A ultra-direita tornou-se algo que uma obsessão para mim, primeiro porque me identifico com o centro-direita e tenho o dever de me preparar; segundo porque apesar de não gostar de nenhum dos extremos, eles são objectos de estudo incríveis de um ponto de vista antropológico, se bem que na grande maioria das vezes são uma completa perda de tempo. Ambos a extrema-direita e extrema-esquerda são quase que ultimamente socialmente darwininstas quando postos em práctica, o que é curioso quando estes também tendem a focar-se em alguma forma de transcendência.
Para evitar já os whataboutismos, o livro não se preocupa com a direita mainstream, como conservadores, ou liberais/libertários; apenas com a direita anti-sistema, hostil à democracia liberal. E não tenho interesse em ter de espetar o alfinete na esquerda sempre que eu mencionar algo na direita, isso já cheguei a fazer em outras análises, aqui falamos somente dos problemas da direita. Cas Mudde divide a ultra-direita em dois subgrupos: direita extremista: que rejeita a essência da democracia, soberania popular e regra da maioria, tirando inspirações fascistas; e a direita radical (populista): que aceita a essência da democracia, mas opõem-se a elementos fundamentas da democracia liberal, como direitos das minorias, Estado de direito e separação de poderes.
A primeira é revolucionária, a segunda é mais reformista. Radical confia no poder do povo, a extremista não. Mudde também define o populismo como uma ideologia que considera que a sociedade se divide em dois grupos homogéneos e antagónicos: o povo puro e elite corrupta. Em teoria é a favor da democracia, mas anti-liberal. Direita extremista não é populista, mas radical pode sê-lo.
Apesar de apresentar uma breve história da primeira, segunda e terceira vagas da ultra-direita, o foco está efectivamente na quarta vaga, que engloba a conhecida “direita alternativa” (alt-right), e os novos movimentos de direita radical populista que nasceram ou ressurgiram com mais poder na Europa. Estas beneficiaram das crises do 11 de Setembro, ataques terroristas, grande recessão de 2008 e a crise de refugiados (a qual Mudde não gosta deste termo por achar exagerado), e sejamos honestos, todos os partidos e todas as pessoas sofreram com estas crises, é normal que o descontentamento tenha acumulado e criado um euroceticismo, aumentado a islamofobia (que admite não ser exclusiva da ultra-direita) e haja uma oposição aos “globalistas esquerdistas”. Porém uma das grandes peculiaridades desta vaga é que são todos eleitos democraticamente para as suas posições, não havendo tomadas de posse hostis.
Pessoalmente continuo a discordar que Jair Bolsonaro e Donald Trump tenham sido de extrema-direita. O primeiro levou imensa manipulação, algo que curiosamente descobri quando estava a fazer fact-checking pela família, onde encontrei bastante informação que desmentia a sua base, mas ao mesmo tempo reparei que as acusações de fake news tinham alguma legitimidade; sendo fã de política americana, Donald Trump sofria do mesmo, e na práctica sempre foi um típico Republicano, excepto na sua retórica e uso das redes sociais, que foi um caso único e desastroso que criou malucos com fartura, associou directamente a si o grupo identitário Proud Boys, e radicalizou a GOP com teorias da conspiração, provavelmente tornando Trump o primeiro Presidente pós-modernista (pós-modernismo não é só, nem é igual, a esquerda).
De qualquer forma eu entendi porque os consideram como radicais. Possuem características nativistas (divisão entre o povo “do bem” e os “outros” por exemplo) e alguns tiques autoritários quando querem lidar com o crime, mas tenho grande problema quando Mudde inclui também a oposição ao “politicamente correto” (PC). É de facto um ponto fulcral no discurso da ultra-direita, mas é um ponto que considero provavelmente dos mais legítimos que apresentam. Há uma nuvem de censura e ‘cancelamento’ de pensamento que assombra mesmo aqueles que são hoje adultos, mas alguém desenterrou algo infeliz enquanto esta pessoa era mais jovem ou mesmo menor de idade, e está a ser usada contra ela como chantagem, para não falar do aumento de páginas do dicionário com palavras que não se pode dizer.
Outros temas principais são a Imigração, Segurança, Corrupção e Política Externa. Sendo nativistas, imigração em massa é uma ameaça existencial, e têm um pudor acima da média ao multiculturalismo. Há vários níveis disto. Em outros países há claras divisões étnicas e perigosas de um ponto de vista social, mas em Portugal, segundo um estudo exploratório pelo investigador Pedro Magalhães, o eleitorado Chega não tem problema em geral com imigrantes: não acha que há mais crime por causa deles, não os considera especialmente maus para a cultura portuguesa e até são benéficos para a economia portuguesa; quando falamos de punição e vemos todos os discursos pelos seus líderes e delegados, são altamente autoritários e usam mesmo o tradicionalismo para preencher as lacunas na educação ou reeducação; quanto à corrupção, é dos outros pontos mais legítimos e que mais usam para caçar votos aos descontentes, mas são normalmente cegos à corrupção dos seus líderes, e podem ter a certeza que muitos dos que mais se queixam do sistema e das elites, são os que mais foram beneficiados por eles, e os líderes destes partidos acabam pertencendo igualmente a várias das elites que se queixam. Ou seja, a caça ao tacho não é menor, antes pelo contrário; na Política Externa a ultra-direita vive num mundo cão de relações de soma zero, onde são céticos de tudo e mais alguma coisa mas não apresentam alternativas, o que pessoalmente irrita, principalmente quando na Europa há tão poucos recursos naturais comparados com outros continentes, logo num presente e futuro tão dependente das tecnologias. Sem relações internacionais, sem ter os EUA como principal aliado, sem consolidar as rotas de comércio, de onde virá então essa prosperidade prometida? Do dízimo dos crentes e da China certamente…
Felizmente ou infelizmente, e muito ironicamente, a ultra-direita está a adaptar-se a estas realidades e ocorre um fenómeno onde o “fascismo” se está a internacionalizar. Digo felizmente porque pelo menos mostra que reconhecem os pontos fortes da globalização, e estão disposto a dialogar, fertilizando a moderação. Vemos isto em algumas ideias mais recentes do Chega, e mesmo com Le Pen, que alguns dizem que “moderou-se”. Se isto é genuíno, é algo que duvido, mas será esclarecida mais tarde ou mais cedo, no entanto dá certezas que a quarta vaga da ultra-direita não é só peculiar em alguns aspetos, como também continua a evoluir, e muitos dados inspirados nas vagas anteriores não fazem sentido hoje. Algo que pelo menos todos estes partidos têm em comum é o “nós” versus “eles”, mas que ainda assim vai sofrendo mutações, como a Linha Norte de Matteo Savini. A LN era regionalista e até queria o seu próprio Estado (Padânia), dividir o país entre Norte e Sul, mas Savini reestruturou-a tirando o ‘Norte’ da Liga em 2018 e mudou o foco para os muçulmanos e refugiados, com o slogan “Italianos Primeiro”. Adaptação e jogada fácil.
Outra característica que mantém é a centralização no líder, porém não invulgar em partidos novos como o Chega (ou a Iniciativa Liberal que é do centro político, ou Tino que está por todo o espectro do compasso), ainda que muito raramente se democratizam.
Cas Mudde viaja pelos partidos políticos, movimentos sociais e subculturas, retirando as distinções introduzidas por Michael Mickenberg. Na altura que o livro foi escrito, alguns movimentos apareceram, desapareceram ou partidos novos surgiram (como o Chega). A ultra-direita é volátil e suspeito que isto deve-se à sua composição maioritariamente masculina, tornando estes partidos naturalmente mais agressivos (em todos os significados, tendo em mente que a extrema é mais agressiva fisicamente, e a radical, politicamente) e competitivos (caça ao poder). E isto é similar – com Cas Mudde reconhecendo – com a oposição associada à extrema-esquerda ou anarquismo, com a única diferença que os anarquistas têm mais mulheres jovens nas suas fileiras (ou as mães dos jovens em ambos os casos), mas ao final do dia chegam mesmo a trocar números de telefone para contacto fora do contexto de manifestação. Algo que concordo, e que venho a dizer ao tempo, que curiosamente descobri no mundo de “pick-up artistry” ou PUA (foi uma fase), é que estes extremos lutam à frente de todos e f**em quando ninguém olha. Acho isto tão verdade, que quando alguém chama facho ou comuna ao outro/a, entendo como “quem desdém quer comprar”. Chamem-me cínico.
Não obstante notem que cada vez mais temos mulheres a liderar partidos de direita-radical, efectivamente tornando os partidos mais sexy, e até mais apelativos a minorias, mostrando o shift nativista que não é racial, mas étnico nacionalista. Acho isto interessante porque os partidos mais à esquerda têm como bandeira a protecção das minorias raciais e sexuais, e não é surpreendente que esteja desesperados para redefinir ‘racismo’, para manter a sua base, e ao mesmo tempo os partidos radicais de direita assimilam todos independentemente de identidade, continuando a dividir o povo entre outros parâmetros. Por outro lado isto é cair numa armadilha, e cavar a própria cova, e vai continuar se não deixarem os falsos equivalentes de lado, porque vivem disto: se a esquerda faz bosta, eles vão entrevistar a bosta.
Mudde identifica PUA, incels (celibatários involuntários) e vários sites e comunicação social online como ‘direita alternativa’. Existe verdade nisto ainda que haja muito mais variedade cultural do que ele se permite dizer. Curiosamente nem ele considera a Fox News como extrema ou radical, e até acusa ambos a Fox e New York Times de faturarem à custa destes, e vejam só, isto foi escrito bem antes das manifestações de 2020. O pote já vem a escaldar ao tempo, tudo pela paixão pelos hipsters fascistas que a própria Vice reportou. Se calhar existe de facto uma razão fashionista por detrás do foco mediático nosProud Boys. Jornalistas vivem na bolha Twitter, confundindo sua linha temporal como representativa do mundo real, ecoando os extremos. Em Portugal temos variantes da Qanon, impulsionadas pelo ceticismo perante a pandemia, mas a nossa direita radical é mais tradicional, e mistura as bolhas rurais com bolhas urbanas, com um eleitorado em geral nem muito jovem nem muito velho, ora classe trabalhadora, ora classe média que se acha pobre, quando na verdade tem uma percepção de falta de autonomia, ou que deveria ter ainda mais. Ansiedade económica e níveis de desemprego são factores importantes, e existe sempre um público receptivo. A elite económica perder-se para a direita radical é de facto um fenómeno curioso, mas muitos abertamente querem “abanar o sistema”. Vai-se lá saber porquê, mas a verdade é que meteu o PSD e Iniciativa Liberal (partidos do centro) em alerta, com o segundo a crescer exponencialmente.
A direita radical populista não necessita de convencer pessoas, ou mudar a sua mente. Basta desviar o debate político para os seus temas principais e enquadrar na sua narrativa, e isto funciona mais quando os problemas têm dimensões muito reais, e são adoptados pelos partidos mainstream. Nestes casos a direita radical nem precisa de se envolver muito, simplesmente deixar a mensagem “eu vos avisei”, e o eleitorado entende isto como validação das políticas apresentadas. Muitos até nem são ideólogos de ultra-direita, mas votam por protesto. Existem estudos a favor disto, mas também alguns que confirmam um misto de protesto e opinião negativa sobre a imigração. Por usarem conceitos mais generalizados, atraem minorias, e seduzem com menos imigração, sentenças mais duras e menos regalias para políticos. Ainda que divida o povo em grupos, uma minoria com nacionalidade Portuguesa e que partilhe a grande parte dos valores da direita radical, acaba sendo bem aceite. A consequência será a redução dos residentes no país entre cidadãos de primeira e segunda classe.
Em conclusão, a ultra-direita é mais heterogénea que homogénea, e a radical populista não é a favor de um mundo fundamentalmente diferente daquele que o mainstream político defende, mas acaba levando as ideias e os valores do mainstream a um extremo iliberal. Ambos a esquerda e direita estão a tomar conta do discurso, e inserir cavalos de tróia nas instituições com intenção hegemónica grimsciana. Mudde afirma ser um sinal que a democracia tem fragilidades e deve ser fortalecida com variedade ideológica, incluindo conservadores, democratas-cristãos, liberais, sociais-democratas, e dar confiança ao centro em definir a agenda política sem ignorar ou excluir problemas legítimos (crime, corrupção, imigração, segurança) que são associados principalmente à ultra-direita, e de alguma forma a sua especialidade, mesmo que levadas ao extremo.