“Em A Descoberta do Frio, o “frio” cobre-se de diferentes camadas: racismo, indiferença, desigualdades… Oswaldo de Camargo, com raro senso de quem vai montando em doses certeiras seu quebra-cabeça narrativo, traz para a ficção as tensões de uma sociedade fracionada entre passado escravista e presente do racismo velado, marcada por uma memória de lutas e sofrimentos a todo instante atualizados. E polemiza com nossos mitos fundadores, a fim de colocá-los contra a parede da dura realidade que traz ao leitor, sem nunca perder o encanto do texto bem tramado.”
Em A Descoberta do Frio, Oswaldo de Camargo parte de uma situação estranha e perturbadora: um frio intenso que surge em setembro e passa a atingir apenas pessoas negras, fazendo com que elas desapareçam. A história se desenrola a partir da tentativa de entender esse fenômeno e da luta de Zé Antunes para convencer a cidade de que algo grave está acontecendo, mesmo quando ninguém parece disposto a ouvir ou acreditar.
Aos poucos, fica claro que esse frio não é só climático. Ele funciona como metáfora do racismo, da exclusão e da indiferença que atravessam a vida da população negra no Brasil. Quem não sente o frio não o reconhece, e essa negação ecoa a forma como o racismo estrutural é constantemente minimizado ou tratado como exagero. O sofrimento existe, mas é invisibilizado.
Sem perder a força literária, o livro se afirma como denúncia e memória. Camargo usa o fantástico para falar de uma realidade dura e cotidiana, marcada por desigualdade e silenciamento, ao mesmo tempo em que homenageia lutas e vozes negras. A Descoberta do Frio provoca desconforto, mas também convida à reflexão: o frio sempre esteve ali, quem levantará a voz para falar sobre ele?