Cortázar (1914/1984), autor do clássico “O jogo da amarelinha”. Nessa entrevista o escritor argentino, além de falar de literatura e de seus processos criativos, fala também sobre o seu exílio na Espanha, em função de sua oposição à ditatura militar argentina, de sua saudade da terra natal e de como ele sempre levava a Argentina consigo onde quer que ele fosse. • Entrevista feita em 1973 com a cantora, atriz, diretora e produtora brasileira Norma Bengell (1935/2013) que além de discorrer com propriedade acerca de seus trabalhos dá um duro e sincero depoimento sobre as suas dificuldades, como mulher independente e liberada, de lidar com o machismo estrutural e tóxico que estranhava e procurava coibir seus posicionamentos, posturas e comportamentos então considerados “escandalosos”. • Entrevista feita em 1977 com a ativista e política francesa Simone Veil (1927 / 2017). Ela é uma das cinco mulheres que repousam no Panthéon de Paris pelo seu ativismo humanista e em prol dos direitos das mulheres. Essa sobrevivente do Holocausto, como ministra da saúde na França, lutou em prol do direito à interrupção da gravidez e conseguiu que esse direito fosse transformado em lei em 1974. Nessa entrevista ela fala sobre a luta das mulheres pelos seus direitos básicos, da ferrenha luta que teve que travar até a aprovação da lei que descriminalizou o aborto, das campanhas de ódio que sofreu, das ameaças de morte que teve que ouvir, mas que, acima de tudo, valeu a pena e vale a pena lutar para que as mulheres tenham seus direitos respeitados.
é um livro difícil de dar uma nota porque ele traz dois momentos no livro. o primeiro as crônicas e a perspectiva da autora sobre a Paris dessa época, pincelando um pouco da sua história e trabalho também, achei ótimo. a segunda parte já mostra as entrevistas com personalidades relevantes da época, o que pode deixar a leitura um pouco mais parada e menos fluída. gostei bastante de muitas entrevistas e muito interessante perceber como tantas reflexões e “previsões” para os próximos tempos se sustentaram, outras não. muito bonito de ver o papel da arte, literatura, política dentro desse texto e de suas entrevistas. recomendo a leitura!
Esperava mais. A primeira parte do livro é bem fluida e instigante, não conseguia parar de ler. Quando cheguei nas entrevistas o ritmo mudou completamente. Algumas entrevistas interessantíssimas, outras nem tanto e boa parte nada memorável. É um livro que vale a pena ler se você tem interesse pelo que foi a cidade e tem alguma familiaridade com a elite cultural e política que viveu na cidade na década de 70 e 80.
“Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante”. (Hemingway)
Rosa Freire d'Aguiar é uma brilhante jornalista, editora e tradutora carioca. Mudou-se para Paris em 1973, onde foi correspondente das revistas Manchete (Grupo Bloch) e Isto É (Editora Três). Realizou incontáveis reportagens na Europa, China e Oriente Médio e cobriu a redemocratização da Espanha, o exílio de Khomeiny e a Revolução Iraniana, a devolução do Deserto do Sinai ao Egito e a Guerra do Líbano, entre outros momentos históricos de grande relevância. Premiado com o Jabuti em 2024, a autora começa a obra narrando sua chegada a Paris, o início de sua carreira na cidade, discorre sobre cafés e livrarias, diplomacia, política, artes e literatura. A narrativa tem forte presença de 3 presidentes franceses se destacaram na tentativa de modernizar a capital - Giscard d’Estaing, Mitterrand e Jacques Chirac - nos levando a uma deliciosa viagem ao D’Orsay, Pompidou, Biblioteca Nacional, a Opéra da Bastilha e o Louvre com sua pirâmide. Uma leitura simplesmente espetacular! E na segunda parte do livro, temos entrevistas realizadas por Rosa com grandes intelectuais da época. Entre 21 entrevistas, destaco as minhas favoritas: Simone Veil, Fernand Braudel, François Perroux, Julio Cortázar, Roland Barthes e Jorge Semprún. Um deleite!
São duas partes: na primeira, a autora conta da chegada à Paris nos anos 70 e descreve o contexto da cidade naqueles anos. A segunda tem as entrevistas, algumas inéditas, que ela fez para revistas como Manchete e Fatos e Fotos. É o relato de um fazer jornalístico que, infelizmente, não existe mais. Rosa persegue com seu gravador justamente os intelectuais, os escritores, os polemistas, as pessoas “difíceis” - personalidades que hoje, se muito, ficariam relegadas às editorias “de ideias”, se é que elas ainda existem. Curiosamente, as entrevistas com figurões como Cortázar e Raymond Aron são as menos interessantes, enquanto autores meio fora de moda, como Michel Serres, fazem os grandes momentos do livro. Uma coisa do trabalho de Rosa me impressionou sobretudo: como ela soube extrair da intelectualidade parisiense da época os temas que viriam a ser os problemas do presente. Romain Gary, por exemplo, já profetizava sobre a questão da Ucrânia! Ótimo livro, que merece todo o aplauso recebido. E, para nós, do batente, leitura obrigatória e essencial.
Rosa Freire d’Aguiar tem uma escrita agradável, em estilo jornalístico, mas com uma certa erudição. Suas memórias do período vivido em Paris são muito interessantes, ela aborda a cidade e seus personagens por temas, sempre trazendo situações curiosas e instigantes. As entrevistas são ótimas, com algumas personalidades surpreendentes, mas sempre com algo a dizer, muito bem conduzidas por Rosa, com perguntas sucintas e precisas, que estimulam respostas abrangentes. Mesmo tendo sido feitas há cerca de 40 anos atrás, continuam atuais e estimulantes. É também visível o interesse da jornalista pelas questões feministas, em efervescência na época, talvez as mais bem desenvolvidas no livro. Enfim, uma obra despretensiosa, porém imperdível para quem acompanhou a virada cultural dos anos 70, quando Paris acolheu os exilados políticos e os grandes debates do nosso tempo.
Adorei esse livro, para mim ele é 5 estrelas. Ressalvo que a minha idade deve ter influenciado a importância que teve para mim: um resgate de informações e saudades das décadas de 70 e 80, quando a França tinha uma importância excepcional em nossas esperanças de um mundo melhor.
Adorei a primeira parte, feita de lembranças de uma jovem repórter vivendo em Paris, descobrindo uma cultura diferente antes da existência da Internet. Porém, gostei mais ainda da segunda parte, feita com ícones da intelectualidade de franceses e exilados, conectando informações e vivências que marcaram minhas lembranças.
gostei demais da primeira parte! a escrita da autora é super fluida e vai deixando o leitor curioso na medida em que o livro avança. contudo, a segunda parte (das entrevistas) não me prendeu tanto como eu gostaria... confesso que não conhecia grande parte das personalidades sendo entrevistadas, então talvez seja esse o motivo de eu não ter me conectado tanto. de modo geral, não deixa de ser uma leitura interessante e que agrega, especialmente por tratar de acontecimentos históricos das décadas de 70 e 80 com lentes jornalísticas.
É delicioso ler a jornada da autora em Paris, tanto pelo retrato da época e de um jornalismo que parece não existir mais (quantos encontros com figuras históricas!). As entrevistas são riquissimas também.. e ajudam a desenhar as relações Brasil-França por uma outra ótica (curiossimo ler entrevistas de ex prof franceses da USP).
A parte inicial, com crônicas, dá um furor (de saudades, provavelmente) e uma vontade de viver na mais linda cidade do mundo. Eu pensei que as entrevistas me fariam deixar o livro de lado, mas me surpreendi com a seleção impecável de grandes conversas. Sabato, Ionesco, Cortazar, Peyrefitte… mindblowing.
O livro é composto por duas partes: relatos jornalísticos sobre sua vida em Paris e entrevistas que ela fez com intelectuais, escritores e artistas durante as décadas de 70 e 90. É um livro interessante para quem tem alguma ligação com Paris ou com a cultura francesa, mas não vale o Jabuti que ganhou.
Muito bom! Gostei tanto da primeira parte, quanto da segunda. Impressionante ver como algumas entrevistas - apeser de terem ocorrido nas decadas de 70/80 - trazem respostas e comentários atuais até hoje.