𝙐𝙢 𝙣𝙤𝙞𝙫𝙤 𝙙𝙚 𝙉𝙖𝙩𝙖𝙡, é um conto com uma premissa leve, mas com uma profundidade inesperada que surpreende o leitor. Sim, fala sobre o Natal, sobre mentiras situacionais bastante cómicas, sobre doçaria e relações amorosas. Mas também fala de luto, de demónios interiores, de estados psicológicos pouco saudáveis e de consequências. Fala de erros, arrependimento e do caminho autorreflexivo para a redenção, tão mais fácil de trilhar quando o apoio e o amor dos que nos são queridos nos envolvem como um cálido cobertor.
UNDN tem de ser lido com a percepção de que é um conto, de que não vamos ter todos os assuntos igualmente explorados, e de que vamos acabar a entupir de mensagens a caixa de entrada do Instagram da Lídia de tão criminosamente curto que é. Aqui não há retrato de um romance diabético de 300 páginas, tampouco de uma química atrevida e provocatória entre o casal antes de uma confissão apaixonada. Ou antes: há, mas na versão "shot", nas entrelinhas de um flashback que as personagens não chegam a ter. Os sinais estão lá se procurarmos por eles entre as lembranças e as referências a um passado idílico, mas não vemos acontecer explicitamente diante dos olhos.
Muito neste conto fica por dizer, mas não no mau sentido: num jogo de silêncios e pensamentos a que a protagonista nunca dá voz, a autora acrescenta emoção e solenidade à narrativa, enternecendo o leitor. Somos testemunhas de um momento específico e frágil da vida da Juli, e acabamos a morrer de curiosidade sobre o que se passou antes e o que virá depois. Sim, poderíamos ter direito a um pouco mais descrição do conflito antes da sua resolução, mas foi o que a autora escolheu retratar. É um conto, isto não estica.
Numa escrita vivida que nos torna espectadores da trama, recheado de referências que nos aproximam da história e das personagens, ficamos rendidos ao clima aconchegante deste natal fictício, mesmo quando não somos fãs das festividades (tipo eu 🙋🏽♀️ Sorry, mas para mim o Natal é só mais um conjunto de dias no ano).
E por falar em personagens.... O Miguel é sem dúvida o meu espírito animal, se eu tivesse jeito para as panelas, não detestasse futebol e fosse mais "romântica" e espalhafatosa (entendedores entenderão 😌). A avó, que é a personagem mais polémica... Eu adorei, na verdade. A velhota viu-se forçada a fazer de fada madrinha e apesar de ter sido um pouco intrometida demais numa fase inicial, acabou por ser um mal necessário. Se há coisa que a vida me ensinou é que há lutos que nunca acabam, ou que se arrastam por demasiados anos, e a Julieta parecia-me alguém que precisava de ajuda para sair do furacão da tempestade. Era demasiado cedo para aquilo que a avó e o ex noivo queriam, mas daí o final ser algo que me deixa tão em paz com tudo o que aconteceu antes. Para além disso, conheço alguém que é igual à dona Amélia e nos consegue ler como um livro aberto, especialmente quando somos tão transparentes quanto a Juli. À Julieta daria apenas um abraço forte, porque acho que é disso que ela mais precisa, e ao Romeu.... O Romeu é a personagem que mais me intriga, porque apesar de ter tempo de antena, não teve o suficiente para compreender a razão das suas escolhas e decisões. Por isso, este é aquela personagem que gostaria de observar de perto, especialmente depois de todas as verdades serem postas ao vento como roupa a secar.