Depois da experiência e da reflexão radicais que recolheu em Escute as feras, a antropóloga francesa Nastassja Martin volta ao Grande Norte e a seu diálogo com os even da península de Kamtchátka em A leste dos sonhos. Os “personagens” são os mesmos: Dária, seus filhos e filhas, o pequeno grupo que a seguiu de volta à floresta e a um modo de vida em vias de esquecimento. Mas agora o foco se abre para incorporar o contexto histórico e global que emoldura os acontecimentos e as decisões em Tvaián, às margens do rio Ítcha.
Da colonização russa da Sibéria ao fim da União Soviética, da pilhagem capitalista do território à aceleração da mudança climática, tudo parece conspirar para pôr em cheque a persistência dos even. Contra esse pano de fundo, Martin põe-se a interrogar as respostas even a essa crise de múltiplas faces: os sonhos animistas de Dária, o aprendizado da vida prática longe do Estado, a negociação com o mundo mercantilizado, a reflexão mitológica sobre os seres e os elementos.
Nada disso é exposto com arrogância paternalista nas páginas de A leste dos sonhos: o retorno ao sonho e ao mito, em particular, são entendidos não como regressão, mas como gesto audaz de captação de um mundo em vertiginosa metamorfose e de ação política nesse novo cenário. Por meio de um exercício de escuta paciente, Martin vai despindo o que viu e ouviu em Tvaián de todo exotismo, para discernir o nó palpitante de uma experiência humana que diz respeito tanto aos even como a cada um de nós.
Nastassja Martin is a French author and anthropologist who has studied the Gwich-in people of Alaska and the Even people of the Kamchatka Peninsula. Along with In the Eye of the Wild, she has written Les Âmes sauvages: Face à l’Occident, la résistance d’un peuple d’Alaska, for which she received the Prix Louis Castex of the French Academy.
um livro difícil de resenhar, mas espetacular. traz os relatos da autora, antropóloga, durante seu campo entre os povos even da rússia, traduzindo suas relações com os sonhos, a natureza, o país e a economia global. um livro interessantíssimo e extremamente bem escrito.
O mundo é muito mais do que os nossos celulares e essa sanha de régua do mundo que temos nós, ocidentais… a nossa maneira de viver é só uma entre tantas. Apesar disso, vivemos como se nossas experiências fossem universais. Não são. Há tantas crenças, tantas linguagens, sensações, explicações. Tem quem coma peixe no café da manhã, como Dária e sua família; impossível pra mim, que como meu cuscuz… Os relatos de etnografia antropológica tem esse poder: o de nos devolver a parte que nos cabe, que é só uma partezinha minúscula no mundo.
De todo modo, esse não é um livro pra todo mundo, porque tem um formato mais acadêmico, robusto de informações e referências. Diferente de Escute as feras.
I really enjoyed aspects of this book, but I found its core argument to be a bit facile, and honestly, deeply wrong in many core respects.
Much of the book is conducted as what you might call a micro-ethnography, a very close account of conversations held with a handful of interlocutors of the Even people of Siberia, and one in particular, Darja, who is the source of about 85% of what we learn of their worldview. Her stories are often exceedingly interesting and affecting, and this is where the book is at it's strongest.
Where it really suffers is when the author struggles to turn the fragmentary and elliptical observations into a general theory. She often seems to argue that we can take what she has gleaned from the beliefs of a couple of people as a framework for accurately reconstructing the cosmology and worldview of the Even people as a whole, which I think badly underestimates the role of individual difference. And, when Martin attempts to contrast the Even cosmology in an illuminating way with what she takes to be the standpoint of the European society she comes from, I found that her representation of the rationalist scientific worldview was essentially a caricature. This came most clearly into focus when she asserts that from the standpoint of the western worldview, one can only respond to climate change in one of two ways: with the belief that we are headed for total annihilation, or convinced that technology will save us.
This doesn't remotely resemble the standpoint of any actual climatologist, as even a brief survey of the relevant literature would make abundantly clear. There is no single statement in an IPCC summary report that is not multiply qualified in scope, probability, and confidence, and to dismiss the sophistication of people coming from this background is, I think, indicative of a kind of casual arrogance here that I find extremely alienating, and rather common in certain sectors of anthropology and sociology, as if, not having read Foucault or Bruno Latour, climatologists are not capable of making complex, dynamic, nuanced judgments of the kind that she or her Even interlocutors make.
There is a deep tension in the book that stems from her conflicting desires to create a general theory and to tell a highly-personal account, and in my opinion, she ends up doing neither in sufficient depth. The personal account mostly works, but it provides a weak foundation for the theory, and at times, it must be said, when Martin writes on the theoretical level, I was turned off. Having a strong background in philosophy, her theoretical musings often seemed amateurish to me, and I would advise her to read less Latour and more Kant or Hegel. Something a little less critical, and with a little more of its own substance.
I also felt a continual confusion in terms of what the book was fundamentally about. In the introduction, Martin tells a lengthy story that seemed to culminate in her deciding to write a comparative work contrasting indigenous perspectives on both sides of the Bering straight based on her field work, comparing the Gwich'in people of Alaska with the Even of Siberia. But she only develops this very slightly and soon drops it entirely, spending most of the book on a variety of unrelated topics. She seemed to not know herself what kind of book she was trying to write.
It seems pretty clear to me that the author is trying to blow the reader's mind, and I think there's a certain amount of hubris in that, at least in the way she went about it, and a certain mildly antagonistic quality toward the reader that I felt throughout. I didn't particularly come away feeling like she had that much respect for her reader, or much expectation that they had been on their own complex and rich journeys of discovery, or had their own complex answers to big questions.
Nach "An das Wilde glauben" war ich neugierig auf das nächste Buch von Nastassja Martin, das jetzt auf Deutsch erschienen ist.
Während das erste Buch eine autobiographische Erzählung über ein traumatisierendes Erlebnis ist, kommt in "Im Osten der Träume" ganz die Anthropologin durch. Wir besuchen gemeinsam mit Martin die Even, die in Kamtschatka leben und so gut es geht ihre alten Traditionen pflegen.
Dass dies früher unter den Russen bzw. den Amerikanern kaum möglich war, zeigen die Erzählungen der Personen. Dass das Leben aktuell nicht besser geworden ist, erfahren wir ebenso. Es sind nämlich immer diejenigen, die am wenigsten dafür verantwortlich sind, die Krisen wie die Klimaerwärmung am meisten zu spüren bekommen.
Wie sich so ein Leben in der tiefsten Wildnis gestaltet, erzählt uns Martin. Aber auch von den Legenden, der Gedankenwelt und allem, was anders ist, als wir es aus unseren bequemen Leben kennen. Ich war fasziniert, aber auch ergriffen und von tiefstem Respekt bewegt, den Even gegenüber.
Dazwischen schreibt Nastassja Martin immer wieder über Zusammenhänge und Schlussfolgerungen. Diese wissenschaftlichen Teile sind sehr fordernd und oft habe ich sie nur oberflächlich gelesen, da sich hier zeigt, dass es sich trotz allem um eine akademische Arbeit, in akademischer Sprache gehalten, handelt. Ich bin so frei zuzugeben, dass ich davon nicht sehr viel verstanden habe.
Das muss ich auch nicht. Die Seele dieses Werkes ist anderswo verortet. In der Wildnis, der wahren, greifbaren Wildnis, der reinen Natur. In den Even selbst, die in allem Lebenden eine Seele sehen.
A leste dos sonhos tem um fio condutor que vai se desvelando pelas narrativas e análises aparentemente esparsas: narrar as interrelações específicas dos povos even e de que forma essas relações particulares foram afetadas pelo processo de colonização, pela União Soviética e pela modernidade capitalista pós-União Soviética. Martin, com habilidade impecável, conduz o leitor a refletir a respeito do impacto da colonização da Sibéria, notadamente o “adestramento” cultural dos even mediante a criação de apresentações culturais submetidas a um processo civilizatório - em contraposição ao que ocorreu com os povos originários do Alasca, cuja colonização se deu, primeiro, para fins de exploração econômica da região, relegando a cultura dos povos a um misticismo secundário. Na sequência, Martin analisa a relação desses povos com os sonhos, com os elementos da natureza e o Ivki (ou princípio da animação), que está em todo lugar ao mesmo tempo. Não é possível deixar de comentar um problema para o qual a autora chama atenção no fim do livro: a extração mineral (de níquel) lentamente destrói o ambiente em que os even vivem (a floresta), contamina o rio (Itcha) e espalha resíduos tóxicos que ameaçam a vida humana. Ao tempo que o níquel extraído é usado como material antioxidante em diversos materiais da modernidade, prestando-se à criação do mito moderno de eternidade, o mundo dos vivos, dos povos originários, é ameaçado. Escancara-se o paradoxo: a construção do mito moderno de eternidade se dá às custas da deterioração do mundo dos vivos.
Il y a des livres qu'il faut lire impérativement, pour se dé-persuader de l'idée selon laquelle on connaît bien notre monde. On sait tous que d'autres civilisations existent mais il est dur d'imaginer à quel point elles sont différentes des nôtres et à quel point elles peuvent renverser nos convictions jusqu'à temps de les découvrir.
Nastassja Martin nous introduit aux Even de Sibérie, mais aussi aux Gwich'in d'Alaska ; elle force nos représentations à s'écrouler de l'intérieur et nous entraîne vers quelque chose d'autant plus fascinant ; la réalité.
C'est merveilleux de voir à quel point notre propre univers s'apparente à un monde pétri d'imagination, de cultures de courants de pensées aussi variés ; je lis un livre d'anthropologie, et alors qu'il me parle de peuples si "proches géographiquement" voire alors même qu'il me parle de "mon" propre peuple, il me faut relever la tête bien souvent pour me dire : ça, c'est ma réalité.
Enfin, ce livre permet de remettre en cause certaines absurdités plus ou moins cruelles de la vie. Pourquoi ne considère-t-on pas les animaux comme des entités à part entière ? Pourquoi les traitons-nous ainsi, bien que conscients qu'ils aient une âme ? Pourquoi le but du jeu d'une vie humaine est-il devenu aussi abstrait que "se faire de l'argent" ou "s'accoutumer à un État" ?
En somme, un livre pour rêver, s'évader, et se poser de merveilleuses questions.
Não sabia se deveria atribuir 2 ou 3 estrelas a esse livro, que não é ruim, embora eu não possa dizer que o tenha apreciado como um todo. O início é interessante, quase envolvente, assim como as partes em que encontramos as reflexões de interlocutores de Martin (sobretudo Daria), algumas considerações sobre a relação com os animais e até mesmo com os elementos. É também honesto ao indicar que se trata de um projeto etnográfico/antropológico. Mas os problemas também surgem pelo mesmo motivo: parece a adaptação de um projeto acadêmico, uma condensação de um modo de pensar antropológico (a virada ontológica, a antropologia simétrica de Latour) cujas expressões às vezes parecem estereotipadas, como "se devemos levar a sério... (o que dizem os even, os interlocutores, as ontologias animistas etc)". Pelo título, confesso que esperava uma reflexão mais detida sobre a relação dos evens com os sonhos; essa relação aparece, mas de maneira mais acadêmica e quase superficial. É um livro sem a força de Croire aux Fauves, mas para quem espera ler um pouco mais sobre os interlocutores de Martin, ainda é um caminho.
Segunda obra que leio de Nastassja e me encanto! Sua escrita envolve uma sensibilidade e um trabalho descritivo excelente! Desde "Escute as feras" se tornou uma das minhas antropólogas referência! O livro aborda tudo q pode atravessar um trabalho de campo. Faz um percurso desde o processo colonial ainda em curso à cosmologia animista para além do que a pesquisadora pretendeu estudar, já que essas coisas estavam implicadas na trama das ambiências. Dentro de um contexto cheio de incertezas por mudanças climáticas os even nos escancaram que as relações particulares com outros seres seja por meio dos sonhos, da palavra, da intenção são possíveis. E que no fim, levar o trabalho antropológico a sério devido o direito recebido por traduzir as formas de vida é defender que outras possibilidades de mundo existem e são possíveis.
"É preciso entender os encontros específicos, os mitos, os sonhos e as comunicações com os elementos como formas de dizer que o mundo poderia ser outro." p. 269
Nastssja Martin é esplendorosa no seu fazer antropológico, DÁ GOSTO, cheiro e textura! Reconhecida por seu trabalho em Escuta as Feras, a autora não decepciona em A leste dos sonhos, que se aproxima mais da teoria antropológica, trazendo questões presentes em campo. Não pude deixar de pensar no meu campo. Foi taão mágico lê-la depois de entregar a monografia, é como se eu e ela falássemos as mesmas coisas, mas em idiomas diferentes. Chegamos nas mesmas conclusões a partir de diferentes experiências. Vejo ela questionar coisas que questionei em campo, vejo a ideia de conservação como essa aliada que é inimiga, que parece atender apenas a alguns. Vejo que a experiência ultrapassa oceanos, continentes... Vejo que a antropologia é um bom caminho.
O livro não tem o mesmo tom narrativo e autobiográfico do “Escute as feras”, coisa que pode surpreender um leitor desatento (como eu). Trata-se de um caderno de campo, com um movimento de tempo pendular, grandes reflexões teóricas e profundas análises sobre o contexto geopolítico da região e sua relação com a crise climática. É um baita livro! Só exige mais vontade de uma reflexão teórica do que eu dispunha no momento.