Em uma noite sinistra, os traumas da ditadura brasileira são revisitados em um apartamento da Zona Sul do Rio de Janeiro, quando dois irmãos precisam cuidar do patriarca, Abel, cujos segredos da época da repressão voltam a assombrar a nova geração.
A epidemia de covid-19 esvaziou as ruas do Rio de Janeiro, e o risco da doença serve de desculpa para que a madrasta de Marco o telefone pedindo um favor: passar uma noite no apartamento requintado de seu pai, Abel, que se encontra acamado e não pode ficar a sós. Assim começa a narrativa intensa de A febre, retorno de Marcelo Ferroni à literatura de terror. O que poderia ser cenário de um acerto de contas realista entre duas gerações ― a de um pai orgulhoso de sua participação no regime militar com a de um filho que buscou abandonar o passado ― logo ganha contornos sobrenaturais. Ao aliar precisão literária com um apreço pela potencialidade da ambientação da casa mal-assombrada, o autor faz de A febre uma alegoria pungente de um Brasil com muitos esqueletos no armário ansiando em ver a luz do dia.
Que delícia ler um terror tão bem escrito e tão brasileiro!
O patriarca da família está doente, e seus filhos precisam cuidar dele por uma noite durante a pandemia. Assim começa "A febre", um livro sobre assombros, imposição de poder e fantasmas do passado.
O apartamento dos Soares Lobo é mais que um pano de fundo para essa história sobre traumas da ditadura e passado familiar. Nele, a luz solar tem dificuldade de entrar, os vidros batem e sussurram, e risadas são ouvidas por baixo da porta. O sobrenatural acompanha a trama e gera alucinações, visões de mortos e crises de ansiedade.
Para os filhos dessa família envolvida com a ditadura militar e o naz1smo, afastar o passado não é tarefa simples — ele está em cada situação. Por isso também que a escrita do Ferroni mistura as lembranças com o presente, como se tudo fizesse parte da mesma linha temporal. Achei uma ótima sacada.
Há momentos de tensão e cenas que parecem sair de um sonho febril. O desespero é a linguagem que os personagens se comunicam. Tantos mistérios me fizeram ler em um dia, não ia segurar a curiosidade.
Finalmente um livro que explora a capacidade do horror da minha cidade Rio de Janeiro!! Cada vez que eu percorro as ruas do centro da cidade, as estradas do Alto da Boa Vista, as vielas do subúrbio carioca me pego pensando no quanto essa cidade tem um legado assombrado. O Brasil é, em si, um enorme cemitério maldito, e o Rio de Janeiro, por sua localização e história, carrega vários desses fantasmas.
Marcelo Ferroni escreve sobre fantasmas modernos, recentes até, que dialogam com traumas políticas e sociais. É óbvio que a pandemia oscila todo o horror do livro, mas aqui percebo dores geracionais que vêm com a própria cidade e seus arquétipos. Como carioca, consigo enxergar direitinho os personagens dessa família, pessoas que foram consumidas pelo medo, pela misoginia, pela covardia, pelos próprios conservadorismos. Infelizmente, são pessoas que reconheço pelas ruas do Rio. É uma família decrépita num apartamento assombrado só poderia viver na zona sul, que vive da herança e do legado de "tempos aúreos" nada louváveis. Não gosto desses personagens, não sinto empatia (sou obrigada a sentir empatia?? kkk), mas ao mesmo tempo os conheço profundamente, e por isso mesmo é uma leitura que você se agarra e devora.
Como é bom ler meus tropes de terror favoritos ambientados na minha cidade, nos meus medos cotidianos. A ficção (e especialmente o terror, gênero máximo da metáfora!) são formas de elaborar a realidade, e, principalmente depois da pandemia, do impeachment, da familícia, e de tudo que passamos nos últimos 6 anos de Brasil, essa leitura veio como um brinde nefasto e necessário. Isso sim que é terror à lá brasileira 😌
Adorei, fazia tempo que eu não ficava tão envolvida em uma leitura. O livro tem muitos méritos, consegue causar medo e tensão, surpreender e horrorizar, mas o que mais achei admirável é a construção dos personagens, que são assustadoramente reais. Sinceramente o único defeito desse livro é que ele acaba, rs.
Levando em conta só a etimologia do termo, um poltergeist seria apenas o bom e velho fantasma arrastando correntes — afinal, segundo o dicionário, trata-se de uma junção das palavras alemãs polter (no sentido de “bater” ou “fazer barulho”) e geist (“espírito”). No entanto, quando exportado do folclore alemão, o termo ganhou um sentido mais amplo, ligado principalmente à psicocinese em ambientes domésticos: coisas desaparecendo e aparecendo em outros lugares, sons misteriosos, anormalidades na rede elétrica e na tubulação de água dos imóveis, objetos lançados e arrebentados, barulhos misteriosos, incêndios espontâneos e até pancadaria — sim, há relatos de poltergeister distribuindo sopapos a torto e a direito. O Brasil, inclusive, é um celeiro fértil para o fenômeno, com direito a um quadro semanal num programa dominical de grande audiência, comandado por um carismático padre argentino.
Na ficção de terror, muitas vezes o fenômeno poltergeist acaba naturalmente fundido e incorporado ao da assombração, mas existem diferenças, que são numerosas (e talvez tediosas) demais para citar aqui. Basta sabermos que, quando um poltergeist atua, os principais elementos presentes são a psicocinese (coisas e pessoas arremessadas pela casa sem a menor cerimônia), a intencionalidade (o poltergeist tem um alvo definido) e a famosa barulheira infernal (autoexplicativa). São ataques mais direcionados, objetivos e destrutivos, em geral concentrados em um único indivíduo. Ou seja, nem sempre é a existência de moradores da casa que provoca o distúrbio, e sim a presença de uma determinada pessoa — o epicentro, para usar a linguagem da parapsicologia.
O romance A febre, de Marcelo Ferroni, se vale desse elemento das histórias de terror para compor uma narrativa sobre o autoritarismo brasileiro através de três gerações em sua célula constitutiva básica: o núcleo familiar. Com a introdução do poltergeist, o cenário criado é o de horror, mas não se trata exatamente da ficção de gênero — ali a função dos personagens normalmente seria a de desvendar e confrontar o fenômeno, enquanto aqui a narrativa gira em torno das potências e impotências sociais em personagens aturdidos e alheios ao significado da ameaça que enfrentam. Nesse sentido, a referência mais próxima desse uso da ficção especulativa é o romance anterior do próprio autor, As maiores novidades (mapa lab, 2021), em que um tema da ficção científica, a viagem no tempo, é mobilizado para compor um retrato do mundo corporativo globalizado.
Portanto, a investigação mais profunda do livro não é sobre poltergeister ou outras manifestações paranormais, e sim sobre o autoritarismo que percorre as gerações da família: o avô, político e ministro do general-presidente Dutra, além de escritor, membro da ABL e autor de um romance cujo título é justamente A febre, sobre “uma família tradicional carioca ameaçada pela tibieza moral de dois filhos, que cedem ao comunismo e à homossexualidade”. O pai, um tirano doméstico, membro do Ministério Público na época do “presidente” Geisel e, mais tarde, advogado de futuros milicianos em transações imobiliárias de caráter duvidoso na Zona Oeste do Rio. E os três filhos: o mais velho, uma cópia-carbono do pai; o do meio, um professor que se diz de esquerda, mas que demonstra mais vocação para capacho e pelego; e a caçula, vítima da brutalidade verbal e física do pai e do irmão mais velho, homossexual que trabalha numa ong, e a personagem mais consciente do poltergeist na casa paterna.
Numa noite de horrores, em meio à pandemia de covid-19, os dois irmãos acabam tendo que passar a madrugada com o pai, vítima da demência e epicentro do poltergeist, revivendo antigos traumas e reabrindo cicatrizes profundas. À medida que o apartamento é atacado implacavelmente por eventos psicocinéticos desconcertantes, ao que tudo indica precipitados pela metástase do câncer autoritário encarnada pelo bolsonarismo, mais e mais episódios do passado vêm à tona: grandes feridas abertas e purulentas que parecem prestes a destroçar de vez um modelo de estrutura familiar — e da classe social que representa — totalmente corrompido, comprometido e desintegrado.
It's a very interesting book, but it has too much introduction and little conclusions, almost no development at all. As a horror book, it didn't work for me. Using the subgenre of the haunted house, the author subverts it by creating ghosts that exist only in the memory and in the individual perception of each character, almost like they're only the reflexes of a heavy consciousness. All very interesting, but not too scary or unsettling. Maybe missing a bit of sensibility for horror, to create the tension better. Things happen ridiculously, they create a tension for the character more because of Marco's absolute ineptitude than anything else. Ghosts appear briefly to remind you that the house is a terrible place, just like your conscience, but don't reduce the characters to a paralysis for the ineluctable fear of that which lurks in the corridor.
That being said, what makes the book so interesting is the premise and the way it is introduced, since the events make the reader reflect upon various topics related to the dictatorial violence, given the development of the family's background. The grandfather, a sort of patriarch, was an integralist writer, author of a book called "A Febre" about a family corroded by the communist offspring. The father, very authoritarian, is in bed, sick with some fateful disease, and his son Marco, resigned and conformed, goes to the house to take care of him. Soon his brother Cláudio appears, the embodiment of evil, and he hides their father's medicine, Marco being too weak to stop him, becoming an accomplice. The sister Joana takes longer to show up, away from the family since she's not accepted as a woman who harms the heteronormativity that's a core value of their father Abel, her who was always the only one with practical abilities in the family.
The big lesson from this book is that passivity is not neutrality, but rather a quiet favoring of the oppressor. The narrator's comment when Marco leafs through an old book by their grandfather, searching for some polemical and unpopular opinions loudly announced but finding nothing, is proverbial. "This work was made so that the few contemporaries could recognize their families". In a context where history is erased by the dictatorship, knowing the past is a privilege of those favored by the regime. Marco forgets the oppressed when all he finds is a seemingly harmless account of genealogy.
tem quem diga, erroneamente!, que existem só duas abordagens para qualquer história de horror: você pode, claro, usar sua alegoria de forma extensa e criar uma grande parábola sobre alguma angústia social; e você pode criar algo que ultrapasse a barreira da realidade e adentre no oculto, no sobrenatural, nas sombras de si mesmo.
o que o marcelo ferroni faz aqui é ambos, mas, sinceramente, me dá uma alegria quando consumo algo nacional que não tem receio de ser parte de um gênero. existe sim, costurado nos traumas de uma família corroída pelas falhas tanto de seus genitores quanto de seus caráteres, um forte comentário sobre como o brasil nunca superou seus demônios internos. o fantasma do fascismo não surgiu em 2018, mas estava ali, circundando ao redor da misoginia casual e das piadinhas "raiz."
o que faz deste um livro especial é que ele não se isenta de ser sobrenatural. as paredes que apodrecem, as risadas na madrugada, a força em ossos secos, e um segredo sussurrado nos lábios de uma morta. tudo se acumula, desde os mistérios sobre o que realmente acontece. o que mais acho perturbador é como o final, mesmo inconclusivo, ainda dá um tom de esperança para o destino fiel. nada pode ser tão deliciosamente cruel — e brasileiro.
Há algo de extraordinário na maneira como esse livro consegue ser sufocante e, ao mesmo tempo, como ele consegue prender o leitor na narrativa fazendo com que só seja possível parar de ler ao terminar a história.
A progressão com que os personagens e a sanidade deles vão se desfazendo ao longo do livro fazem com que a narrativa construída por Ferroni aqui soe como uma faca próxima à garganta da qual não se pode escapar mesmo querendo, mas, de alguma forma, não queremos isso.
Queremos mais e mais. Não importa quantos traumas sejam trazidos, o quão estranho tido fique, o quão desconfortável o que acontece nessa história faça com que fiquemos, ainda sim estamos presos em uma relação de presa e predador onde ela, como predadora, consegue nos trazer, como presas, cada vez mais para perto.
Incrível, confuso no início e estranho no final, mas incrível.
Eu literalmente perdi uma noite de sono só para ler A febre (2023). E foi uma ótima decisão!
O titulo é exatamente a experiência da leitura: uma febre obsessiva que te impede de largar esse livro. Fiquei a noite em claro porque cada capítulo me sugava para esse ambiente hostil, nojento e pulsante.
Foi uma ótima leitura! Se você tem planos de ler essa narrativa, saiba que não vai conseguir desgrudar desse livro.
achei um livro bem esquisito. acho até que era o propósito, mas não me pegou. achei arrastado, admiro o tom mais gore e grotesco, mas no fim achei que falou falou e falou e não chegou a nenhum lugar :/ me forcei a ler até o final e achei o capítulo da Joana o mais interessante. todos os personagens absolutamente insuportáveis, mas entendo que era a intenção. odiei todos. Joana foi a melhorzinha e, infelizmente, a que menos apareceu. de novo, acredito que tudo tenha sido intencional, mas não funcionou pra mim. achei arrastado e monótono
lixo acumulado, a tampa emborcada, louças partidas, nacos de terra, o cabo de uma vassoura, sua cabeça cortada. os dejetos da memória se elevaram na enchente, romperam a lama da cova e estão ali, entre eles.
“A ilustre família, ilustre como todas as mais respeitadas famílias de bem, acumulou tantos ódios ao longo dos anos que a própria casa se tornou ressentida e venenosa”