Pauliceia Desvairada é o primeiro livro a celebrar abertamente o espírito da Semana de Arte Moderna de 1922. Publicado no mesmo ano da Semana, que em 2022 completa 100 anos, o livro traz no Prefácio Interessantíssimo, que abre o volume, as ideias que nortearão a obra de Mário de Andrade e que projetarão um verdadeiro clarão nas décadas seguintes na literatura e na cultura brasileira. Mário de Andrade tinha 27 anos quando iniciou o volume e 29 quando o publicou - porém tinha a clara consciência de que o que fazia era já história, não por um espírito vaidoso, que nunca teve, mas pela erudição que já tão jovem acumulara no espírito, graças a uma capacidade de trabalho intelectual impressionante, a um espírito inquieto e curioso de pesquisador apaixonado, e a uma energia juvenil que o acompanhou até o fim.
Continuo a minha série de “Porque hoje é Sábado” com o primeiro livro de um poeta brasileiro. Depois de Bandeira e Drummond, li Pauliceia Desvairada, livro de estreia de Mario de Andrade publicado em 1922, um dos marcos mais relevantes do modernismo brasileiro.
Antes de tudo, uma nota pessoal. Não tenho pela poesia de Mario de Andrade o mesmo carinho que tenho pela produção de Drummond ou de Bandeira. Admiro as suas cambalhotas formais e temáticas, mas, via de regra, acho que falta algo da naturalidade que ele defende tanto haver. Acho sua poesia uma “poesia-projeto” e não uma poesia arte, mesmo porque Mário é a grande força intelectual e “doutrinária” do modernismo brasileiro.
Dito isto, Pauliceia Desvairada é um grande livro. Tem, sim, muito do “tupi or not tupi” dos modernos, com um tempero que vai se repetir (e multiplicar) no Macunaíma. É poesia completamente comprometida com o movimento, que, à época, devia ser enormemente chocante para os recatados e provincianos paulistas. Para mim, aliás, a melhor definição das intenções do poeta está no Prefácio Interessantíssimo quando abre com
“Está fundado o Desvairismo”.
Ri das escolas e finge que o livro não é modernista, ironicamente chamando-o de impressionista. Debocha do leitor e de si com gosto. O Prefácio fecha com:
“Não continuo. Repugna-me das a chave do meu livro. Quem for como eu em essa chave.
E está acabada a escola poética ‘Desvairismo’
Próximo livro fundarei outra.
E não quero discípulos. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para vaidade dum só”.
Interessante pensar que o Mario que que renega discípulos é aquele que brigava com Drummond para que o texto do mineiro fosse mais livre e moderno, ou que guiava novos (e velhos) poetas pelo modernismo, com paixão quase religiosa. É o Mario do sorriso debochado, com ares de grande mestre…
Tive algumas dúvidas sobre qual poema postar (no meu livro, o “Paisagem nº. 2” tem um post-it marcado PQHES), mas tive de ir com o monumental “As Enfibraturas do Ipiranga”, uma quase epopeia com ares de ópera bufa. É um daqueles poemas que, devem ser lidos de um só fôlego, apreciando toda a grandiosidade do texto. Sem dúvida, o melhor do livro. Como, no entanto, é um poema muito grande, posto apenas um pedacinho. Recomendo fortemente aos leitores, lembrando que a obra de Mario de Andrade está em domínio público desde o ano passado.
O incrível livro no qual o prefácio dá uma surra nos poemas, é realmente impressionante a diferença na qualidade (ao menos pra mim). Essa introdução é quase como um manifesto modernista por si só, com o grato adendo da posição pessoal do autor em meio a todo o contexto artístico, político e editorial em que se vê. Me agradou muito que ele não tenha criticado só aos seus desafetos, mas também aos seus amigos e a si mesmo, assim como o auto-elogio: o poema introdutório que Andrade dedica a si mesmo, se chama de Mestre e se agradece por tudo, é muito difícil conseguir sustentar algo assim sem que soe narcisista e Andrade o escreve dando gosto de se ler, com uma ironia que funciona muito bem. Essa autocrítica dá o tom para a quebra de um decoro gasto que engessa a arte, personificado nas Senectudes Tremulinas. Gosto também de como a nova arte é assumida na sua essência incerta, desvairada e errante, num experimentalismo eufórico e um tanto carente de consistência. O título Ode ao burguês, dito rápido, é um poema escrito com uma reórica do ódio. Esse e Anhangabaú, somente, são os que gostei do volume todo, mas não posso dizer que desgostei da leitura, foi uma experiência interessante, um pouco mais narrativa do que poética, eu diria... me incomodou um tanto o excesso de pontuação, principalmente das reticências, mas acho que foi uma escolha para a constiruição dessa escrita mais narrativa e, talvez mais oralizada, propositada para a leitura dramática, dada a grande quantidade de diálogos. Talvez um dia faça essa releitura em voz alta.
De fato, prefácio interessantíssimo!!! Me interessou mais que os poemas, inclusive. Não sei se só senti e não entendi, ou se não senti e só entendi, ou se não senti e também não entendi, mas sei que algo aí é uma grande negativa. Textos riquíssimos em aliterações e assonâncias e pouca ou quase nenhuma rima (o que me agradou), recortes de frases, soltura, liberdade, movimento, retrato fiel de São Paulo, retrato fiel do moderno. Mas, pra mim, acima de tudo, simplesmente, Não. Algo não caiu bem. Não sei se a leitura na Triste Teresina, na Quente Teresina, na Inerte Teresina influenciou no entendimento da Dinamicidade de São Paulo, da Frieza de São Paulo, da Movimentação de São Paulo. Quem sabe um dia eu leia Paulicea Desvairada no lugar onde nasceu e a negativa se desfaça e se torne um dinâmico Sim. Lembrei bastante de Piva e de Ana Cristina. É muito legal poder beber, também, da fonte que eles beberam.
São Paulo definitivamente enlouquece e embebe a gente de várias formas, nos engole, nos cospe, nos aperta e nos rasga. Ler Pauliceia Desvairada é praticamente sentir tudo isso, ainda que sem a total compreensão do que é que está acontecendo. Dito isso: É compreensível a Polêmica que Ode ao Burguês causou. Aliás, burguês segue como a coisa mais medonha da cidade. Como foi lido na Semana da Arte Moderna, entendo parte do que li como uma provocação. Se você entendeu, bem. Se não, amém. E segue o bonde.
Uma Sampa que já foi tão iluminada e glamourosa... mas "a língua brasileira é das mais ricas e sonoras. E possui o admirabilíssimo "ão"". Diferente, moderno, tão 1922!
Principal símbolo do modernismo de 22, esse livro tem uma poesia no melhor estilo psicodélico. Rompe com tudo o que vc entende por estética literária clássica.
Pauliceia — a grande boca de mil dentes e os jorros dentre a língua trissulca de pus e de mais pus de distinção...
Giram homens fracos, baixos, magros... Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...
Estes homens de São Paulo, todos iguais e desiguais, quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos, parecem-me uns macacos, uns macacos.
É impossível falar qualquer coisa sobre esses poemas, acho que nunca me senti tão incapaz de opinar sobre uma obra. O título diz tudo: desvario. Os poemas são estranhos, difíceis, gritados e paulistanos. Posso dizer que "entendi" alguns poucos e gostei também de poucos. Deus lá sabe o que o Mário estava fazendo... Que fez algo fez com certeza e isso é prova: até hoje estudamos e lemos Pauliceia, estou a estudá-la agora. Meus poemas menos favoritos do Mário até agora, mas também com pouco fundamento a não ser meu estupor. Que loucura!
Pauliceia Desvairada foi o grito de ipiranga de Mário de Andrade, com os seus primeiros poemas modernistas. Neste livro tenta definir o novo caminho da criação artística brasileira, por isso é ousado na sua escrita, fazendo arrojadas experiências com a linguagem: versos livres, associações de imagens, linguagem coloquial... A não perder o seu Prefácio Interessantíssimo para quem queira compreender o impacto que Mário de Andrade teve nas bases do Modernismo brasileiro. Se não fosse ele, talvez o Modernismo não fosse tão celebrado nos tempos que se seguiram à Semana de Arte Moderna, tendo sido ele próprio a força motriz por detrás desse evento cultural que viria a reestruturar toda a literatura e as artes visuais brasileiras.
"O passado é lição para se meditar, não para reproduzir."
Sem sinfonia e com harmonia só nos últimos poemas, o estilo poético de Mário de Andrade não me atraiu nem um pouco. Com a prepotência de fundar a "genialidade" do modernismo, o autor já me fez duvidar de sua obra. Não soube cantar, urrar, rezar, ou expressar qualquer emoção a não ser tédio em vários poemas. Aparentemente, tenho olhos mudos.
Apesar disso, gostei da composição de "As Enfibraturas do Ipiranga", auge da musicalidade harmônica do livro. O embate entre as "Juvenilidades Auriverdes" (Alusão aos Modernistas) e os "Orientalismos convencionais" (Escritores conservadores, parnasianos), esplêndido para se entender a proposta de Semana de Arte Moderna de 1922. E os poemas "Paisagem" são retratos de São Paulo, antiga terra da garoa, ilustrada nesses versos.
"De repente Um raio de Sol arisco Risca o chuvisco ao meio."
**3,5 estrelas "Por muitos anos procurei a mim mesmo. Achei. Agora não me digam que ando à procura de originalidade, porque já descobri onde ela estava, pertence-me, é minha." Eu entendo que é um livro que espelha muito bem a época do Modernismo e acho que isso é o mais legal de tudo, fora o célebre poema "Ode ao Burguês". Amei o livro mas sinto que não é algo que vai me marcar ou que eu queira recomendar a alguém, principalmente se você quer começar a ler poesia (caso esse seja seu caso faço jus ao "Poemas de Álvaro de Campos", de Fernando Pessoa). Apenas acho que esse não é o estilo de poesia que eu costumo gostar, e por isso a nota. Uma das partes que mais gostei foi no começo, onde ele faz algumas citações a falas de Victor Hugo.
Acho que pra mim, o melhor de Mário de Andrade junto com Os Contos de Belazarte. O personagem "arlequinal", essa adjetivação é tão sublime se tratando de São Paulo e suas inúmeras referências à Flaubert que chega à ser curioso, em como se perdeu dessa essência da capital metropolitana. Mas uma coisa não se perdeu. A euforia e frenesi que Mário tanto aponta fazendo o contraposto de modernidade x homem, é algo que permanece intrínseco à São Paulo, São com seu admirabilíssimo "ão" como o próprio autor descreve. Fantástico
Amei esse livro, o prefácio é super interessante, ele me dá inspiração, não só de escrever de forma mais autêntica mas também de viver, assim como os poemas do Mario durante todo o livro! O jeito que ele retrata e critica a sociedade de sua época é genial e consigo me identificar com seus sentimentos, alguns deles pelo menos, ele parece sempre exaltar a criatividade e a liberdade e o neologismo de arlequinal expressa muito bem isso. Os últimos poemas são geniais e nunca tinha lido algo com a mesma ideia, mas nunca li muita poesia antes.
Para esta obra fazer sentido é necessário encontrar o ritmo certo da leitura. Não só das estrofes, mas das palavras.
As poesias são uma mistura de arte, música e até teatro (na minha humilde interpretação, que nada tem de especialista).
A leitura fez ainda mais sentido quando li 'sobre o autor', o 'texto e contexto' e o 'tome nota' que estão disponíveis ao final desta edição. Ah! O 'Prefácio interessantíssimo', também ajudou muito no entendimento do todo (não pule a leitura dele)!
Algumas coisas não fizeram sentido para mim. Mas é certo que me falta conhecimento. A linguagem também não foi a mais acessível com a qual já me deparei.
Recomendo a releitura após ter lido as sessões finais do livro. Você enxergará e entenderá Pauliceia desvairada de outro modo.
Durante toda a leitura pude notar muito conhecimento geográfico, político e cultural por parte do autor, devido a mistura que ocorre no decorrer de seus poemas. A cereja do bolo foi 'As enfibraturas do Ipiranga'. Pude criar todo um cenário na minha imaginação.
Um verdadeiro furacão cultural. Não foi à toa que Mário de Andrade se tornou um ícone na literatura nacional!
Lo leí en español y estoy viendo que la edición, al parecer, es una réplica de la primera, pero no tiene ISBN. Me gustaría leerlo en portugués.
Hay que dimensionar que este poemario se escribió a principios del siglo XX y que fue la base del modernismo brasileño. El contexto nos dice mucho de lo innovador que fue esta escritura.
Talvez eu seja muito burro mas eu não gostei nada desse livro. Algumas estrofes são legais e me tocaram, me fizeram refletir mas no geral, não gostei.
Um claramente livro paulista claramente escrito por um paulista, mas que faz mil referências aos locais da cidade que não são entendíveis por um leigo.
one of the hardest books i've read in a while. a manifesto for the 1st stage of brazillian modernism. filled with critique to the elites and the rich, amongst references to european artists and works. simply amazing, however hard it is to read and interpret.
Com todo respeito mas São Paulo é uma cidadezinha horrorosa. Talvez na época do Mario tenha sido boa de morar, mas agr porraaa. E de fato era um prefácio interessantíssimo.