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Mata Doce

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No primeiro romance que assina com o próprio nome, Luciany Aparecida narra, com uma prosa lírica e de força singular, os trágicos acontecimentos que cercam um pequeno vilarejo rural no interior da Bahia. Mata Doce é um romance épico, delicado e poderoso, que entrelaça passado e presente em uma obra majestosa, e desde já um marco da literatura brasileira contemporânea.

Maria Teresa vive com suas mães num casarão antigo, cheio de histórias de seus antepassados, de frente para um lajedo de pedra. Pelo peitoril, corre um roseiral, apenas com rosas brancas, e, no caminho diante da casa, passam personagens memoráveis: Mané da Gaita, músico e vendedor de doce, e sua cadela Chula; Lai, ex-prostituta e sua madrinha; os gêmeos Cícero e Antônio, filhos do dono da venda; Toni de Maximiliana, vaqueiro matador de gado, filho da sacerdotisa Mãe Maximiliana dos Santos; e Zezito, único filho homem de Luzia, e por quem Maria Teresa se apaixona e planeja se casar.
Ao experimentar o vestido de noiva num sábado de festa, um dia antes do casamento, uma tragédia envolvendo um fazendeiro violento e arbitrário atinge Maria Teresa e muda sua vida para sempre. Narrando o drama que se torna central, ela vai pouco a pouco desvelando ao leitor os sentimentos mais profundos dos que habitam Mata Doce. Surgem então, numa delicada costura narrativa, antigas rixas familiares, segredos do passado, sentimentos clandestinos e muitos mistérios.

304 pages, Paperback

First published October 27, 2023

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Luciany Aparecida

10 books11 followers

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5 stars
204 (43%)
4 stars
183 (38%)
3 stars
70 (14%)
2 stars
11 (2%)
1 star
6 (1%)
Displaying 1 - 30 of 94 reviews
Profile Image for Luciana.
516 reviews159 followers
January 14, 2024
Se a História por vezes é feita de memória, e embora a memória nem sempre pode ser confiável como Faulkner diz em Absalão, Absalão!, há no romance de Luciany uma grande aventura acerca das memórias de Maria Teresa sobre a vida e morte em um povoado no interior da Bahia.

Narrando, pois, sua vida de menina até a velhice, a protagonista conta aquilo que Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e José Lins do Rego anteriormente nos contava por meio de sua prosa: onde falta a oportunidade, onde sobra pobreza e a desigualdade, o espaço para o autoritarismo e a tristeza está aberto. No entanto, conquanto seja uma história triste aqui narrada, é ao mesmo tempo uma história de reconciliação com o passado e um reencontro com aquilo que se havia perdido.

Com um evento trágico que muda o curso da vida da protagonista, o leitor é levado a observar desde a usurpação da terra, a violência sexual, o assassinato que ronda o povoado, as inúmeras manifestações de fé, cultura e senso de comunidade em um local onde não obstante haja opressão, haverá também resistência. Com personagens que possuem cada qual sua própria dor e história, é por meio das memórias de Maria Teresa que aqueles esquecidos e apagados são relembrados na literatura como sujeitos detentores de direitos, em uma obra que é a síntese do poder da escrita, da literatura e de nossa abertura para com o outro.

Dito isso, tive uma boa leitura, em especial pelo fato da escritora utilizar da temática transexual e homossexual como parte integrante da sua narrativa sem que elas tivessem que ser questionadas ou dramatizadas, retratando-as com normalidade, o que, é raro de encontrar na literatura brasileira.
Profile Image for Alfredo.
470 reviews602 followers
June 22, 2025
“Mata doce” desafia as convenções tradicionais de narrativa, mergulhando o leitor em uma espiral temporal que transita entre passado, presente e futuro. A narrativa é composta por vozes alternadas, subvertendo a ideia de uma única perspectiva. Uma escolha que nos convida à reflexão sobre a natureza fragmentada do tempo e da memória.

A história segue uma jovem adotada por um casal de mulheres, cuja origem misteriosa emerge lentamente, revelando camadas de relações familiares e históricas que vão além do visível. O casarão onde vivem, uma espécie de quilombo não declarado, é palco para uma narrativa rica em ancestralidade e resiliência, entrelaçando questões sociais e culturais de forma sutil, mas potente.

O livro se destaca pela sua profundidade simbólica e pela maneira como retrata a vivência das personagens em um cenário rural permeado de crenças de matriz afro-brasileira. Comparado a obras como “Torto arado”, “Mata doce” apresenta um ambiente que ecoa como um espaço de resistência e transformação, permitindo ao leitor revisitar a história e descobrir novos significados a cada leitura. Um marco da literatura contemporânea brasileira.
Profile Image for Gabrielle Cunha.
430 reviews115 followers
March 12, 2024
Uma história muito interessante, bem escrita, poética. Não me conectei como gostaria com a protagonista (amei os personagens secundários e as histórias deles). Questões sociais, políticas, religiosas; há muitos temas legais!
Profile Image for Helena.
255 reviews650 followers
March 11, 2025
3.5 (?)
a escrita me deixava hipnotizada juro entrava em transe mass a historia em si nem tanto
Profile Image for Isabella Mariano.
Author 3 books13 followers
February 2, 2025
Mata Doce carrega a força das mulheres pretas brasileiras. Tantas histórias que guardam tanto de quem somos hoje enquanto povo. Uma ficção tão real que lembrei de minha mãe. Não sei se minha mãe mesmo ou uma mãe metafórica, mas um sentimento maternal me tomou.

A escrita é uma prosa muito poética, mistura a simplicidade da oralidade com a complexidade da abstração. Li nessas páginas a diversidade que habita todo canto. Com ou sem “estudo”, nosso saber é mais profundo que os livros - ainda que eles nos ajudem a ouvir.

A narrativa não é linear e eu costumo me confundir quando leio obras assim, mas não foi o caso. Foi uma delícia acompanhar a história de Maria Teresa Filinha Mata Boi!
Profile Image for Isis.
333 reviews17 followers
November 18, 2025
Muito bonito!!!

“O tempo era soberano em Mata Doce. Qualquer coisa passava. Mas contra o tempo resistia a memória, e naquele lugar o reinado era dela. Tudo ali favorecia o não esquecimento. A iluminação do amanhecer e do cair da tarde desenhava cenários por onde o tempo deslizava em espiral. Passado, presente e futuro nunca deixavam de se abeirar. Em Mata Doce o tempo não permitia distanciamentos. Tendo ou não alguém para ouvir histórias, a própria geografia do lajedo, da mata, das estradas ajeitava enredos.”
Profile Image for ALINE SHIRAZI.
67 reviews1 follower
December 17, 2025
Se pudesse daria 10 estrelas. Que coisa mais linda, louca, fantástica (no sentido fantasia), sensível, triste e vívido como este livro.
Vejo filinha mata boi agora mesmo do meu lado com seu vestido de noite, a cachorra chula para sempre nossa, brasileiríssimo (me deu orgulho!). uau. uau. uau.
Profile Image for Vera Sopa.
744 reviews72 followers
November 3, 2025
Mata Doce é uma povoação, onde vivia Mariinha, Tuninha e Maria Teresa ou Filinha. A primeira foi a avó de Mariinha, mas com o tempo e a história foi sendo um lugar de acolhimento e amparo para mulheres desvalidas. Apesar do início de mata-boi é um romance terno e comovente, com a generosidade e solidariedade de pessoas simples e corajosas. Personagens com história, em que o único branco dos poucos homens era um vilão.

A história é contada entre avanços e recuos, porque sempre que um facto tem que ser explicado remonta à sua génese, contado na terceira pessoa pela própria narradora com 92 anos, como que fora da sua vida. Uma vida marcada por uma tragédia no dia do seu casamento numa povoação onde a miséria era muita. A água era escassa, e a água que tinha nas terras de Mata Doce estava aprisionada no terreno do coronel.

Um romance lindo. A capa e o enredo, palpitante de vida, com personagens apaixonantes e todas elas com destaque na história.
Profile Image for Will Oliveira.
47 reviews2 followers
September 15, 2024
Mata Doce é de uma sensibilidade deliciosa de ler. Todas as comparações de que seria o novo Torto Arado são completamente desnecessárias porque, para além de se passarem no interior baiano e serem lideradas por mulheres fortes e ancestrais, as histórias são completamente diferentes em sua formatação e condução. Luciany tem uma poesia no narrar que sensibilizam o leitor. A autora diz que construiu o romance como uma carta de amor a estas personagens e esse sentimento de intensa paixão pelas personagens transparece na página, emociona, nos enreda. A constantes idas e vindas no tempo exigem que o leitor esteja sempre atento e tentando recompor este quebra-cabeças. Porém, seria ótimo se Mata Doce tivesse 50 páginas a menos, limpando uma ou outra redundância ou prolixidade em alguns momentos e intensificando os sentimentos mais essenciais desta comunidade em que todos as personagens são relevantes e amáveis.
Profile Image for Andre Aguiar.
476 reviews114 followers
Read
November 12, 2024
Passado, presente e futuro nunca deixam de se abeirar, o tempo não permite distanciamentos. Tendo ou não alguém para ouvir histórias, a própria geografia do lajedo, da mata, das estradas ajeita enredos.
Profile Image for Diana Passy.
142 reviews320 followers
Read
February 6, 2024
"A miséria era muita. A água era escassa, e a que tinha nas terras de Mata Doce estava aprisionada no terreno do coronel. O delírio reinava. Chula lambia as canelas dos meninos barrigudos querendo cicatrizar a tristeza. Quase todos morriam de diferentes mortes. Mas apenas Amâncio e sua família matavam. Ser livre para matar era lugar social."

"Matei o primeiro boi e encarei o lajedo. Queria que alguém viesse me dizer que não deveria ter feito aquilo. Queria ver Gerônimo de perto e arruinar sua vida. Tocar em tudo que fosse seu, desejando o seu fim. O acabamento. A morte. Vestida agora como Filinha Mata-Boi, larguei do pé do roseiral e entrei no casarão pela sala sob os reclamos de mamãe Mariinha. Entendia que a professora não reclamava apenas se eu estivesse ou não sujando a casa. A reclamação era de me ver diferente do seu planejamento. Eu não seria mais Maria Teresa, aquela moça que ela tinha planejado que eu fosse. Seria o que meu desejo me mandava ser. Disso eu estava segura. Fazer as vezes ao meu desejo era meu único meio de continuar viva."
Profile Image for Cláudia Cunha.
103 reviews2 followers
March 24, 2024
Mata doce é uma comunidade feita por mulheres e que acolhe mulheres. Nesse pequeno vilarejo rural do interior da Bahia, conhecemos a história de luta e perdas de Maria Teresa. Muitos acontecimentos trágicos acontecem, mas também há muito amor. A história é narrada como memórias e, como acontece quando nos lembramos, ela não segue um fluxo linear, de forma que passado e presente acabam se entrelaçando na narrativa. Em alguns pontos isso pode dificultar a leitura, mas é um recurso importante para a narração da obra, como a própria autora pontua no texto: “A iluminação do amanhecer e do cair da tarde desenhava cenários por onde o tempo deslizava em espiral. Passado, presente e futuro nunca deixavam de se abeirar. Em Mata Doce o tempo não permitia distanciamentos”
Profile Image for Vinicius Cavalcante.
4 reviews2 followers
November 8, 2023
"Para nós, descendentes desnaturais, o oceano é uma gaveta secreta, do tipo que existe em toda casa. Aqui no casarão o que minha mãe Mariinha nunca deixou faltar nas gavetas ocultas era uma caixa de fósforo. Ao abrir o mistério com registros silenciados de nossas histórias, mamãe dizia que não era preciso temer. Mas riscar entendimento."
Profile Image for Frejola.
258 reviews16 followers
January 8, 2025
Uma escrita amorosa, feita com delicadeza, em que a personagem principal na minha leitura é a comunidade de Mata Doce.
Profile Image for victória.
247 reviews26 followers
January 26, 2025
mais um livro lido em conjunto, ganhei de presente de natal e a partir dele demos início ao clube de leitura. como é bom iniciar o ano com um exemplar da maior estirpe da nossa literatura contemporânea. em poucas páginas a dor de Maria Tereza, que já conhecemos como Filinha, se tornou minha. a história do povo de Mata Doce forjada na força das mulheres que por lá passaram e fizeram morada é envolvente, emocionante e também dolorida. como normalmente é a vida das mulheres, a história é permeada de violência, luto e luta. seja na resiliência da juíza e de Lai, na luta por espaço de Filinha e do luto de toda a cidade, mas em especial das mulheres que criaram e das que acolheram Zezito. aliás, a prosa da autora é de uma maestria que ele passa a ser amado no momento de sua morte, que antecede qualquer conhecimento sobre ele. a relação de Maria Tereza conhecendo seu povo e a si mesma através da máquina de escrever é linda. Mata Doce é acima de tudo uma história sobre amor, o amor que nos transforma, nos salve e nos move, o amor pela terra, pelas flores, pelas palavras e para com o próximo. feliz pelo amor que me presenteou com a chance de ler e ser tocada por uma obra tão linda.
Profile Image for Nanda.
6 reviews
September 28, 2025
Mata Doce me pegou em um momento que eu não estava me sentindo muito bem emocionalmente e deixou uma marca em mim pra sempre. Um épico lindo sobre uma mulher quilombola vendo seu sonho sendo destruido por um homem branco, o coronel Amâncio. A história foge da linearidade trazendo as transformações e as pessoas desse convivio dessa mulher tão potente e tão interessante. Luciany Aparecida conduziu numa delicadeza que acho que nenhum outro autor faria algo semelhante.
Profile Image for Ana Helena.
155 reviews12 followers
December 14, 2025
Nao foi pra mim... muitos furos na verossimilhanca, muitas personagens planas, mudança de narrador de forma estranha, segredos revelados no papel como lembranças de alguém que sequer as teve...
enfim, algumas cenas muito bonitas, vomo a inicial, mas bem fraquinho.
Numa comparação injusta, para ler sobre uma regiao de interior, tenho certeza que Água Funda, da Ruth Guimarães é uma leitura mais garantida. Em composicao e trabalho com a linguagem.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Aniel.
247 reviews3 followers
March 24, 2025
Que história mais linda e sensível... Os flashbacks que a história dá trazem todo um ar de mistério.

Eu quis ler este livro desde a primeira vez que eu vi a capa na livraria. Virei fã da Luciany.
Profile Image for Vanessa Berenguel.
57 reviews
December 8, 2025
Uma poesia que nasce da ferida.
Escrita muito desafiadora mas super interessante e profundo. Não é um livro para passar tempo, é um livro que te faz viver e sentir emoções.
Há uma beleza triste em tudo até no silêncio. Recomendo
Profile Image for Sergio.
254 reviews2 followers
Read
January 30, 2025
A escrita é linda, delicada e sensível. As histórias na história são como ondas que chegam sem avisar. Achei magistral. Já tá na minha prateleira de favoritos.
É desse tempo, de um outro por vir e que ficou.
Quem ler, depois me conte…

A cultura, os modos de dominação, as mulheres, a transexualidade, a homoafetividade, o machismo, a fé, a crença, o saber ancestral, a paisagem, a memória, a linguagem, o psíquico e por aí vai…

Daqueles livros que você queria não ter lido para ler de novo a primeira vez.
Profile Image for Fernanda.
17 reviews
Read
March 16, 2025
Leitura muito fluída, escrita leve. Uma história de mulheres doces e valentes.

Gosto desse estilo de narrativa, que não segue uma linha linear e cronológica.
Profile Image for Beliza Farias.
13 reviews
May 19, 2025
O enredo é bom, mas eu senti que a autora se repete em algumas descrições.
Profile Image for Laiz.
75 reviews
May 11, 2024
Uma prosa lírica tão bonita, repleta de memórias, que te transporta para dentro de Mata Doce. O pequeno vilarejo é repleto de personagens singulares que são lembrados com muito carinho por quem fica. Que vontade de viver em Mata Doce, no casarão e ser potência junto com mulheres que, unidas, são superação e potência.
Profile Image for Gabrielle Alves.
101 reviews6 followers
January 31, 2025
Eu poderia ir por vários caminhos para falar desse livro. Poderia destacar as incríveis referências culturais feitas pela autora, a força de um matriarcado e das gerações de mulheres negras mantendo a vida e superando a morte. Ou, ainda, explorar o encantamento da escrita, que se transforma em uma encruzilhada — um espaço de passagem que nos desconcerta e que desafia a lógica de uma imaginação homogênea e estéril. A escrita aqui não é apenas uma narrativa, é um diálogo aberto com o além, com o passado que nunca se cala e com o presente que insiste em reverberar dores e lutas ancestrais.

Quanto às referências culturais, decidi dedicar um post apenas para isso – você pode conferir aqui.

Mas, hoje, quero seguir por outros dois caminhos que ainda não mencionei: quero falar sobre a Chula, a cachorrinha, e sobre a terra.

Chula é, à primeira vista, uma cachorrinha comum. Imagine aquela caramelo típica, de olhar doce e esperto, que provoca sorrisos mesmo nos transeuntes mais distraídos. Mas Chula não é apenas uma cachorrinha. Ela é presença. E é tempo. Atravessa a história de forma quase imortal, como se carregasse nas patas algo que transcende o real.

No início, me perguntei: como isso pode ser possível? Mas, ao pesquisar, descobri algo que tornou tudo ainda mais fascinante. Chula leva o mesmo nome de um gênero musical e de uma dança típica do Recôncavo Baiano, profundamente enraizados na cultura afro-brasileira. E, de repente, tudo fez sentido.

Chula, a cachorrinha, é como o samba chula: atravessa gerações, preserva a essência de um povo que resiste, cria, transforma. Ao segui-la pela narrativa, somos convidados a enxergar que a cultura é imortal. Mesmo diante de perdas e violências, ela sobrevive, adaptando-se, renascendo.

"O samba chula é um canto que fala do cotidiano, da mulher, do gozo, da dor, do espiritual, da reverência a ancestralidade e do fortalecimento da fé. É a mistura do que somos hoje. É nossa história diária narrada de forma melódica."

E então chegamos à terra, essa outra personagem essencial da história. Ler Mata Doce é, antes de tudo, um convite para refletir sobre as lutas fundiárias e os seus impactos profundos. É compreender que a violência contra a terra não se limita ao solo; ela fere as pessoas, as comunidades. A terra não é solitária, ela carrega água, vida, continuidade.

A história de Filinha, com seu casamento interrompido pela violência, é emblemática. É um retrato íntimo e doloroso do que acontece em escala nacional. A Pública analisou os dados da Comissão Pastoral da Terra que explicam a dimensão do problema agravado pelos casos de despejo e a falta de reforma agrária:

O Brasil teve 2.203 conflitos no campo em 2023, o maior número já registrado desde 1985, quando começaram os levantamentos da Comissão Pastoral da Terra (CPT) (…) a Bahia é líder isolada em número de famílias efetivamente despejadas, com 2,9 mil – mais da metade do total do país.

Quando a terra é negada, não são apenas territórios que se perdem. São histórias, sonhos, rituais. São vidas partidas ao meio, como se cada violência cindisse um indivíduo, deixando-o dividido entre o que foi e o que nunca poderá ser. Há um tempo atrás escrevi esse texto para o climainfo falando um pouco sobre o racismo ambiental, um tema que atravessa a obra de Luciany Aparecida de forma inquestionável.

“— Não adiantam essas suas invenções, podem vir junto com o satanás que o rio ficará fechado. Acha que não entendo que essa conversinha de sonho é motivo pra me pedirem pra deixar vocês tudo passar e pegar minha água? A represa serve à minha fazenda, ao meu gado, e gente nenhuma de vocês vai pisar nas terras que são minhas. Isso não tem o que discutir. Quero ver homem de coragem entrar ali pra buscar água. Tá decidido — disse Gerônimo e saiu arrastando o carro.” Mata Doce, Luciany Aparecida.

Mata Doce nos lembra que lutar pela terra é também lutar pelas memórias e pela identidade de um povo. É resistir à tentativa de apagar os povos de terreiro, as tradições dos povos originários e as narrativas que vêm dessas raízes.

No final, há um chamado poderoso: a escrita é resistência. Ao fechar o livro, não consegui evitar a pergunta: e nós? Que histórias a terra ao nosso redor poderia nos contar, se nos dispuséssemos a ouvi-la com a mesma atenção dedicada a essas páginas? O que podemos fazer?

Sejamos todos ativistas. Ativistas pela terra, pelas memórias, pelas vidas negras e campesinas. Que cada leitura nos inspire a levantar, questionar, transformar e esperançar.

Essa é a força de Mata Doce: um livro que nos devolve à terra e nos mostra que, mesmo diante de tudo, rosas brancas continuam a nascer.

@leiturasdagabrielle
Profile Image for Petra Fantini.
2 reviews15 followers
September 4, 2024
Eu amo muito uma literatura ligeiramente surreal e profundamente humana, e é isso que Mata Doce traz.

É muito denso, muito sensível. Me doeu acompanhar o apego que a protagonista manteve por toda a existência. Apego com a possibilidade de uma vida que ela não pôde viver, com as relações que o tempo tirou.

Outro tema muito trabalhado é a solidão, tanto do interiorano que fica pra trás em um povoado que se esvazia ao longo dos anos, quanto aquela típica da velhice, principalmente feminina, solteira e sem filhos.

Mas não é porque Filinha Mata Boi carregava suas cicatrizes que ela não tomou a vida pra si. Uma boa parte da sua trajetória, inclusive, é baseada em reinvidicar o direito de tomar as próprias decisões, ainda que alguns caminhos escolhidos firam a ela própria. Rejeitar a dócil, ingênua e esperançosa Maria Tereza para adotar a figura sisuda de Filinha Mata Boi é sua maneira de tentar superar (ou fugir) do trauma, ao obrigar o assassino de seu noivo a encará-la diariamente na própria terra.

Ao se estabelecer como melhor assassina de bois da região, Filinha ganha o respeito da comunidade enquanto mulher independente. Não sei esse caminho valeu a pena, mas não deixa de ser dela

Também é impossível considerar a história sem pensar que ela trata de relacionamentos entre mulheres, especificamente pretas, especificamente do interior da Bahia.

Eu quis escrever essa resenha antes de mergulhar em entrevistas com a autora e demais conteúdos sobre a obra, então ainda busco entender alguns elementos do livro -- principalmente a imortal cachorrinha Chula. Eu não quero uma explicação literal de Luciany Aparecida (inclusive espero que ela não tenha uma, pois prefiro que artistas deixem suas obras livres para a interpretação do público), mas quero ter mais elementos para pensar a respeito.

As idas e vindas na história e os muitos nomes podem te perder, então não recomendo alongar muito a leitura como eu fiz. É bom começar e terminar em poucos dias. Com certeza pede uma segunda ou terceira leitura, e acho que vou comprar a cópia física só pra ter essa capa lindíssima em casa.
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