Um romance que começa com memórias fragmentadas e termina como um inventário de ruínas: assim é Cinzas do Norte, de Milton Hatoum. Narrado por Lavo, um homem que revisita sua juventude em Manaus, o livro recompõe a trajetória de seu amigo Raimundo (o “Mundo”), filho do poderoso empresário Trajano Mattoso, e de outros personagens que orbitam essa família. Entre rebeldia artística, política autoritária e relações pessoais sufocantes, a narrativa se debruça sobre a vida íntima de figuras que parecem devorar a si mesmas, deixando atrás de si apenas cinzas, tanto as cinzas de uma memória quanto as de uma cidade que perdeu parte de sua alma nos anos da ditadura militar e da modernização predatória.
Recentemente falei de livro ruim e minha objetividade para detectá-lo, mas quando você lê uma obra que você reconhece valor, mas não consegue nominar o que sente ao lê-la, o que fazer? Se identificar com a alegria ou dor do personagem ou com ele próprio na jornada, é um dos prazeres da leitura, mas aqui não consegui me conectar com os personagens.
Mundo é, ao mesmo tempo, o motor e o fardo do romance. Raimundo, ou Mundo, surge como um artista rebelde, inconformado com o pai e com o sistema, desejoso de liberdade absoluta. Porém, sua rebeldia rapidamente se converte em obsessão narcísica: Mundo não se volta para o coletivo, não luta de fato por algo além de si mesmo. Sua recusa às convenções é mais uma forma de autodestruição do que de resistência.
Ranulfo, tio de Lavo, por sua vez, funciona como um espelho invertido. Enquanto Mundo despreza a ordem, Ranulfo sonha em se afirmar dentro dela, ascender socialmente, conquistar poder. Mas também nele predomina o ressentimento e a obsessão pelo próprio destino. Se Mundo é o rebelde que não constrói nada, Ranulfo é o ressentido que não vê além de seu rancor. Ambos, cada um a seu modo, parecem incapazes de olhar para fora de si mesmos.
Se Mundo e Ranulfo são sufocantes, Lavo oferece outro registro. Filho de uma família mais humilde, Lavo ocupa o lugar de observador, narrador e testemunha. Ele é, em grande medida, um personagem passivo: assiste às tensões entre Mundo e Trajano, acompanha a trajetória de Ranulfo, observa Manaus se transformar.
No entanto, é justamente essa passividade que o torna mais humano. Lavo não se consome em obsessões; seu olhar é mais aberto, mais sensível, mesmo que muitas vezes impotente. Ele admira Mundo, mas também enxerga suas falhas. É por meio de sua voz que a narrativa se constrói, e talvez seja nele que o leitor encontra algum respiro. Enquanto os outros personagens parecem devorar tudo ao seu redor, Lavo se oferece como mediador: alguém que tenta compreender, ainda que não consiga agir.
No centro das tensões familiares está Trajano Mattoso, pai de Mundo. Empresário autoritário, Trajano encarna a figura da elite que prospera na Amazônia às custas da repressão, da exploração e da imposição de um progresso que não dialoga com a realidade local. Sua relação com o filho é marcada pela opressão: o pai que exige obediência e disciplina, o filho que responde com rebeldia.
Trajano é mais do que um personagem; ele é uma alegoria de poder. Em sua figura se concentra a lógica da ditadura militar e da elite econômica que sufoca qualquer diferença. Se Mundo busca escapar, é contra essa sombra que ele se debate. Mas o romance mostra que a força do pai, enraizada nas estruturas sociais e políticas, é quase impossível de vencer.
Entre as figuras femininas, duas se destacam de maneira silenciosa mas fundamental. Alícia, mãe de Mundo, aparece como alguém que carrega a impotência de não conseguir proteger o filho da opressão paterna. Já Ramira, tia de Lavo e irmã de Ranulfo, representa outra forma de resistência. Diferente dos homens que se consomem em obsessões e ressentimentos, ela é acolhedora, capaz de gestos de generosidade e cuidado, apesar de um tanto quanto amarga. Sua figura mostra que, mesmo em meio às ruínas deixadas pelo narcisismo masculino e, ao lado de Lavo, oferece ao leitor um contraponto ético e emocional, um lugar onde a narrativa respira.
Eu, como leitora, diante desses personagens, não encontrei espaço de empatia fácil. Eles não despertarqm em mim simpatia, mas incômodo. Hatoum os constrói densos, cheios de contradições, como se quisesse justamente revelar a esterilidade de suas escolhas individuais diante da grandeza e da dor da Amazônia e do Brasil.
O tema da arte atravessa Cinzas do Norte principalmente pela figura de Mundo. Ele deseja ser artista, pintar, expressar sua inconformidade. Sua obra, no entanto, parece sempre interrompida, fracassada, incapaz de se afirmar. Sua rebeldia se traduz em arte, mas uma arte que não encontra espaço nem força transformadora.
Aqui Hatoum sugere um dilema profundo: a arte pode resistir à ditadura, mas até que ponto? Em Mundo, a arte é potência e impotência ao mesmo tempo. Potência porque encarna a recusa, a diferença, a sensibilidade. Impotência porque não muda a realidade, não encontra reconhecimento, se torna apenas testemunho de uma vida autodestrutiva.
Contudo, um dos maiores méritos de Milton Hatoum é transformar Manaus em personagem. A cidade não é apenas cenário: ela respira, sofre, se transforma junto com os personagens. Nos anos 1960 e 1970, Manaus experimentou mudanças radicais com a criação da Zona Franca, que trouxe modernização e desigualdades.
No romance, a cidade é mostrada em suas contradições: a herança cultural e familiar, a modernização que sufoca tradições, o silêncio de uma Amazônia reduzida a espaço de exploração. Hatoum, que nasceu em Manaus, escreve sobre sua cidade com um olhar crítico, consciente de que ela guarda tanto beleza quanto decadência. Essa capacidade de sentir-nos nessa cidade é das belas coisas do romance. E assim como os personagens centrais vão se perdendo em suas obsessões, Manaus também aparece como uma cidade em ruínas, que perde parte de sua alma ao se adaptar a um progresso imposto de fora.
Cinzas do Norte é, sobretudo, um romance sobre a memória. Lavo, ao narrar os acontecimentos, recompõe a vida de Mundo e de outros personagens, mas sua memória é fragmentada, parcial, subjetiva. Não há verdade única, mas múltiplas versões.
Essa escolha narrativa reforça o tema do narcisismo. Se Mundo e Ranulfo são incapazes de olhar para fora de si, Lavo também não consegue dar uma visão total: ele reconstrói lembranças atravessadas por afetos e lacunas. O romance mostra, assim, como não alcançamos o conhecimento da totalidade dos indivíduos, mesmo daqueles queridos por nós que guardam histórias e partes de si que não conhecemos.
O narcisismo dos personagens não é apenas traço psicológico: também é metáfora de uma geração e de um país incapazes de olhar para o outro, presos a seus próprios interesses e frustrações.
Ler Cinzas do Norte é uma experiência densa, muitas vezes incômoda. Milton Hatoum não busca criar personagens simpáticos ou histórias agradáveis. Ao contrário: constrói figuras marcadas pelo narcisismo, pela obsessão e pela autodestruição. Para alguns leitores, isso pode soar exaustivo, até irritante, e, de fato, alguns personagens foram difíceis de suportar, pelo menos pra mim.
Mas essa escolha tem sentido literário e político. Hatoum mostra que não há heróis em sua narrativa: apenas homens e mulheres que refletem as contradições de um Brasil desigual, autoritário e marcado por silêncios.
No fim, Cinzas do Norte é menos sobre gostar ou não dos personagens, e mais sobre compreender o que eles representam: as feridas íntimas e coletivas de um país que se modernizou sem resolver suas desigualdades, que viveu uma ditadura sem superar suas sombras, que produziu artistas e intelectuais cuja rebeldia se voltou para dentro, queimando-se até virar cinza. É um romance que incomoda porque não oferece saída fácil, mas é justamente desse desconforto que talvez nasça a sua grandeza.
Cinzas do Norte de Milton Hatoum. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 224p. Leitura de Setembro 2025.