Embora seu início seja algo maçante, esta biografia intelectual de Mikhail Bakhtin, escrita por Katerina Clark e Michael Holquist, revela-se, ao final, uma leitura bastante gratificante.
É possível aprender um bocado com eles. Talvez por não ser especialista em história cultural soviética, ou mesmo em teoria da literatura, mas o fato é que, se não é indispensável, o livro de Clark e Holquist presenteia o leitor com questões interessantes. Li-o com o fito de preparar melhor minha aula sobre Burckhardt e Bakhtin do curso de Historiografia Contemporânea da graduação à distância de minha universidade.
A primeira delas diz respeito ao próprio fascínio de Bakhtin por Dostoiévski, fascínio muito bem descrito pelos autores. Ressalte-se que Bakhtin conseguiu mostrar que, por detrás do eslavófilo comunitário escritor residia alguém que era, acima de tudo, um grande individualista. E um individualista no melhor sentido da palavra, ou seja, alguém que vê, na leitura do texto, uma experiência de indefinição. Por se saber indefinido, por saber que não há autenticidade e que ser humano é estar em desacordo consigo mesmo, não se pode aceitar definições delegadas por terceiros. Mas isto se lê melhor no próprio livro de Bakthin sobre Dostoiévski. O interessante é ver o comentário dos autores sobre o fato de Bakhtin ter visto, em Dostoiveksi, um autor que fez a revolução copernicana na literatura, ao tirar o autor do romance do centro (p.263), algo que pode me ajudar tremendamente a desenvolver meu insight dado a partir do texto de Freud sobre as feridas narcísicas. De alguma maneira, para que se verifique a ferida narcísica na historiografia, não teria o autor que sair do centro, ao invés do fato, ou do processo histórico? Neste sentido, Gógol é, mais uma vez, precursor de Dostoíevski. O “Diário de um Louco” não deixa de ser um prenúncio para tais problemas.
Enfim: sai de cena o discurso monológico, mas, em seu lugar, não entra o discurso da psicologia do leitor (algo que seria feito mais pelos formalistas), mas uma tríade formada pelo autor, pelo texto e por sua recepção.
A propósito dos formalistas, foi ótimo ver também a inserção contextual deles. De alguma maneira, os jdanovistas, os formalistas e Bakhtin formam a tríade que o próprio crítico vê nas teorias das obras literárias.
Fundamental também foi descobrir que em Bakhtin surge, pela primeira vez, a palavra cronótopo, que hoje todos acham que é invenção do Gumbrecht e do Hartog. Não é. É do Bakthin.
Enfim, um livro correto, erudito, interessante. Valeu.