Comecei a ler esse livro pouco tempo antes de me mudar de Porto Velho para Palmas, já tomado por uma saudade antecipada das Terras do Poente. Isso é tão certo que, ao folhear as primeiras páginas, meus olhos se encheram de lágrimas ao divisar um mapa de Rondônia que destaca alguns de seus principais rios e cidades. Rios desbravados e cartografados por Rondon, notadamente o Rio Roosevelt, antes Rio da Dúvida, cuja descoberta de seu trajeto e foz (“o maior tributário do maior tributário [o Rio Madeira] do maior rio do mundo [o Rio Amazonas]”) foram objeto principal da famosa - e perigosíssima - expedição capitaneada pelo brasileiro e o ex-presidente estadunidense Theodore Roosevelt em 1914. Cidades que radicam no empenho inabalável de Rondon em ligar o Mato Grosso ao Amazonas pela via do telégrafo, tendo elas nascido dos postos telegráficos instalados pelo militar, ao passo que a BR 364, a mais importante rodovia do atual Estado de Rondônia, que o corta do sul ao norte, acompanhou o trajeto de seus postes e linhas. Pelo que acima escrevi, já se percebe que o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon não foi qualquer um. Amiúde ignorado em sua importância pelo brasileiro comum, foi Rondon um dos grandes responsáveis por integrar as regiões Norte e Centro-Oeste ao restante do País. E ele o fez de forma absolutamente pacífica e respeitando todas as etnias indígenas que encontrou pelo caminho. Sendo descendente dos bororos do interior do Mato Grosso, onde nasceu e se criou de forma bastante humilde, Rondon, conquanto militar, tinha como princípio reitor “morrer, se for preciso for; matar, nunca”, sobretudo na sua relação com os índios, sendo o pai do Serviço de Proteção ao Índio - SPI, posteriormente transformado na atual Fundação Nacional do Índio - FUNAI. Foi, indubitavelmente, um grande pacifista, a ponto de ter seu nome apoiado em duas oportunidades para o Nobel da Paz. Ferrenho positivista, de cujos princípios e regras morais jamais abriu mão, da República sempre cuidou desde que proclamada, colocando os interesses da nação em primeiro lugar em todos os momentos. Leitor voraz, fluente em francês e obcecado pela ciência, aproveitou suas inúmeras expedições para recolher, descrever e encaminhar espécimes vegetais, animais e minerais para estudos, máxime no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Foi o primeiro ambientalista brasileiro, preocupado com a exploração sustentável dos recursos naturais e a proteção da fauna e da flora, isso em época em que o tema era praticamente desconhecido no Brasil. Não bastasse tudo isso, ainda liderou uma campanha do Exército brasileiro em Catanduvas/PR, na qual travou embates com aquela que seria a Coluna Prestes. Eu poderia escrever muito mais sobre o que aprendi de e com Rondon, mas prefiro deixar que vocês se deleitem, como eu me deleitei, com sua grandiosa biografia escrita pelo jornalista estadunidense Larry Rohter. Vale imensamente sua leitura. Por fim, foi com grande satisfação ver que Joel Bogo, meu amigo e colega de MPF, é mencionado na parte final da obra, o que corrobora ser ele referência nos assuntos atinentes aos indígenas do Norte brasileiro.