"Somos escravos de tudo que desêjamos possuir. Ninguem é livre neste mundo." Neste romance inédito, Carolina Maria de Jesus apresenta uma história de amor e desilusão entre dois jovens de classes sociais distintas.
Uma das mais importantes escritoras brasileiras, Carolina Maria de Jesus deixou, além dos cadernos autobiográficos, uma vasta produção literária dos mais diversos gêneros, que ainda permanece amplamente desconhecida. Em O escravo, romance inédito escrito na década de 1950, conhecemos a verve ficcionista da autora de Quarto de despejo e Casa de alvenaria. Os protagonistas dessa história são os primos Rosa e Renato, que, embora apaixonados, acabam seguindo caminhos distintos, sobretudo por pressão da família abastada do rapaz. O texto é resgatado e estabelecido diretamente do manuscrito original, conservando o projeto literário e estético da autora, e acompanha prefácio de Denise Carrascosa e posfácio de Fernanda Silva e Sousa.
"Carolina inventa o romance proverbial como forma literária experimental para reverter o olhar colonial racista que quer fazê-la Mãe Preta, olhar quem a olha e, na condição de Preta Mãe de nossa literatura, criar outras irradiações sonoras que subvertam a língua euro-ocidental, gerando reverberações entre vozes afroancestrais, a alcançar o abolicionismo de Maria Firmina dos Reis, e vozes do afrofuturo, como as poetas slam, que dão seguimento ao desafio." -- do prefácio de Denise Carrascosa
"Carolina constrói uma obra que pode ser tudo menos um romance ingênuo e maniqueísta [...] e retrata o universo da 'sala de visitas' e suas adjacências, marcado por interesses escusos, ambições desmedidas, expectativas irreais, sem, no entanto, subtrair a dimensão humana e ordinária das personagens." -- do posfácio de Fernanda Silva e Sousa
Carolina Maria de Jesus was born on March 14, 1914 in Sacramento-MG, where she lived in her childhood and adolescence. Her parents probably migrated from Desemboque to Sacramento as a result of changing the economics of gold mining to farming activities.
In Sacramento, she attended primary school in a Spiritualist College, which had a mission aimed at poor children of the town, with the help of influential people. Carolina studied just over two years but learned to read and write there. She later remembered reading posters outside movie theaters and realizing that reading was not just something done in school, but a skill that could be used everywhere. All her reading and writing was based on this short time of formal education. She quit school but never stopped reading and writing.
Moving to São Paulo in 1947, Carolina went to live in the now defunct favela of Canindé, in the northern part of the city. She earned money by collecting recyclable materials. When she found notebooks or blank papers in the trash she saved them for her writing. She wrote novels, plays, letters to authorities and poetry in addition to her ongoing journal.
Even before all the injuries, losses and discrimination she suffered throughout her life, Carolina revealed through her writing the importance of speaking up in honest testimony, as a means of complaint about social inequality and racial prejudice.
Her best known work, Quarto de Despejo (Place of Garbage) – Diário de uma favelada (published in America as Child of the Dark), edited by journalist Audalio Dantas and released in 1960, had an initial print run of 10000 copies, which sold out the first week. More than 55 years since then, the book has already been translated into 13 languages and sold in more than 40 countries. This book is a chronicle of life in the favela do Canindé, at the beginning of the "modernisation" of the city of São Paulo and the emergence in the outskirts. Its cruel and perverse reality was until then little known. This documentary literature, in its unique black female narrative, was known and named as journalism of denunciation of the years 1950-1960. It is still considered a current work, because the theme of problems lasting to this day in the big cities.
The work of Carolina Maria de Jesus is an important reference to the cultural and literary studies, both in Brazil and abroad and represents our peripheral/marginal and Afro-Brazilian literature. An example of strength, intelligence and ability to stay forever in the history of our culture.
Even today, much of Carolina's production remains unheard. The researcher Raffaella Fernandez still is dedicated to the organization of the manuscripts of the author. In a set of more than 5000 pages, are 7 novels, 60 short texts , 100 poems, 4 theatre plays and 12 letters for Carnival marches.
In 2014, as a result of the Projeto Vida por Escrito – Organização, classificação e preparação do inventário do arquivo de Carolina Maria de Jesus, awarded the Prêmio Funarte de Arte Negra, it launched the Biobibliografic Portal of Carolina Maria de Jesus (www.vidaporescrito.com) and, in 2015, released the book Vida por Escrito – Guia do Acervo de Carolina Maria de Jesus, organized by Sergio Barcellos. The project mapped the entire material of the writer who is guarded by several institutions, including: Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Museu Afro Brasil, Arquivo Público Municipal de Sacramento and the Acervo de Escritores Mineiros (UFMG).
uma verdadeira aula sobre como as classes sociais distintas imperam de uma maneira terrível na nossa sociedade. carolina maria de jesus sabia muito sobre o muito. incrível.
O Escravo de Carolina Maria de Jesus pode ser definido como um livro curioso. Certamente o leitor sentirá algum estranhamento inicial pela sua forma pouco convencional, mas logo será capturado pela narrativa. Infelizmente essa edição toma algumas decisões editoriais questionáveis a primeira se refere ao texto introdutório. Em que pese a autoridade acadêmica e racial da convidada (não duvido que ela faça sim trabalhos incríveis e seja relevante) seu texto se perde num academicismo teatral e em pregação para convertidos.Minha sugestão pule esse texto, leia a obra da Carolina, volte a ele e por fim leia o texto de apoio que encerra o livro. Ao contrário do primeiro o texto de encerramento debruça-se sobre a obra, trazendo reflexões pertinentes e pontos que talvez tenham passado batido. A outra escolha é entregar ao leitor um texto sem revisão alguma. Se em Quarto de Despejo essa me parece uma decisão adequada, aqui me parece um “preciosismo” desnecessário e uma tentativa de se mostrar inclusivo tola. Óbvio que não me refiro a alterações ao texto de Carolina no que tange a sua forma, estrutura e mesmo problemas, mas será mesmo necessário numa obra ficcional manter os erros ortográficos? Me parece algo um tanto fetichista, um fetiche da pobreza recreativa. Sobre o texto propriamente dito deve-se lembrar que Carolina é uma mulher do seu tempo, é preciso alguma paciência com o machismo que exala em diversos pontos. É provável que o leitor se irrite com a autora, ela parece exaltar uma estrutura que hoje criticamos. O texto porém é bem mais profundo, a autora simplesmente nos mostra um retrato de sua época e aqui e ali tece duras críticas, que podem passar batidas em meio ao estilo “novelão” proverbial da narrativa. O Escravo é portanto um “novelão” com reviravoltas, drama, suspense, no melhor estilo das radionovelas, que para além dessa camada superficial faz uma crítica social extremamente ácida ecoando a máxima: “Somos escravos de tudo que desêjamos possuir. Ninguem é livre neste mundo. Ha diversas especies de escravidôes.”
Eu gostei. Achei que comprova o talento dela como escritora, como contadora de histórias e que ela tinha um projeto literário amplo e não só como memorialista (escritora de memórias no diário). Achei original o enredo e atesta que apesar das limitações da língua formal que ela possuía, ela usando os conhecimentos linguísticos adquiridos em sua vivência, conseguiu elaborar situações originais e complexas. O livro parece inacabado mas acho que é próprio da obra dela
ler esse romance inédito – e póstumo – de Carolina Maria de Jesus é estar diante de uma autora multifacetada e também reconhecer que sua escrita proverbial aponta em nós condições inescapáveis e profundas.
somos escravos de tudo aquilo que desejamos e possuímos, ao mesmo tempo que somos cativos inquietos daquilo que não somos. “Has de sofrer! Até morrer!”. o tom novelesco e marcadamente proverbial insere essa ficção como um dos livros mais realistas que já li; é possível se ver nele, nos personagens e nas ilusões que os acompanham.
o livro é uma tentativa engenhosa da Carolina de nos dizer que, se nas experiências da favela do Canindé, retratada através do seu diário intitulado “Quarto do despejo – diário de uma favelada”, os mais pobres e vulneráveis são escravos do custo de vida, por outro lado, nos contextos mais abastados da classe média alta e de elite do contexto paulista, onde Carolina passou a viver depois que se mudou, a escritora nos diz: ter dinheiro não significa ser livre, assim como ter mais possibilidades não é sinônimo de mais liberdade.
ninguém é livre neste mundo, eis o eco proverbial e contracultural de Carolina. enquanto Renato e Rosa encontram-se acorrentados pelas expectativas sociais, a mãe de Renato, natural de uma família rica, não permite que ele se case com Rosa, e assim demonstra sua condição de cativa das suas próprias ilusões e egoísmo. tenta viver a vida do filho, e logo se desilude com o peso das consequências de suas escolhas.
são muitas as escravidões. o livro nos provoca o quanto de nós existe na vida que levamos… nas dores, sofrimentos e ilusões que cultivamos.
a tentativa de controlar a vida, e até mesmo o futuro, esconde, nos mostra Carolina, as nossas fragilidades e medos diante da própria experiência humana; não importa o tamanho da possibilidade, nunca poderemos escapar da inevitabilidade da própria vida, da dor e do sofrimento.
favoritei. de uma profundidade inigualável. insano acreditar que a carolina não tinha formação acadêmica. o talento e a criticidade que baseiam essa obra escancaram que a vida, quando vivida com uma boa dose de criticidade e sabedoria, é a maior escola. carolina maria foi uma intelectual de seu tempo, atenta às estruturas sociais doentias e contraditórias da sociedade brasileira. enfim, um romance singelo e denso que detalha o quão corrosivo são as normas sociais dessa cordialidade que suprime subjetividades em favor de uma imagem social forjada que apenas frustra nossa existência. brilhante! ansioso para relê-lo.
Uma narrativa muito forte, que deixa claro que a escravidão não se refere somente aos grilhões que um povo impõe a outro, mas também às convenções sociais que determinam padrões e relacionamento que nem sempre são condizentes com os desejos do coração. Muito bom.
Leitura gostosa, parece assistir novela. Muito boa as reviravoltas e importante para refletir sobre a visão dela e o funcionamento da sociedade à época. Queria uma continuação.
Muito bom! Não tem capítulos e a leitura é dinâmica. O final eh ótimo! Ele não prende tanto e foi bom ler a crítica do final para compreender melhor o livro.