Vicente de Alcântara é um jesuíta recluso e humanista, que só terá paz quando desvendar o mistério de Mariana, a menina muda que voltou da mata como se estivesse enfeitiçada. Awa Ndongo é uma curandeira angolana, escravizada em um engenho, e não descansará até recuperar sua liberdade. Em um distante povoado na Bahia do século XVII, os destinos de Vicente e Awa se cruzarão com o de um comissário da Inquisição portuguesa obcecado por bruxas e diabos. Mistério, horror, fanatismo e paranoia são os ingredientes deste romance gótico no coração do Brasil colonial.
O terror brasileiro tá aí. História interessante, corajosa, bem pesquisada e bem escrita, precisa de mais reconhecimento! Segundo que leio do autor e espero ler ainda mais.
É sempre refrescante ler um terror nacional moderno, e depois de dois livros, estou virando fã do Daniel Gruber!
Noite do Cordeiro teve uma pesquisa histórica impecável, impressionante mesmo. Eu amei a atmosfera do livro, do suspense e das cenas de terror — foram muito bem executadas! Gostaria apenas que os escravos tivessem uma participação mais importante na história central, pois o side plot deles me pareceu um pouco jogado. Mas de resto, excelente leitura e recomendo fortemente!
O livro me impactou tanto que não coloquei resenha aqui porque tava pensando muito sobre ele. No fim das contas decidi escrever todo um artigo acadêmico sobre A Noite do Cordeiro 🤓 então acho que esse é o melhor review que eu poderia dar.
Daniel Gruber, para mim, estava com o queijo e a faca na mão. No entanto, a faca escorregou. Gosto muito de como ele trabalha o insólito para trabalhar o período de inquisição no Brasil em 1600.
O livro é bem escrito, mas o autor peca um pouco no enredo e narrativa. Há personagens que não são bem desenvolvidos. A forma como o autor escolheu para narrar os capítulos me trouxe a sensação de desenvolvimento precário. O livro precisava de substância. No entanto, apesar disso tudo a história é cativante. Não há como passar despercebido. É uma leitura que entretém.
Os pilares da colonização no Brasil, religião, escravidão e exploração, são a base do romance de folk horror A Noite do Cordeiro, de Daniel Gruber. Num belo projeto gráfico e densa pesquisa histórica, o livro resgata horrores da Santa Inquisição no Brasil, que, entre outras coisas, perseguiu e matou mulheres acusando-as de bruxaria.
Finalista do Jabuti, o romance é narrado por três pontos de vista: o de mulheres acusadas de bruxaria, o de um padre português (do bem) no Brasil, e o de uma mulher escravizada trazida de seu país na África para uma plantação de cana numa cidade do interior da Bahia, onde se passa a trama.
Gruber constrói de forma acertada a atmosfera sufocante dos horrores que as mulheres enfrentam no projeto colonial. Mariana é uma adolescente que se perdeu na floresta uma noite, foi encontrada num estado catatônico e desde então tem um comportamento estranho. Sua avó é chamada de bruxa, e Awa Ndongo é a mulher escravizada que acaba de chegar ao país, e procura jeitos de fugir da fazenda. Curiosamente, é o focalizador masculino, o jesuíta Vicente de Alcântara, que organiza a narrativa uma espécie de centro de consciência que foge às mulheres – afinal, seguindo, os preceitos da época em que a narrativa se passa, elas não poderiam ter voz. Isso não quer dizer que sejam fracas ou silenciadas, no livro, pelo contrário, mas é sagaz a maneira como a narrativa se arma para figurar essa dinâmica.
Mas, a trama situada no século XVII tem muito mais a ver com nosso tempo – afinal, vivemos até hoje as heranças sórdidas do passado colonial, e é isso que Gruber muito bem coloca em sua narrativa de maneira sutil, e, por isso mesmo, eficiente.
De cerimônias satânicas a bruxarias, o romance explora o terror de forma muito bem delineada, encontrando em horrores sobrenaturais a materialização de horrores reais, e criando cenas visualmente muito fortes.
“Não acho que os homens de bem são alvos do demônio, e sim que, por trás de sua decadência escondem a verdadeira corrupção e os desejos mais ímpios.”
Se essa frase não descreve muito bem o nosso presente, não sei o que descreveria.
A Noite do Cordeiro me conquistou pelo ritmo surpreendentemente fluido e pela atmosfera sombria, quase ritualística, com um pé firme no folk e no imaginário da bruxaria. A escrita é envolvente a ponto de tornar a leitura compulsiva; não consegui largar o livro. O embasamento histórico sustenta muito bem a narrativa, e a construção do padre Vicente é um dos grandes acertos. Um personagem cheio de camadas, atravessado por culpa, fé e contradições, que carrega boa parte da tensão moral da história. O mistério se desenvolve de forma envolvente, sempre cercado por críticas sociais afiadas e um uso inteligente do simbolismo religioso. Com descrições de cenários e acontecimentos que constroem imagens vívidas e perturbadoras. É um livro que se enxerga enquanto se lê, sem economizar no desconforto. Ainda assim, o final me deixou com a sensação de interrupção abrupta. Quando a história termina, a impressão é de que ainda havia páginas a serem viradas. Um encerramento repentino diante da força do percurso. Mesmo com esse final um pouco decepcionante, é uma leitura muito bem escrita, atmosférica e marcante, daquelas que continuam reverberando depois de fechadas.