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Autobiografia Não Autorizada 2

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SEGUNDO VOLUME DAS CELEBRADAS CRÓNICAS DE UMA GRANDE FICCIONISTA

«Talvez tivesse sido melhor começar por falar da decisão de me usar como personagem: tendo em conta que, numa crónica, se espera que o autor esteja mais declaradamente presente, este seria o sítio em que experimentaria não fugir de mim. (…) Bem sei que era arriscado: vivi histórias extraordinárias, vi‑me envolvida em situações terríveis, também eu se quisesse enlouquecia. Talvez não fosse prudente aventurar‑me por mim adentro. Daí a autobiografia ser não autorizada. Escreveria a minha biografia à minha revelia. O ilícito desmascarado no não autorizada dizia‑me exclusivamente respeito. Nunca pensei que pudesse ser de outro modo.

Evidentemente que ao falar de mim, falaria também daqueles que estão ou estiveram comigo, dos que passam ou passaram por mim. Não estou sozinha, nunca estive sozinha, não sei estar sozinha. Não quero estar sozinha. Os outros estariam a salvo nas minhas crónicas, eu seria a única a correr perigo: estilhaçar‑me na minha memória. (…) Não sei escrever sobre o que não amo. Escrever é descobrir, é conhecer. E conhecer, se não é amar, é pelo menos dispor‑me a amar. Dispor‑me a amar coisas ignóbeis, às vezes. O que também é assustador. Aqueles que não amo nunca terão lugar no que escrevo. O que escrevo é iluminado pelos que amo, são eles que escrevem o que escrevo. Ou, dito de outra maneira, eu sou os que amo, são eles que me escrevem.»


— D.M.C


Este livro reúne as muito celebradas crónicas publicadas na revista Visão.

248 pages, Paperback

First published September 29, 2023

13 people are currently reading
290 people want to read

About the author

Dulce Maria Cardoso

25 books594 followers
Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964, na mesma cama onde haviam nascido a mãe e a avó. Tem pena de não se lembrar da viagem no Vera Cruz para Angola. Da infância guarda a sombra generosa de uma mangueira que existia no quintal, o mar e o espaço que lhe moldou a alma. Regressou a Portugal na ponte aérea de 1975. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, escreveu argumentos para cinema, gastou tempo em inutilidades. Também escreveu contos. Tem fé, uma família, um punhado de amigos, o Blui e o Clude. Continua a escrever e a prezar inutilidades. Vive em Lisboa.

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Displaying 1 - 22 of 22 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,673 reviews566 followers
August 15, 2024
Sabes escolher melancias?, perguntou-me o meu avô. Acenei que não, Um dia destes ensino-te, não se aprende a escolher melancias nos livros, os livros só ensinam o que não faz falta, deve viver-se sem pensar no que faz falta.

Este segundo volume da “Autobiografia Não Autorizada” não me pareceu tão inspirado como o primeiro, mas acredito que seja difícil manter a frescura e a pertinência em mais de 50 crónicas. Apesar deste pequeno reparo, foi prazeroso reencontrar as pessoas de Dulce Maria Cardoso, acompanhar os seus dias, regressar com ela à infância em Angola, uma viagem de que nunca me canso…

Esperava-nos o almoço, os tristes churrascos de quintal dos brancos, tristes, tristonhos, tristonhos, porque a alegria talvez seja a coisa mais difícil de imitar.

…e vê-la partilhar as suas leituras:

Reparo que ultimamente só tenho lido mulheres. Releio, ao acaso, frases que sublinhei nesses livros. Tive Ditlevsen, (…) Magda Szabó, (…) Annie Ernaux, (…) Irmgard Keun, “Hesitei em mostrar a minha ignorância, o que, diga-se de passagem, nunca é boa ideia.”

Há, porém, dois textos que ressoaram realmente em mim, um porque é de uma honestidade rara que custa admitir.

Dantes, a Morte varria os pais velhos, eles caíam, a terra engolia-os e os filhos avançavam expostos, eram a nova frente da batalha. Agora, somos superviventes, a Morte recua, continua a disparar, mas em vez de matar logo, vai matando aos poucos. (…) Também eu dolorosamente me pergunto: como posso amar a minha mãe quando ela já não é a minha mãe?
- “Correspondência #2: Cuidar, cuidou, cuidado” -

E outro por ser muito especial, sobre as amizades que fazemos já em adultos.

A minha amizade com a C. é uma bela amizade tardia, duas almas de vidas feitas, muitos obstáculos transpostos, que finalmente se encontram. Na verdade, não existem amizades tardias. Eu é que sou já tarde. A amizade é sempre adolescente, um corpo entretido com o seu crescimento, incapaz de se convencer de que o futuro não é eterno.
-“Para a C., com amor”-
Profile Image for Rita da Nova.
Author 4 books4,655 followers
Read
July 9, 2024
“Neste segundo volume mantém-se a sensibilidade e o olhar de Dulce Maria Cardoso, mas senti que, ao contrário do primeiro, aqui se notava muito mais a época em que os textos foram escritos. Se os do primeiro livro eram mais intemporais, estes têm muito mais presente a marca dos tempos recentes, como os acontecimentos da pandemia, pós-pandemia, etc. Nesse sentido, parece-me uma coletânea com contornos mais nostálgicos, mais pesados, embora com a qualidade de sempre.”

Review completa em: https://ritadanova.blogs.sapo.pt/auto....
Profile Image for Marta Clemente.
756 reviews20 followers
March 18, 2024
A Dulce Maria Cardoso escreve tão bem! É um gosto ler os seus livros!
Nesta "Autobiografia não autorizada 2" continuamos a conhecer as histórias da sua vida através das crónicas que publica semanalmente na revista Visão.
Que escreva muitas mais e que continue a colecta-las em livros, que eu cá estarei para os ler!
Profile Image for Vera Sopa.
745 reviews72 followers
October 8, 2023
"Olhar para o meu passado envolve quase sempre um exercício de compaixão para com as outras que fui sendo, neste caso com a jovem e desajeitada mulher à espera de um futuro jubiloso que, sei agora, nunca chega. "

E foi quando bastou para eu voltar a ficar rendida às crónicas de Dulce Maria Cardoso na sua Biografia não Autorizada.
A naturalidade de ser que tanto admiro. A viagem que fazemos ao passado que tanto abraçamos como lamentamos e quantas vezes em simultâneo. O sentido crítico sobre o futuro no presente que se vive. O absurdamente trágico e o desprezível banal. Tanto saber condensado em muitos pequenos textos. E mesmo sem ter aprendido a ser escritora é exemplar. A maneira simples como se dá a conhecer profundamente, mesmo que como personagem. E que se quer próxima.
Profile Image for Sofia.
1,038 reviews128 followers
March 9, 2024
"Raramente aprendemos pelos livros o que não importa. Ou o que, importando, não devia importar."

Dulce Maria Cardoso é sempre uma escolha segura, para mim. Sei de imediato que vou gostar do livro, sei que vou gostar de qualquer livro que esta autora escreva. Até podia escrever sobre listas telefónicas que tenho a certeza que conseguiria tornar a história interessante e tocar-nos com a humanidade da sua escrita.

"(...) eu não conseguia explicar a relação enovelada que meus pais tinham com Trás-os-Montes, eles gostavam muito da sua terra, desde que estivessem longe dela, há amores assim, que só a distância salva."
Profile Image for Rita.
111 reviews7 followers
December 2, 2023
4,5🌟

"Não sei escrever sobre o que não amo. Escrever é descobrir, é conhecer. E conhecer, se não é amar, é pelo menos dispor-me a amar. Dispor-me a amar coisas ignóbeis, às vezes, o que também é assustador. Aqueles que não amo nunca terão lugar no que escrevo. O que escrevo é iluminado pelos que amo, são eles que escrevem o que escrevo. Ou, dito de outra maneira, eu sou os que amo, são eles que me escrevem. E os meus pais nunca se calarão, contando-me das personagens que também eu passei a amar. Despudorado, o amor é contagiante.
No Rio de Janeiro, na esplanada onde a Agustina Bessa-Luís e eu comíamos uma refeição leve antes de irmos para o aeroporto, comentei a propósito do que ela acabara de me contar, Os amores mais fortes, os amores maiores, são os que comportam a lucidez, podemos falar deles com total sinceridade que isso não os belisca, só os engrandece. Os amores mais fortes são os que comportam a lucidez, Não se esqueça dessa frase, disse-me a Agustina, um dia escreva-a"

Este foi o meu primeiro contacto com a escrita de Dulce Maria Cardoso. Tinha muita curiosidade e muitas expectativas e não ficaram nada defraudadas. Que maravilha que é ler a Dulce e conhecer as experiências e as pessoas da Dulce. Ficou a vontade para a seguir ler um dos seus romances, mas no que toca às crónicas poucos foram os autores que me encheram tanto as medidas.
Profile Image for Ana Rita Silva.
266 reviews27 followers
July 27, 2024
nesta “coletânea de crónicas”, Dulce Maria Cardoso brinda-nos com a mesma qualidade de escrita de sempre, mas, ao contrário da primeira «autobiografia não autorizada», esta é pautada por bastante melancolia, saudade, e histórias que têm mais finais tristes do que felizes, porque, tal como a autora escreve, «há histórias que têm finais felizes. e depois há as outras, as mais parecidas com a vida.» . é sempre um gosto ler Dulce Maria Cardoso e não quero imaginar o dia em que não tenho mais nada da autora para ler.

«a mão dele à procura da da minha mãe. Devíamos morrer de mãos dadas, lado a lado, numa cama grande, não numa estreita cama de hospital de corpo só, morrer de mãos dadas, como se a fotografia dos jovens apaixonados que todos merecemos ter sido caísse ao chão e nos matasse docemente.»

«ainda não sabia nem ler nem escrever quando a Berta preta foi violada por soldados portugueses num fim de tarde de domingo, nem quanto os polícias correram ao pontapé os negros que vendiam pinturas e estatuetas à frente do cinema África, nem quando o supermercado da D.Ludovina foi assaltado e as paredes pintadas com o sangue da galinha que ficou esventrada em cima da caixa registadora, juntamente com ossos e cinzas, num feitiço que – diziam – acabou por adoecer toda a família, nem quando o Sr. Messias chicoteou o servente negro or suspeitar que ele bebia o uísque, nem quando o Sr. Manuel escorraçou do bairro o rapaz que lhe engraxava os sapatos por um motivo que ninguém soube, nem quando assassinaram o Sr. Basílio, o pai da Alda, contava-se que os turras tinham esquartejado e pendurado o corpo dele num embondeiro à mercê das aves de rapina, nem quando… ainda não sabia ler nem escrever, mas desde sempre tudo me ensinava que nós éramos brancos e eles não, nós éramos colonos e eles não, nós rezávamos na igreja e eles não, nós usávamos sapatos e eles não, nós tínhamos saudades da Metrópole e eles não, nós íamos à escola e eles não, nós vivíamos em casas de cimento e eles não, nós tínhamos carro e eles não. não se cresce sem conhecer as explicações que vão embrulhando o inexplicável. toscas, desprezíveis, amortecem os tropeções do crescimento.»
Profile Image for Ana Ferreira.
39 reviews2 followers
April 19, 2025
São crónicas que nos fazem sentir reais. muito leve de ler e com uma escrita acessível mas extremamente bem escrita
Profile Image for Ana Sofia Filipe.
274 reviews2 followers
September 26, 2024
Que bem escrever!
Uma generosidade enorme da autora em partilhar estas suas memórias - ou, mesmo sendo casos de ficção (nunca saberemos distinguir o que é real ou ficcional), a vulnerabilidade e a exposição bonita e infantil até é comovente.
O poder de observação desta pessoa, a importância do detalhe, das árvores e das plantas, dos pássaros, é admirável. Bem como o poder de elaborar a partir desta realidade.
Ler Dulce Maria Cardoso é sempre uma escritora segura.
Profile Image for Дмитро Д..
40 reviews
January 2, 2024
Sempre é apetecível ler o que a Dulce escreve. Semelhantemente à primeira obra, as crónicas fazem com que as sensações, opiniões, experiências, lamúrias e alegrias sejam partilhadas entre autora e leitor, quem chega ao ponto de fazê-las suas durante uns instantes.
Profile Image for Susana.
49 reviews1 follower
February 26, 2025
Mais uma viagem às memórias desta autora que tanto prazer me deu descobrir!

"Não me apaixonei pelo Lorenz, mas estava apaixonada pela ideia de viver novamente uma paixão.(...) Despedimo-nos de vez. Novamente. Na vida real, só as doenças ou os acidentes têm sequelas."

"...afinal, a garrafa não é uma garrafa, é uma jarra que esteve meio século à minha espera. Tenho-a à minha frente, na secretária em que escrevo. Com o gerânio.
Agora que sei a resposta, era bom que também eu pudesse sossegar."

"Tenho medo de que a proximidade desta mãe faça com que eu me esqueça da outra mãe e de mim. Tenho medo, um medo ainda maior, de que a outra mãe, a minha antiga mãe, queira regressar e encontre a casa fechada."

"Mais o que decidir que não seria mãe, foi acontecendo não decidir que o seria."

"Os amores mais fortes, os amores maiores, são os que comportam a lucidez, podemos falar deles com total sinceridade que isso não os belisca, só os engrandece. Os amores mais fortes são os que comportam a lucidez, Não se esqueça dessa frase, disse-me a Agustina, um dia escreva-a"
Profile Image for Francisco.
561 reviews18 followers
November 29, 2023
The second volume collecting Cardoso's short chronicles, previously published in a weekly magazine in Portugal, the short chapters are, as the title suggests, in most cases autobiographical, and as such they do follow some kind of chronological order, mainly set during the COVID pandemic. 

However, this temporal location is constantly upended by the reflective quality of the essays, which very often turn to earlier periods of the author's life. Her childhood in Angola, absent friends, old loves and experiences around dealing with loss and mortality. 

Cardoso is not only a great writer when describing her own feelings towards the persons she loves or her own nostalgic remembrances, she is also a great observer of Portuguese daily life, with a bittersweet mix of compassion, hope and hurt, this is some of the best short form writing in the language today.
28 reviews
January 14, 2024
TEREMOS SEMPRE VENEZA

CORRESPONDÊNCIA #1: COM QUE DIREITO?

No Rio de Janeiro, na esplanada onde a Agustina Bessa
-Luís e eu comíamos uma refeição leve antes de irmos para o aeroporto, comentei a propósito do que ela acabara de e contar, Os amores mais fortes, os amores maiores, são os que comportam a lucidez, podemos falar deles com total sinceridade que isso não os belisca, só os engrandece. Os amores mais fortes são os que comportam a lucidez, Não se esqueça dessa frase, disse-me a Agustina, um dia escreva-a.
Profile Image for Pedru.
12 reviews2 followers
April 2, 2024
Escrita super acolhedora, aconchegante até. Cada crónica é um mundo à parte e o universo estabelecido é muito bonito de se ler. Sabe bem entrar na vida de alguém a convite e sair com conforto e algumas lições
Profile Image for Sofia Sobral.
1 review3 followers
October 27, 2024
“Entro no carro, arranco como se estivesse a fugir. Não levo nada comigo, mas tenho a certeza de que se me abeirasse de um balcão de embarque do aeroporto, de um terminal de comboios ou de autocarros de longo curso, ficaria retida por excesso de bagagem: levo-me.”
Profile Image for Rui Colaço.
35 reviews3 followers
April 5, 2024
Muito desinspirado em comparação com o primeiro E com as crónicas da visão.
Profile Image for Zé Carlos.
288 reviews2 followers
October 22, 2024
4,3⭐️
Livro muito bom. Pequenas crónicas/contos, com uma narrativa madura, simples e inteligente. Gostava de saber escrever assim. Como não sei, leio.
Profile Image for Carla Silva Cardoso .
16 reviews1 follower
November 13, 2025
Como não dar 5 estrelas? A escrita da Dulce Maria Cardoso é genial: desperta-nos, embeleza a vida e deixa-nos sempre melhores depois de passarmos por ela. Não é isso que conta? Sou totalmente fã.
Profile Image for Rafaela.
4 reviews
December 27, 2025
Li os dois volumes de uma assentada e confesso que, a páginas tantas, achei demasiado. Porém, inesperadamente, cheguei ao final de olhos inundados e com a triste sensação de que no dia seguinte já não teria como ter notícias da amiga que fizera nas últimas semanas. Recomendo — tem crónicas que são pura delícia. Então a da Sãozinha encharcada... É de rir e chorar em simultâneo.
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