graphic novel vencedora do prêmio Jabuti de 2024 e indicada ao Angoulême, escrita pelo mesmo autor do EXCELENTE "O Monstro Debaixo da Minha Cama" (disponível na assinatura do Kindle Unlimited, pra quem tiver interesse num primeiro contato com ele), mas com um roteiro ainda mais seco
ambientada no Sertão potiguar, onde uma família vive à mercê da seca e da miséria, com uma filha imobilizada por uma doença que lhe tira o movimento e a fala, além de causar (acredito que sejam) ataques epilépticos (meningite? síndrome de Rett? acredito que os pais, assim como nós, sequer saibam), Como Pedra fala de miséria, fé, ausência de esperança e fanatismo religioso. uma mãe desesperada e um pai sem perspectiva, que não conseguem amparo da mídia nem das políticas assistenciais, e buscam (péssimas) respostas do além
a Pedra do título pode ser tanto o peso de carregar a própria filha, inerte, como da pedra do sacrifício, tão referenciada na Bíblia, na qual o significado do sacrifício e do sofrimento é o mesmo da libertação. em ambos os sentidos, a pedra dá razão pras suas vidas, mas também as destrói. esse "peso" da pedra para uma família que parece viver com um fardo pode ser pior se retirado deles
a HQ é silenciosa, leitura rápida e muito pesada, com poucos balões de fala, mas impacto em cada virada de página. Luckas é excelente em firmar uma ambientação com sequência de quadros, e a limitação de cores aqui (só é usado o preto, o branco e o amarelo) intensifica a sensação de desolamento. não é uma história otimista nem em suas últimas páginas
logo na epígrafe, fica claro que a HQ é uma versão sertaneja do mito de sísifo. o gesto maternal de acatar o sofrimento imposto pelo destino sem esmorecer parece sair da teoria absurdista de Camus. a mãe, como geralmente ocorre, opta por carregar todas as pedras
obrigada ao amigo Gustavo que me emprestou!!!