Não há ninguém que não tenha uma «filosofia», achando-a tão pessoal que passa a ser «a minha filosofia». Há também quem despreze a filosofia e diga que é coisa de «líricos» — as pessoas de acção que acham que a filosofia nada tem que ver com a vida. Há ainda a definição mais romântica: a filosofia é a amizade pelo saber. E para todo este conjunto de opiniões há já teses filosóficas, interpretações, atitudes, mentalidades, modos de ser. Mas então afinal: O que é a filosofia? É essa a pergunta que aqui se faz a alguns protagonistas da sua história, sem pretender fazer história. A filosofia é uma actividade que procura descobrir a verdade sobre «as coisas», «o mundo», os «outros», o «eu». Não se tem uma filosofia. Faz-se filosofia. A filosofia é uma possibilidade. E aqui começa já um problema antigo. Não é a possibilidade menos do que a realidade? Não é o possível só uma ilusão? Mas não é o sonho, como dizia Valéry, que nos distingue dos animais? Aqui fica já uma pista: uma boa pergunta põe-nos na direcção de uma boa resposta, e uma não existe sem a outra, como se verá.
Não se fala nas vidas dos filósofos, nem de história da filosofia, mas das perguntas e respostas que Platão, Aristóteles, Agostinho, Kant, Wittgenstein e Heiddeger nos ofereceram. São perguntas e respostas para a acção, e por isso este volume é tão pertinente e original. Excelente ideia a de transformar em livro o podcast.
Uma boa introdução à filosofia e a alguns filósofos relevantes. Cada capítulo é praticamente self-contained e pode ser lido isoladamente, foca um tema e um filósofo. Estava com algum receio do tipo de escrita e daquilo que para mim é a clássica “divagação dos filósofos” onde às vezes se perde o fio à meada. No entanto embora aconteça às vezes um pouco, o escritor retoma sempre o fio da meada. Escreve muito bem e tem um domínio da língua fascinante, em particular quando menciona traduções e partes não traduzíveis. Fiquei com vontade de ler a maioria da bibliografia principal!
Estes textos resultam de um ciclo de conferências realizado no Centro Cultural de Belém, em 2020. A origem pode ajudar a explicar alguma aparente falta de estrutura e um ritmo próximo da coloquialidade. Cada um dos seis segmentos é dedicado a um filósofo, por ordem cronológica. No entanto, o objectivo do autor não é o de analisar a fundo o pensamento destes autores; este é um ponto de partida e uma referência a que, nas voltas do seu discurso, Caeiro regressa pontualmente, num diálogo permanente que é também uma iluminação mútua. Ao contrário do que o título possa prometer, é mais à pergunta "Para quê filosofar?" que se procura uma resposta. O acto de filosofar é equacionado, por vezes de forma muito explícita, com a própria condição de ser humano. O texto está repleto de exemplos retirados do quotidiano. Mais uma vez, a saturação de alusões a noções e problemas da existência comum adequa-se bem a um contexto de conferência e a uma compulsão performativa: cabe ao orador atrair a atenção dos ouvintes, apelando a realidades que não lhe sejam alheias. Caeiro é, como é óbvio, muito mais inteligente do que qualquer autor de livros de auto-ajuda, mas esta tentativa reiterada de apresentar campos de aplicação familiares dos conceitos filosóficos discutidos soou-me, por vezes, forçada e excessiva. Talvez a maior virtude deste livro seja a de evitar oferecer aos leitores uma ou mais respostas directas e, em vez disso, demonstrar, por etapas e de forma consistente (apesar dos aparentes desvios), que o acto de filosofar é a própria resposta. E demonstra-o fazendo-nos uma visita guiada pela tradição filosófica ocidental, essa tradição inescapável porque está presente em tudo, como a atmosfera, por mais tentador que seja ver na obra de um certo autor uma "tabula rasa" que rompe com tudo o que existia (como Wittgenstein, que afirmava nunca ter lido Aristóteles). Os seres humanos foram aprendendo a pensar, e continuam a aprender; da mesma forma, qualquer um de nós pode (deve) reproduzir esse percurso de indagação, de dissipação dessa opacidade de que Caeiro nos fala desde o primeiro capítulo, dedicado a Platão.