O que terão em comum um velho à beira da morte numa cama de hospital, o escritor de um bestseller, um pré-adolescente inquieto e um menino de dois anos com um fascínio por livros? Que destino espera as amigas Maria Ana e Ana Maria – o espelho uma da outra? Conseguirá uma livrar-se do marido agressor, e a outra do sofrimento da perda? E Marinela? E Mariana? E a mãe solteira que existe em todas elas, fruto de um abandono continuado? E o pai, protagonista do descalabro? E o futuro, que teima em ser passado, e o passado, que teima em ser futuro? O tempo é o grande mistério. É ele que se ri de nós do outro lado do espelho, no reflexo onde procuramos o sentido da existência e que teima em nos devolver a imagem do absurdo. É também ele que perpetua um incessável padrão de violência, que faz com que a mesma história se repita uma e outra vez, lutando contra a esperança do leitor de que o ciclo, por fim, se quebre. Neste ousado e original romance, Gabriela Ruivo oferece-nos com maestria um universo alternativo onde o tempo se sujeita à lei da gravidade – a força motriz que agrega passado, presente e futuro, e dissolve os contornos da realidade – e convida-nos a explorar outros mundos no interior dos conceitos de espaço e de tempo e, em última análise, da própria Literatura.
Gabriela Ruivo Trindade (Lisboa, 1970) formou-se em Psicologia e trabalhou como psicóloga e formadora profissional até 1999. Venceu o prémio LeYa com o seu primeiro romance, UMA OUTRA VOZ, distinguido posteriormente com o prémio PEN Clube Português Primeira Obra, e publicado no Brasil em 2018 (LeYa - Casa da Palavra). Um excerto de UMA OUTRA VOZ, traduzido para inglês por Andrew McDougall, foi publicado na 24ª edição da revista YOUR IMPOSSIBLE VOICE (2021). Publicou o conto infantil A VACA LEITORA (D. Quixote, 2016), AVES MIGRATÓRIAS (poesia, On y va, 2019) e ESPÉCIES PROTEGIDAS (contos, On y va, 2021), para além de contribuições em várias antologias de poesia e conto. A co-tradução inglesa do conto O SÍTIO DOS MORTOS-VIVOS (Espécies Protegias, On y va), da sua autoria e de Victor Meadowcroft, foi publicada no blogue da revista Asymptote em 2022. É presidente do Conselho Cultural da AILD (Associação Internacional dos Lusodescendentes) no Reino Unido, co-fundadora do PinT (Portuguese in Translation) Book Club (www.pintbookclub.com) e Mapas do Confinamento (www.mapasdoconfinamento.com), um projecto cultural que reúne mais de uma centena de artistas de língua portuguesa. Dirige a Miúda Children's Books in Portuguese, uma livraria online especializada em literatura infantil escrita em português (www.miudabooks.co.uk).Traduziu A CABANA DO TIO TOM, de Harriet Beecher Stowe (Sibila Publicações, 2020). Publicou, em edição de autor, UMA MULHER DE PALAVRA (poesia, 2022).
Gabriela Ruivo Trindade (Lisbon, 1970) graduated in Psychology and worked as a psychologist and professional trainer until 1999. She lives in London since 2004. Her first novel, UMA OUTRA VOZ, was awarded the Prémio LeYa, the Prémio PEN Clube Português Primeira Obra, and published in Brazil in 2018. An English translation excerpt of UMA OUTRA VOZ, by Andrew McDougall, was published in the 24th issue of YOUR IMPOSSIBLE VOICE magazine in 2021. She published the children's book A VACA LEITORA (D. Quixote, 2016), AVES MIGRATÓRIAS (poetry, On y va, 2019), and ESPÉCIES PROTEGIDAS (short stories, On y va, 2021), as well as a number of contributions to poetry and short stories collections. The English co-translation of O SÍTIO DOS MORTOS VIVOS, by Victor Meadowcroft and herself, was published in 2022 in the Asymptote Blog. She is chair of the UK Cultural Team at AILD (International Association for Lusodescendants), co-founder of PinT (Portuguese in Translation) Book Club (www.pintbookclub.com) and Mapas do Confinamento (www.mapasdoconfinamento.com), a cultural project by over a hundred Portuguese-language artists. She manages Miúda Children's Books, an online bookshop based in London dedicated to children's literature written in Portuguese (www.miudabooks.co.uk). She translated Uncle Tom's Cabin (Harriet Beecher Stowe) into Portuguese (A CABANA DO TIO TOM, Sibila Publicações, 2020). In 2022 she published the poetry collection UMA MULHER DE PALAVRA as an author's edition.
“Pela quantidade de personagens e pelo formato escolhido para contar esta história — alternando o ponto de vista a cada capítulo —, diria que é um daqueles livros para ler com atenção. Não se deixem enganar pela escrita fluída ou pelos temas atuais, é mesmo necessário tomar sentido a todos os pormenores que a escritora vai deixando — só isso fará com que entendam como é que estas personagens estão relacionadas.”
Uma questão a que responder. Será que a vida imita a literatura,ou o contrario? E nesse propósito embrenhei-me neste romance, de capítulos curtos, e personagens vulgares mas extraordinárias que apetece conhecer e querer estar. E que inquietam.
Gabriela Ruivo sabe escrever e sabe chegar ao cerne do que quer que o leitor atinja e como tal, não deixa esta questão sem resposta. A contemporaneidade é colocada em espelho a partir de um padrão de abuso e violência sobre as mulheres. E a espiral recua e avança em caleidoscópio, em sensação de queda. Um romance brilhantemente escrito que é viciante e marca. Um romance diferente. Um romance que adorei.
"Os livros vão-se, as histórias ficam." Sementes para um futuro que já se edifica no presente.
A Gabriela escreve muito bem, o livro é inteligente e complexo. No entanto, não gostei de nenhuma personagem. Achei-as fracas, pedantes, irritantes ou demasiado estereotipadas. Ainda tenho de digerir tanta história, tantos círculos. Fiquei cansada.
"Já está tudo inventado!" O adágio que se ouve frequentemente não se aplica à Literatura e muito menos a "Lei da Gravidade" de Gabriela Ruivo, pela Porto Editora.
Diria que a originalidade é ponto forte desta obra que experimenta com os conceitos de tempo e espaço. Um velho no hospital, um escritor de um best seller, um adolescente envolvido num drama familiar e uma criança fascinada por livros. Todos envoltos numa espiral temporal em que passado, presente e futuro se unem.
As personagens femininas são também elas espelhos, numa dinâmica acentuada até pelos nomes, (ex: Ana Maria e Maria Ana). Há pontos em comum como o abuso ou abandono. Será que este é um ciclo sem fim?
A linguagem é simples e acessível. Teria de ser para não acrescentar uma camada de dificuldade a um exercício literário já de si complexo. Sim, é um livro que exige do leitor. "Lei da Gravidade" dispara mais perguntas do que fornece respostas.
Neste jogo de espelhos há reflexões muito interessantes sobre a Verdade e Literatura. Será que o leitor quer verdade ou verosimilhança? Será que escritor consegue escrever sobre algo que não conhece ou experienciou? E o que é a Verdade? Neste universo de dualidades também há Deus e destino. Homem e mulher. Agressor e vítima. Verdade e mentira.
"Lei da Gravidade"é verdadeiramente um livro "fora da caixa" Gabriela Ruivo esmerou-se nesta obra original e criativa que foi nomeada para o Prémio Europeu de Literatura. Uma nota de orgulho e admiração para uma escritora portuguesa contemporânea capaz de uma obra tão sofisticada e arriscada. Espero que o futuro Ihe faça justiça e não se perca no passado, porque no presente é um livro, sem dúvida, a ler.
Lido de um trago! A Gabriela traz aqui uma brincadeira, ou uma exploração, do tempo, Chronos e Kairos, o tempo controlado e o subjectivo, e as dobras do tempo que as novas teorias da física quântica nos trazem. Essa espiral que, neste livro, sob a lei da gravidade se condensa numa só dimensão/tempo arrastando-nos para círculos concêntricos de uma mesma história que se repete. Parece complicado isto, mas a autora fá-lo de forma magistral, fazendo-nos acompanhar o desdobrar da história a passo e passo. Fez-me pensar também como a história de um (de cada um de nós) é a história do outro. Que não seremos tao diferentes assim. E como há padrões que se repetem efectivamente nas vidas de pessoas com problemáticas semelhantes. Aqui aborda-se o tema da violência doméstica.
Apesar de ser narrado entre o passado e o presente, que é algo que não me agrada, Gabriela conseguiu cativar-me com este livro. Um romance bem escrito, viciante e diferente. Com temas actuais como a violência doméstica, a maternidade e o abandono
A vida imita a literatura ou é a literatura que imita a vida? Neste enredo da Gabriela cabem muitas vidas e muitas histórias. Numa cama de hospital, há um velho que está à beira da morte e procura retenção pelos seus erros do passado. Ana Maria, Maria Ana, Marinela e Marina são amigas e as suas histórias cruzam-se em saltos do passado e presente. O fascínio por livros de uma criança de 2 anos. A revolta camuflada em formato de inquietação de um pré-adolescente. Uma jornalista e um escritor completam o quadro. Uma história sobre as várias dimensões do tempo - o objectivo que vemos passar nos relógios e calendários, até ao mais subjectivo com laivos de física quântica. Não é um livro de fácil leitura por causa dos nomes dos personagens serem muito parecidos (eu por exemplo preciso criar a pessoa na minha cabeça para poder segui-la no livro e fui tento dificuldades), os saltos temporais e as repetições de acontecimentos. Escrita simples. Cada capítulo uma voz e uma perspectiva. Saltos temporais. Criação literária. Traumas familiares. Ausência paterna. Violência doméstica. Passado, presente e que futuro? Arrependimento. Perdão. Absolvição. A repetição de padrões. Tempo. Sempre o tempo. Recomendado (para ler-se com calma e com foco).
“O romance não sobreviverá sem o autor, a verdade do autor, a história de vida do autor. Nós, leitores, não leremos livros; leremos autores. Leremos testemunhos, histórias de vida, o que lhe queiramos chamar. É isso que buscamos na literatura, algo que faça vibrar a fibra peculiar da nossa essência. Abrimos um livro para encontramos, qual reflexo narcísico, o espelho mágico que nos devolverá a nossa humanidade, e para nos podermos consolar pela parca amostra que dela desfrutamos na nossa vida miserável.” (Pág. 175)
Há padrões que se repetem. Histórias-espelho. Peças de um mesmo puzzle que, enfim, se encontram, que, enfim, fazem sentido.
Há padrões - sistémicos, poéticos, o que lhe queiramos chamar - que são como marco no tempo, casa inicial à qual se volta, uma e outra vez, no monopólio da loucura que é viver.
Mariana poderia ser Maria Ana, ou Ana Maria, ou até Marinela, ou uma qualquer mulher sem nome, porém as mesmas marcas no corpo, os mesmos golpes na alma, o mesmo credo na boca, a mesma dor. O abandono. A injustiça. A falta de um deus que ousa deixar tudo ao deus dará.
O escritor que poderia ser Tiago, ou Iago, ou outro nome qualquer, desde que em nome do pai (que não teve), do filho (que não quer) e de um espírito pouco santo que o toma pela noite, qual possessão demoníaca, e o faz vaguear pela escuridão que tem dentro.
Quantos de nós podemos ser outros?
Quanto de nós pode ser não mais do que reflexo, repetição, peça não-original. Espelho baço, distorcido, do que já foi e que se repete e repete e repete e repete até à exaustão.
Caleidoscópio de imagens confusas, de tempo sobre tempo, de palavras sobre palavras e vidas sobre vidas que gravitam em direcção a um mesmo cerne, aquele ao qual ninguém escapa, ande por onde andar.
Lei da Gravidade é tudo isto e tanto mais. Uma viagem aos calabouços de almas em repetição, como um filme a preto e branco, como personagens que mudam apenas o nome e a cara (por vezes, nem isso) mantendo um mesmo guião numa lealdade cega (para com quem?).
Assim como assim, foi dos melhores livros que li nos últimos tempos. O exemplar físico está a caminho para adornar as minhas estantes, junto ao relógio de corda do avô António que me ensinou a não ser refém desse tempo que engana e ilude. Ironias? Talvez.
Uma história riquíssima que ganha em ser lida sem grandes intervalos pois requer atenção dada a complexidade do enredo e emaranhado das personagens.
Um emaranhado propositado onde os nós se vão enlaçando um por um. Imaginemos que as linhas temporais se cruzam e vamos encarando os desdobramentos das diferentes idades da nossa própria vida. “tinha a sensação de estar num carrossel, numa feira de fenómenos transcendentais, do absurdo, uma viagem interminável, em que o universo perde os pontos cardeais e o mundo se torna um labirinto” p. 160
Será que se a pessoa idosa que seremos nos alertasse para o sofrimento de algumas decisões, nós as mudaríamos ou será que encontraríamos pretextos para as repetir?
A autora aborda o conceito do tempo enquanto fenómeno não-linear, onde passado, presente e futuro circulam em jogos repetitivos que perpetuam ciclos e destinos nos quais o próprio se aprisiona por mais duros e violentos que sejam.
A autora é licenciada em Psicologia. E, a meu ver com coragem, traz uma personagem-psicóloga-que tenta ajudar de forma desastrosa. Até nisso o livro é rico. Quebrar estes ciclos exige muitíssimo mais do que querer salvar, ajudar ou qualquer outro verbo que não abarque a profunda complexidade de uma genuína mudança na reconstrução identitária.
Lei da Gravidade é narrado por um professor e escritor, e os capítulos vão alternando entre passado, presente e futuro. Aborda temas como a violência doméstica, a gravidez, a maternidade, o abandono e a mentira. Em universos paralelos, onde o jogo em espiral é também um jogo de espelhos, Lei da Gravidade mostra o encontro e desencontro da vida, a luta que uma pessoa pode criar para a sua própria sobrevivência, mas sem conseguir arranjar a coragem para mudar o passado e com isso alterar o seu futuro.
Gostei muito do livro, mas é um livro de uma leitura muita atenta, pk pela diversidade de personagens ficamos um pouco baralhadas, e a pensar qual a ligação entre elas.. Qd pensámos que já descobrimos, voltou tudo a estaca zero e só no final tudo fará sentido. Não podemos deixar o livro com muitas pausas, deverá ser lido sem grandes interrupções.
Apesar de ser narrado entre o passado e o presente, que é algo que não me agrada, Gabriela conseguiu cativar-me com este livro. Um romance bem escrito, viciante e diferente. Com temas actuais como a violência doméstica, a maternidade e o abandono
Livro muito interessante que, sem dúvida, abre horizontes! Requer atenção e faz com que a cabeça dê um nó, de certa forma, mas vale muito a pena lê-lo.
“O que terão em comum um velho à beira da morte numa cama de hospital, o escritor de um bestseller, um pré adolescente inquieto e um menino de dois anos com um fascínio por livros? Que destino espera as amigas Maria Ana e Ana Maria? (…) E Marinela? E Mariana? E a mãe solteira que existe em todas elas, fruto de um abandono continuado? E o pai, protagonista do descalabro? E o futuro, que teima em ser passado, e o passado, que teima em ser futuro?” Perguntas e mais perguntas que podemos encontrar na sinopse deste livro e que nos confrontam com seres à deriva, num mundo tendencialmente mais injusto e violento, feito à medida dos ricos e poderosos. Um mundo que neste livro, por força da ficção (ou talvez não), convive com um outro, alternativo, “onde o tempo se sujeita à lei da gravidade - a força motriz que agrega passado, presente e futuro, e dissolve os contornos da realidade”.
O que somos e o que fomos. O que seremos. De forma recorrente, estas mesmíssimas questões vão tomando conta de nós ao longo da vida, conduzindo a essa demanda filosófica em busca de um sentido para a nossa existência. “O tempo é o grande mistério”, lemos na contracapa de “Lei da Gravidade”, e é nele que o livro se espraia, contando-lhe as horas e os dias, tomando o pulso aos seus caprichos e escutando a sua marcha inexorável feita de princípios e fins. Entre passados e futuros (ou vice-versa), Gabriela Ruivo acompanha o quotidiano de uma mão cheia de personagens, baralhando a seu bel-prazer os momentos da narrativa e desconstruindo a linearidade do tempo. No esforço de reajustar as “peças”, o leitor sentir-se-á enredado nas espirais desta história desconcertante e acabará por se confrontar com estranhas forças que parecem puxá-lo para baixo. Sobretudo, será capaz de encontrar o seu próprio lugar na história.
“Lei da Gravidade” é um livro exigente como uma partida de xadrez. Pede ao leitor empenho e a maior atenção aos pormenores, nos quais reside muito do que verdadeiramente importa para a compreensão da história. É um daqueles livros que se adensam no virar de cada página, fazendo crescer a expectativa quanto ao seu desenlace e levando o leitor a não querer adiar o final até ser senhor da história completa. Gabriela Ruivo, de quem li (e reli) o excelente “Uma Outra Voz”, tem uma escrita deveras inteligente, não apenas pelo ritmo que imprime aos acontecimentos, mas sobretudo pela forma como dispõe as personagens e as vai movendo neste particular tabuleiro (interessante o facto de a generalidade dos capítulos ter por título as personagens e de estes se irem repetindo, como peças que vão sendo mexidas uma e outra vez). Provar que é possível um mesmo movimento poder ser feito, em simultâneo, por mais do que uma peça, é a grande proeza do livro. Uma partida feita de lances emotivos e com um cheque-mate absolutamente genial.