Luiz Antônio Simas (Rio de Janeiro, 2 de novembro de 1967) é um escritor, professor e historiador, compositor brasileiro e babalaô no culto de Ifá.
Professor de História no ensino médio, é mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Simas já trabalhou como consultor de acervo da área de Música de Carnaval do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, e como jurado do Estandarte de Ouro, maior premiação do Carnaval carioca. Foi também colunista do jornal O Dia[2], e desenvolveu o projeto "Ágoras Cariocas", de aulas ao ar livre sobre a história do Rio de Janeiro. Em seus livros, procura resgatar a memória oral da cidade, especialmente da população marginalizada
Os livros do Simas falam por si só, então deixarei uns trechos abaixo. Os três referente a samba. O material de trabalho do autor são as ruas, a história do Rio de Janeiro, da formação da identidade brasileira, estratégias de resistência ao desencanto proposto por grupos que querem a qualquer custo higienizar esse país.
"Crônicas Exusíacas" é um livro de textos curtos, bem ligeiros de ler, quase um apanhadão geral de muita coisa que já ouvi o Simas falando em redes sociais e palestras. Muito bom e ligeiro. Se você nunca leu nada dele, recomendo começar por "O Corpo Encantado das Ruas" e pegar esse em seguida.
Trechos: Escolas de samba são – em suas origens – instituições comunitárias de construção, dinamização e "redefinição de laços associativos e comunitários dos negros cariocas no período pós-abolição. Um desfile de escola de samba tem particularidades incompreensíveis para aqueles que não têm qualquer laço de pertencimento com estas vivências e seus rituais."
"A experiência da casa da Tia Ciata mostra também que a história do samba é muito mais que a trajetória de um ritmo, de uma coreografia, ou de sua incorporação ao panorama mais amplo da música brasileira. O samba é muito mais do que isso. Em torno dele circulam saberes, formas de apropriação do mundo, construção de identidades comunitárias, hábitos cotidianos, jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Tudo isso que se aprendia e se ensinava na casa de Ciata de Oxum, na rua Visconde de Itaúna, 117"
"O agogô também é utilizado nas macumbas cruzadas das umbandas e omolocôs, chamando caboclos, pretos-velhos, povo de rua, crianças, boiadeiros, marujos, ciganos e todas as linhas das entidades dispostas a descer nas gumas para quebrar as barreiras entre a morte e a vida."
O autor e os objetos de sua obra se encontram num único espaço: o Rio de Janeiro que inventou o Brasil que conhecemos, que jorrou influências para todos os cantos do país, deixando-o complexo, contraditório, dividido entre a esperança e a razão. Os textos deste livro são breves histórias contadas na mesa de boteco, como numa das aulas públicas que o Simas dá no Cervantes, em Copacabana, por exemplo, mas também tem um tom que foge das palestras ou demagogias instauradas por aqueles que querem saber demais ou que clamam, sem procuração, a tutela da verdade. Os textos sabem o que sabem e isso é o suficiente para nos deixar a nós, leitores, com vontade de mais, vontade de desbravar nossa própria formação cultural, conhecer os recantos de nossas cidades, descobrir os vultos de nossa História, em especial aqueles que foram apagados pelos vultos de nossa História. Ler este livro é como ter desejos de nós mesmos para além do que fomos ensinados a querer de nossa presença cívica ou nos sacudir para fora da carcaça do homem cordial. Quisera pudéssemos falar mais sobre nas escolas, nas aulas menos europocentradas, no acolhimento de nossa algaravia enquanto povo. Recomendadíssimo!
4,5 porque não foi toda crônica que me brilhou os olhos, mas Simas é de um conhecimento absurdo, e aqui teve uma escrita completamente gostosa e despretensiosa daquelas que te faz querer sentar num boteco com ele por algumas horas só trocando causo, e te faz (re)apaixonar pela lindíssima língua brasileira com todas suas influências e seus jeitinhos.
Luiz Antônio Simas, o autor desse bom livro, nascido na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1967, é escritor, professor, compositor, professor e orgulhoso babalaô no culto de Ifá. Mestre em História Social pela UFRJ atua como professor nessa mesma instituição e destaca-se como grande especialista na cultura afrodiaspórica e dedica-se a preservar a rica tradição folclórica brasileira assim como a cultura do samba e das escolas de samba frente ao avanço de elementos de culturas estrangeiras em especial dos Estados Unidos e tem vasta e elogiada obra publicada. “Crônicas Exusíacas & Estilhaços Pelintras”, publicado em 2023, traz 77 textos breves que permitem leitura fluida em que o autor trafega com desenvoltura pelo seu amado e idolatrado Rio de janeiro povoado por personagens insólitos como Jaiminho Alça de Caixão, o "célebre" criador da profissão de papagaio de pirata; o maestro Tom Jobim tomando uísque com o imperador Nero (incorporado por um médium) e muitos outros mais que ilustram e enriquecem a abordagem privilegiada do autor de tema vitais como a violência do capital e do Estado por ele dominado sobre corpos (principalmente negros), culturas e territórios, a força do encanto e do encantamento, a força e a influência do samba e a dubiedade do jogo do bicho, parte indissociável da cultura carioca e, ao mesmo tempo sua parte perversa. Muitos textos são curtíssimos e algo inconsistentes trazendo esboços de temas que o autor poderia ter desenvolvido (bem) mais. Além dessa ressalva vale a pena mencionar um elemento que é praticamente onipresente nos textos do autor: o apelo sistemático, apaixonado e devoto às religiões de origem africana das quais ele é devoto. Confesso que tanto palavrório ligado a misticismos e cultos ligados a essas crenças religiosas me incomodou em função de sua subjetividade que nada, ou quase nada, diz a um cético como eu. No entanto quando o autor se debruça sobre temas mais ligados às Ciências Sociais das quais sou um grande fã e leitor o livro cresce em relevância e desperta genuíno interesse. Vale a pena reproduzir um trecho da crônica “O encontro entre Exu e Walter Benjamin no morro da Mangueira”, uma das melhores desse livro:
“Na percepção de Benjamin (Walter Benjamin – 1892/1940 - ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão ligado à chamada “Escola de Frankfurt, fortemente influenciada pelo Marxismo), o passado não é um dado imutável. A construção do futuro passa, necessariamente, pela reconstrução do passado e das suas lutas, e o compromisso ético do historiador não se estabelece apenas com os vivos e com os que ainda virão, mas também com os mortos. A escrita da história não é neutra; ela pressupõe embates e o “progresso” não pode ser considerado norma, sob pena de calarmos diante das catástrofes e silenciamentos que, em nome dele, foram praticados. Foi dessa crença inabalável no progresso, que justificou todo um espólio de horrores, que o fascismo se alimentou. Escovar a história a contrapelo é voltar ao passado para recuperar as lutas populares e seus personagens – aniquilados pelo peso do horror dominante – e redimensioná-las como centelhas de esperança – a expressão é de Benjamin -, capazes de estimular nossas lutas e compromissos. Como alerta o filósofo, a vitória dos inimigos não se estabelece apenas sobre os vivos, mas também sobre os mortos de incontáveis gerações”.
Belas e sábias palavras do professor Simas. Ótima pedida!