Apesar da escrita inteligente, de certa forma poética e bastante desafiante, com o uso de vários vocábulos incomuns, a história deixa muito a desejar. Os acontecimentos são relatados de forma imparcial e no presente, algo que gostei bastante, por um narrador que "participa" na história, visto que interage e está "presente" em algumas cenas, mas não é personagem nem as personagens sabem da sua existência. A história não é excitante, contudo, faz-nos sentir que a vida é a vida: não existem grandes expectativas, ela apenas acontece, não existem grandes motivos, grandes propósitos. As pessoas são o que são.
A personagem principal, Bárbara, é praticamente uma "morta". A sua vontade estava em Renatinho, o menino que adotou e, quando este se foi, ela também se foi um pouco. A sua relação com o suposto "namorado" é diferente do que o que estou habituado. Não se amam, apenas convivem, aceitando a existência de cada um. As obsessões de Bárbara agravam o desinteresse que Guilherme tem desde o início.
De forma geral, os motivos das personagens não são muito claros. Bárbara e Guilherme amam-se? Não. Mas continuam juntos. Existe algum carinho, compaixão talvez, mas amor não. Apesar de sabermos que Bárbara não está bem psicologicamente desde o início, os seus internamentos não fazem muito sentido. Os motivos que levaram Damião a esconder documentos de Guilherme permanecem sem resposta. Como leitores, não entendemos as personagens; somos apenas observadores da imaginação do autor, que incorpora o narrador desta história. O desaparecimento de Renatinho II e, especialmente, o desinteresse dos pais pela criança permanecem sem explicação, sendo justificados como acontecimentos normais.
Outro ponto positivo, ou diferente é o uso de reações das personagens que já morreram a situações que ocorrem ao longo da trama.