A história tenta construir um suspense e tenta construir um romance. Tenta fazer um protagonista que é, ao mesmo tempo, empático e sem empatia alguma. Tenta fazer um protagonista que é de caráter questionável e um protagonista que é um pobre coitado. Acima de tudo, o que o livro mais tenta é ser uma obra boa.
O livro parece um grande esforço, um projeto de um trabalho não finalizado, a primeira versão de algo com um potencial que nunca foi atingido. A autora criou a história com uma proposta de um protagonista vilão e de moral questionável, todos os acertos em relação ao personagem são restringidos a essa linha porque, durante toda a narrativa, o protagonista é tratado pela narração como um pobre coitado vítima das circunstâncias. O crime cometido por ele foi porco, cheio de furos e com muitas provas de sua culpa, onde as tais provas são ignoradas pela narrativa, uma vez que o personagem sequer chega perto de sofrer a consequência pelas suas ações. O interesse romântico chega a ser uma das piores partes da história, apesar de ser introduzido com inteligente e habilidoso, ele é extremamente burro e facilmente manipulável, com um comportamento de um adolescente e custa a acredita que ele tem quase trinta anos, além disso, ele é desnecessário e a sua presença apenas expõe a falta de compromisso da autora com o estudo e a pesquisa, uma vez que tudo em relação a polícia e a investigação foi feito da pior forma possível. Isso sem sequer cobrar coerência em relação ao mundo real, apenas na história.
As coisas são irrealistas e fantásticas demais, apenas ignoradas se você ler como uma leitura dinâmica ou com o cérebro desligado, o que eu acredito que seja difícil porque são mais de quinhentas páginas, onde a maioria delas poderia ser removida. O livro possui muitas críticas vazias e desnecessárias, inseridas do mais profundo nada. Uma delas, mais especificamente falando, foi quando o interesse amoroso supõe que ele apenas foi afastado da policia, por ter se envolvido com um suspeito, por ser negro e isso foi absurdo em várias formas. Um policial precisa ser imparcial, a parcialidade é uma das críticas à instituição e se relacionar com um suspeito é demonstrar parcialidade, ser cúmplice e ele seria cortado e investigado sem que precisasse de toda a narrativa para que isso viesse a acontecer. Agir como se isso fosse racismo é um desserviço e expõe, novamente, a falta de estudo e conhecimento.
O romance foi péssimo, o casal não tem química e acabou tomando conta da narrativa durante o decorrer da história, deixando a proposta original de lado. O narrador parece uma mistura confusa de narrador em terceira pessoa e com primeira pessoa com pensamentos pessoais de personagens sendo destacados de forma constante. Os personagens, especialmente a polícia, são emburrecidos para que o protagonista consiga se livrar e não sofrer as consequências por nada. Tem vários acontecimentos que parecem ter sido esquecidos na narrativa, o livro mal parece planejado e o plot twist no final, assim como o decorrer do livro, parece ter apenas sido feito para forçar a narrativa que o protagonista é um coitado. O fim parecia uma piada e o epílogo foi ainda pior.
Em outras palavras, a história tinha um potencial que não foi alcançado por falta de pesquisa e planejamento. Talvez alguém sinta interesse pensando na sombra do que poderia ter sido caso viesse a ser bem elaborada. Eu me sinto triste dando uma nota tão baixa para um livro que tem uma proposta de representatividade tão boa, mas apenas representatividade não garante a qualidade de uma obra.