Uma mulher, um homem, oprimidos pela angústia existencial, numa sombria busca de si mesmos, carregada de fantasmas. Ruídos e, sobretudo, silêncios, infestados de passado, de medos, de mistérios. Casas perdidas numa cidade do interior, paisagem e vidas marcadas de solidão e pesadelos. E de incomunicabilidade. E tudo deixa transparecer coisa antiga, revisitada na busca de uma cura para a condição de viver. E destacam-se os lugares da casa, com seus cômodos sempre escuros, com os objetos minuciosamente retratados com mestria de pintor e valorizados em sua condição de guardadores de lembranças, ilusões, fantasmagorias, ameaçadores, uma atmosfera sufocante, carregada de náusea. O ambiente como projeção do inferno interior de seres conflitados diante da própria realidade do existir. Um homem e uma mulher, prisioneiros de si mesmos e dos outros, que se aproximam, chegam até o casamento, para se digladiarem, para se destruírem, um ao outro, e cada um a si mesmo, uma relação marcada de silenciosos sadomasoquismos. Os vivos como títere do destino. No fundo, a vida cheia de negativas, a dor de viver, a fatalidade do sofrimento. Mas cultivada com um certo prazer mórbido e doentio. E tudo disposto de tal forma que o leitor é levado, ele mesmo, a juntar, no final, as peças que vão sendo, pouco a pouco, dispostas ao longo da história. A narrativa desenvolve-se como uma peça de teatro barrocamente construída. Um barroco de feição mineira. Um romance feito de medo existencial, de medo do autoconhecimento, do paradoxal conflito de estar no mundo sem aceitar a vida sem aceitar seu mistério. Um romance do ser. E, em especial, o ser da mulher. Um texto valorizador das dimensões estéticas da palavra, que, na contracorrente das tendências modernistas dominantes ao tempo de sua publicação, abre-se para a narrativa de introspecção e insere, pioneiro, na linhagem de preocupação transcendental. Estes e muitos outros aspectos, vários deles explicitados no belo e percuciente prefácio de Letícia Malarde, é o que você vai encontrar nesse repouso, de Cornélio Penna.
Cornélio Penna was a Brazilian novelist, painter and illustrator. He was part of the second-generation of Modernism in Brazil, and created the Brazilian psychological realism.
Eu queria ler "A menina morta", mas não encontrei, e a orelha desse livro ressaltava tanto o tema da angústia existencial que achei que se tratava de um outro Dostoievski e emprestei o livro. Mas, depois que comecei a ler, achei que estava mais para o Proust. A linguagem é impecável, a construção é precisa, mas é leitura para se fazer com muito, muito vagar, e nem assim se pode ter certeza de que o sentido das palavras foi absorvido totalmente. Não tenho dúvidas de que é um livro muito bonito, mas eu não estou à altura dele.