Nesta autoficção transgressora e despudorada, clássico da literatura marginal, o escritor e compositor Luís Capucho mergulha o leitor na penumbra. É um relato confessional que se passa quase inteiramente na sala de exibição de filmes pornográficos do título.
Corre a década de 1990, quando o local, no centro do Rio de Janeiro, havia se transformado em endereço de encontros homossexuais, enquanto na tela eram exibidos filmes de pornografia hetero. Entre homens e travestis, e uma única mulher que vendia balas e cigarros, o prazer é obtido furtivamente, sob a parca luz da projeção.
O livro se baseia na experiência do autor e em sua observação detalhada do dia a dia do local e seus frequentadores. O cinema Orly é, para o autor, um paraíso e um inferno. Reinam os fluidos e a genitália exposta. E as incursões entre as fileiras de poltronas se tornam uma rotina na vida do narrador, que antes de cada visita passa por um botequim para beber uma cerveja e uma dose de conhaque.
Capucho entremeia a narrativa com letras de músicas que ele compõe de acordo com suas vivências. Para o narrador, a experiência de frequentar o cinema de “pegação” significa provar do mais radical anonimato, ser apenas uma imagem sem alma. No entanto, o cinema Orly tem uma surpreendente face civilizatória: policiais entram de quando em quando na sala de exibição e não interagem com ninguém. Tornam, assim, a plateia do cinema um espaço de sociabilização, um terreno preservado da violência urbana e dos sobressaltos do cotidiano. Tudo é ao mesmo tempo previsível e inesperado. “O cinema havia desenvolvido suas próprias regras”, escreve o autor. “No seu subterrâneo, dentro de sua bolha, fazíamos parte de outro mundo, cuja higiene, noção ética, amplitude, atmosfera, gravidade, cor, movimento e abordagem social eram parte de um mundo diferente do mundo lá fora.”
Uma narrativa interessante quando se fala de autoficção, mas essa questão da repetição, mesmo com motivos simbólicos e dentro das questões do momento de vida que o autor estava vivendo, deixam o texto moroso e, particularmente, sem clima. As historietas intercaladas são muito mais vividas e interessantes, sejam vividas fora ou dentro do cinema. Infelizmente com todas as apresentações, o espaço ficou muito nebuloso, sem a magia que talvez e de fato ele tenha da sua existência própria e dentro da cultura brasileira.
Cinema Orly é qualquer coisa entre romance, memória, crônica cuja mistura hoje em dia a gente chamaria de autoficção, mas não sei se a pecha dá conta de acessar completamente o texto de Capucho, que fica entre uma descrição cerebral e frontal à maneira de Georges Perec com bolsões da mais pura melancolia, tudo isso enquanto descreve em detalhes sua vida de frequentar do Orly, cinema pornô que viveu intensamente. É interessante ver como operavam os gays de outrora (não que os de hoje estejam lá tão diferentes no que diz respeito às políticas da pegação na penumbra).
"No Orly, não. Todos preferíamos ser apenas uma imagem, sem alma. Silenciosamente, sem nenhum olhar ou palavra que indicasse ou trouxesse alguma lembrança de que possuíamos uma alma, pagávamos ou pagavam um boquete na gente, sem que isso implicasse algum envolvimento. Éramos como quem vendia o corpo. Nenhum envolvimento. O que não queria dizer ausência de emoção."