Mais um retorno para a prosa poética e evocativa da Nélida, uma das grandes escritoras brasileiras da geração da Clarice (e com um estilo semelhante, mais psicológico, poético, uma mistura de prosa e poesia), que ainda está em atividade.
Nélida Piñon tem um estilo denso, uma linguagem e um ritmo próprio que pode ser mais difícil para alguns leitores, mas que recompensa o esforço com frases que brilham como diamante, e uma complexidade psicológica que impressiona.
Segue a mesma linha da "prosa concentrada", livros que, imagino, são reescritos concentrando significado a cada frase. Pode ser mais "pesado" para alguns leitores, mas para quem curte a parte mais de ourivesaria, de lapidação de palavras, é um banquete.
Em "Vozes do Deserto", Nélida reconstrói a narrativa de Xerezade pelo ponto de vista da narradora das Mil e Uma Noite, de sua irmã e de sua serva, e também pelo ponto de vista do Califa que a aprisiona e a ameaça de morte.
A narrativa seguem em espirais seguindo a própria estrutura da narrativa das Mil e Uma Noites, mas com muito erotismo, uma sensibilidade pós-moderna (tudo é questionado, fragmentado, investigado). É um ritmo diferente, uma espécie de narrativa líquida, capítulos parecem se repetir e introduzem novas variações, passagens se expandem para mostrar cenas e narrativas dos reinos míticos de Bagdá, de seus habitantes, dos dramas da população pobre para depois retornar à prisão de Xerazade e sua criação de histórias.
Tem muito de metalinguagem, o livro também aborda o ato de criação de histórias em si, e de como o imaginário interpenetra e muda as almas, de como as narrativas são capazes de mudar mentes, de mudar pontos de vista.
Um conhecimento prévio das histórias da Mil e Uma Noites, principalmente por meio da leitura de alguma tradução, ajuda muito na apreciação desse romance. Muitas referências são feitas, e as cenas parecem terem sido escritas para se encaixarem como interlúdios das narrativas das Mil e Uma Noites. Interlúdios modernosos, feitos pelo ponto de vista feminino contemporâneo e com muito erotismo, é claro!
Recomendo para quem curte esse tipo de prosa poética, ou se quiser experimentar uma maneira diferente e interessante de narrar uma história. Fãs de outros livros da Nélida, ou de literatura mais experimental irão adorar esse livro, acredito.
Pelas resenhas gringas, algumas bem negativas, muitos leitores embarcaram nesse livro esperando um romance histórico ou algo parecido, mas acredito que se deve aproximar a leitura de Vozes do Deserto como se aproxima a leitura de um poema. Deixe-se levar pela leitura, pela linguagem, pelas palavras, e pelo modo como as palavras soam na mente ao se ler.
Um aviso, o livro é bem erótico, com muitas passagens e cenas de sexo, mas descritas pela prosa poética de Nélida.