Se tivesse jeito de torcer esse livro, escorreria sangue e fezes.
O livro e dividido em 3 partes.
Na primeira parte o autor vai apresentando os núcleos de personagens, a ambientação do mundo de então, um mundo que colapsou climaticamente; o céu agora é vermelho, sem água potável, habitado por ratazanas e baratas que são os alimentos disponíveis.
O ser humano é apresentado nessa narrativa abaixo da categoria de animal, mata por prazer, canibaliza os semelhantes sem nenhum pudor, as mulheres são as vítimas mais vulneráveis e portanto em extinção.
Nessa primeira parte senti que o autor despejou toda a imundície e flagelo do ser humano numa canetada só!
E isso é muito perturbador, a crítica que faço são duas: essa decisão de escrita é tão chocante, tão explicita, tão abjeta que o leitor é obrigado a se distanciar do objeto narrado, e objeto é a palavra correta, pois seria, pelo menos pra mim, impossível continuar se insistisse que aqueles objetos são pessoas sendo multiladas, canibalizadas e mantidas vivas para que se tenha carne fresca por mais tempo.
A segunda critica é sobre a narração e alguns diálogos.
A voz narrativa de alguns personagens são idênticas, com palavões repetidos a exaustão, sempre os mesmos, de modo que se não tivessem os capítulos separados por núcleo de personagens seria bem difícil de identificá-los.
O narrador é completamente instável, ele conta a história sem um pingo de sofisticação, é vulgar, mas em determinados pontos ele se transforma, usa os termos tradicionais no lugar dos termos chulos e baixos de costume.
Se a narração fosse um pouco menos vulgar, menos pobre e um pouco mais subjetiva, que fizesse o leitor interpretar alguns acontecimentos, esse livro seria, na minha opinião, o melhor que li neste ano.
Camargo é o protagonista dessa história, na terceira parte tudo se modifica, os ânimos se acalmam e o foco agora é na trajetória e não nas barbáries indigestas.
Aqui a historia me ganhou, não consegui mais desgrudar, passava o dia refletindo sobre o que tinha lido. Até a voz narrativa ficou mais estável, mais sóbria, menos pobre.
Tenho pra mim que o narrador, que hora mostra-se intelectualizado narrando um mundo de pessoas analfabetas e hora dispara a falar de modo chulo, com raiva, seria o próprio Camargo que seria também considerado um intelectual até mesmo no mundo de Antes, e sinto que Camargo, em boa medida seria uma representação do que o próprio autor gostaria de ser num mundo assim.
Mesmo com as críticas, foi uma boa leitura, uma sacada de gênio do autor que desponta como um dos livros mais falados nas redes.
O desfecho da história foi muito bom. Vale sim a experiência.
É muito brutal
Respeite seus limites.