Em Um rio um pássaro o leitor encontrará Ailton Krenak em dois tempos. O primeiro texto, com o título do livro, emerge dos anos 90, tempo de suas longas jornadas por aldeias, rios e pela floresta. São reflexões sobre a vida, ao mesmo tempo que evocama memória da formação do movimento indígena no Brasil. Os registros de suas falas foram feitos pelo fotógrafo japonês Hiromi Nagakura e haviam sido publicados somente no Japão. Uma cachoeira é o título do segundo texto, também inédito. Nele, Ailton em 2023, aprofunda o tema do abismo cognitivo causado pela separação da cultura e da natureza, além de discorrer sobre a neutralidade como subterfúgio aético diante do colapso ambiental.
Ailton Krenak é escritor, roteirista, porta-voz e pensador indígena. Integrante da comunidade dos Krenak, aos dezessete anos migrou com seus parentes para o estado do Paraná. Posteriormente, tornou-se produtor gráfico e jornalista. Dedica-se ao movimento indígena desde muito jovem. Graças a esforços coletivos e do próprio escritor, o número de indivíduos de sua comunidade voltou a subir, depois de sofrer grande queda em números totais até os anos 1980, e fechou o século 20 com 150 indivíduos. É professor doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Participou da antologia A outra margem do ocidente (Minc-Funarte/ Companhia das Letras, 1999), e publicou a entrevista Ailton Krenak (Azougue, 2015) e O lugar onde a Terra descansa (ECO-Rio, 2000).
Ler Ailton Krenak é sempre uma experiência profunda. São tantas reflexões que é difícil não escrever como uma forma de desabafo, quase um fluxo de consciência. Mas aqui vão os pontos principais. Até 2023, essa série de falas da década de 1990 só havia sido publicada no Japão, o que diz muito sobre a desvalorização brasileira sobre tudo relacionado aos temas ambientais mais urgentes que o ocidente insiste em negar/negligenciar - desde a preservação da nossa memória, natureza e produção de conhecimento indígena até a proteção e garantia de direitos e da própria sobrevivência dos povos originários. Os textos, apesar de serem transcrições de falas que ocorreram há aproximadamente 3 décadas, seguem atualíssimos. Tratam não somente da perda de confiança e de esperança na política brasileira após a Constituinte de 1987, do desmantelamento da UNI, dos assassinatos de ambientalistas e da impunidade em face do genocídio indígena e da destruição dos nossos biomas, mas também da necessidade de uma mudança de cosmovisão ou, no mínimo, de epistemologia para encarar os processos mais urgentes da emergência climática. O último capítulo é o único texto escrito recentemente e, nele, aparecem de forma mais pragmática e madura as reflexões sobre o discurso da neutralidade como produtor de privilégios e os conceitos de abismo cognitivo e vida como dança cósmica. O livro é lindo, carregado de sabedoria ancestral, delicado, mas revolucionário e potente, necessário hoje e sempre.
Li quase sem respirar, tinha visto recentemente a exposição dos registros dessas viagens do Krenak com o Nagakura nos anos 90 e ler o livro me trouxe de volta as imagens e as sensações desse encontro. Vinha postergando a leitura por medo da bronca que tomei do Krenak no dia que ele autografou esse livro pra mim e pras minhas filhas, ofereceu uma mixirica pra minha mais nova e me olhou bem sério “já começou a ler?” respondi “ainda não” e ele mais sério ainda “pois leia” que bom que li, que privilégio viver no mesmo tempo que ele.
Krenak sempre traz os valores do que realmente importa nessa vida. E fica cada vez mais atual nos tempos sombrios de hoje no qual queremos apenas nos "desenvolver" como economia e política enquanto Krenak propõe nos envolver com a natureza e viver em sociedade.