Durant la dècada de 1930 ─la dècada de la misèria i de la prosa─, en apartaments foscos de diverses ciutats franceses, Marina Tsvetàieva va escriure les peces que formen part d'aquest volum: «El diable», «La mare i la música» i «La casa del Vell Pimen». Tres relats que fan sortir a la llum els llocs amagats de la infantesa de Tsvetàieva. El seu món, dominat per les tres emes (la mort, la mare i els mots), és un món profundament sensorial i desconegut, del qual acabarà brollant tota la seva poesia. Prohibida a la Unió Soviètica fins a vint anys després de la seva mort, Marina Tsvetàieva (1892-1941) és una de les grans poetes de la història de la literatura russa. Va escriure poesia, teatre i prosa i va malviure tant a l'exili com en un Estat soviètic que la va aïllar i la va maltractar fins a fer-la desaparèixer. En aquest volum, l'autora parla amb vivor d'allò que és mort, d'allò que és enterrat en els records d'una memòria amb filtre infantil. Els relats que aquí publiquem formen part, sens dubte, dels més fascinants i personals de la literatura russa del segle xx.
Марина Цветаева Marina Ivanovna Tsvetaeva was born in Moscow. Her father, Ivan Tsvetaev, was a professor of art history and the founder of the Museum of Fine Arts. Her mother Mariya, née Meyn, was a talented concert pianist. The family travelled a great deal and Tsvetaeva attended schools in Switzerland, Germany, and at the Sorbonne, Paris. Tsvetaeva started to write verse in her early childhood. She made her debut as a poet at the age of 18 with the collection Evening Album, a tribute to her childhood.
In 1912 Tsvetaeva married Sergei Efron, they had two daughters and one son. Magic Lantern showed her technical mastery and was followed in 1913 by a selection of poems from her first collections. Tsvetaeva's affair with the poet and opera librettist Sofiia Parnok inspired her cycle of poems called Girlfriend. Parnok's career stopped in the late 1920s when she was no longer allowed to publish. The poems composed between 1917 and 1921 appeared in 1957 under the title The Demesne of the Swans. Inspired by her relationship with Konstantin Rodzevich, an ex-Red Army officer she wrote Poem of the Mountain and Poem of the End.
After 1917 Revolution Tsvetaeva was trapped in Moscow for five years. During the famine one of her own daughters died of starvation. Tsvetaeva's poetry reveals her growing interest in folk song and the techniques of the major symbolist and poets, such as Aleksander Blok and Anna Akhmatova. In 1922 Tsvetaeva emigrated with her family to Berlin, where she rejoined her husband, and then to Prague. This was a highly productive period in her life - she published five collections of verse and a number of narrative poems, plays, and essays.
During her years in Paris Tsvetaeva wrote two parts of the planned dramatic trilogy. The last collection published during her lifetime, After Russia, appeared in 1928. Its print, 100 numbered copies, were sold by special subscription. In Paris the family lived in poverty, the income came almost entirely from Tsvetaeva's writings. When her husband started to work for the Soviet security service, the Russian community of Paris turned against Tsvetaeva. Her limited publishing ways for poetry were blocked and she turned to prose. In 1937 appeared MOY PUSHKIN, one of Tsvetaeva's best prose works. To earn extra income, she also produced short stories, memoirs and critical articles.
In exile Tsvetaeva felt more and more isolated. Friendless and almost destitute she returned to the Soviet Union in 1938, where her son and husband already lived. Next year her husband was executed and her daughter was sent to a labor camp. Tsvetaeva was officially ostracized and unable to publish. After the USSR was invaded by German Army in 1941, Tsvetaeva was evacuated to the small provincial town of Elabuga with her son. In despair, she hanged herself ten days later on August 31, 1941.
Por que vivia o Diabo nos aposentos de Valeria? Então não pensava nisso (e Valéria também nunca o soube). Era algo natural como eu viver no aposento das crianças, o papá no escritório, a avó no retrato, a mamã no tamborete do piano, Valéria no Instituto Catarina II, e o Diabo nos aposentos de Valéria. Então era um facto. Agora sei-o: o Diabo vivia nos aposentos de Valéria, porque nos aposentos de Valéria, transformada em armário para livros estava a árvore da ciência do bem e do mal, cujos frutos, As donzelas de Lujmanova, Em volta do mundo no Milão, de Staniukovich, Catacumbas, de Evgueni Tour, A família Bor-Ramenski e anos inteiros da revista Rodnik (O Manancial), devorava com grande avidez e pressa, com sentimentos de culpa, mas sem poder conter-me, olhando sempre para a porta, como outros para Deus, mas sem atraiçoar nunca a minha serpente.
Tsvietaieva (vou manter a grafia desta edição), contrariamente a outros artistas - com uma grande exceção protagonizada pelos auto-intitulados poetas malditos - não associa o seu dom ou a sua paixão a deus, mas sim ao diabo. Esse diabo é presença (física e espiritual) frequente nas suas recordações (leia-se no seu mito) e ajuda a escrever a sua vida a partir desse ponto.
Com o Diabo eu tinha uma linha própria, inata, uma comunicação directa. Um dos primeiros secretos horrores e horrorosos segredos da minha infância (a minha primeira infância) era: «Deus-Diabo!» Deus com o tácito, aterrador e invariável complemento: Diabo.
Parte autobiografia ficcionada em contos (contos com muitas reticências, e apenas para dar conta do tamanhos dos textos), parte ficção autobiográfica, O Diabo, pequena coleção de seis textos sobre a vida de Tsvietaieva, é uma viagem assombrosa pela infância real e ficcionada da poetisa (talvez nem a 50% seja possível aferir o que é, de facto, autobiográfico daquilo que é fantasia) que, profundamente mística, encontra desde cedo, nas palavras, a desconstrução dos símbolos que a irão perseguir e maravilhar:
Naftalina, traça, dote, patchuli - nenhum sentido, a mais pura magia.
Esse amor às palavras é o fio condutor destes textos, juntamente com as influências espirituais e artísticas que se lhe impunham por proximidade familiar ou simples rebeldia simbolista. A sua religião é a recusa do rito, da praxe, e a aceitação mais profunda de uma espiritualidade onde o temor não se coaduna com a contemplação:
Por causa dos sacerdotes - a montanha prateada das costas do sacerdote, que é montanha apenas para dissimular - também Deus me parecia um terrível sacerdote, mas ainda mais terrível que o monte prateado: Ararat. E os três carneiros da lengalenga infantil: «No Ararat três carneiros gritavam...» claro, gritavam de medo, por terem ficado sozinhos com Deus. Deus era para mim - o medo. Nada, nada além do mais mortal aborrecimento, frio como o gelo e branco como a neve, durante toda a minha primeira infância e na igreja não senti Nada além de um melancólico desejo: quando é que isto acabará? e a consciência desesperançada: nunca. Era pior que os concertos sinfónicos na Sala Grande do Conservatório.
Para Tsvietaieva, criada num cenário profundamente ortodoxo - austero - e adulto, o diabo representa a transgressão, mas também o reencontro, a reaproximação, a redescoberta e a unidade máxima do ser consigo, o consolo e a libertação:
Deus era - alheio, o Diabo- próprio. Deus era - o frio, o Diabo - o calor. E nenhum dos dois era bom. E nenhum deles mau. Mas eu amava um deles e ao outro não. Conhecia um, o outro - não. Um amava-me e conhecia-me e o outro - não. A um deles impunham-mo, arrastando-me para a igreja, fazendo-me permanecer de pé durante o serviço, com os candelabros de cristal diante dos ícones, com os acrónicos e faraós que de vido ao sono se duplicavam: separavam-se e encontravam-se de novo diante dos meus olhos e com toda a incompreensibilidade do idioma eslavo. A um - chegava por si e ninguém o sabia.
Esse diabo, como estas narrativas, forjam o mito Tsvietaieva, e como tudo é mito, como não existe o não-mito, o alheio-ao mito, o fora-do-mito, como o mito se antecipou e de uma vez para sempre cinzelou tudo, a poetisa jamais se irá descolar da força destas imagens que vai deliberadamente criando. Embora não cheguem para explicar tudo, a morte, a arte, a igreja, a família etc são partes que formam o todo da sua vida e obra, e são, nestes textos, as partes maiores desse todo. Toda ela mística, mulher e obra, apresentam-se de forma muito própria, às vezes hermética, obscura e pouco legível - mas essa escrita roça já as margens da poesia e assim deve ser entendida e sentida mais do que esmiuçada. Tsvietaieva, um pouco como Mallarmé - para voltar aos malditos - também me parece o tipo de poeta que é intraduzível, mesmo na sua língua.
Se as mães dissessem com maior frequência coisas incompreensíveis aos filhos, esses filhos, ao crescer, não apenas compreenderiam mais, mas actuariam com maior segurança. Não é necessário explicar o que quer que seja a uma criança é necessário enfeitiçá-la. E quanto mais misteriosas forem as palavras do feitiço, mais profundamente se enraizarão na criança, mais indiscutivelmente actuarão nela: «Pai nosso, que estás nos céus...»
O Conto de Minha Mãe ⭐⭐⭐⭐ O Diabo ⭐⭐⭐⭐⭐ A Torre Coberta de Hera ⭐⭐⭐⭐⭐ As Flagelantes ⭐⭐⭐⭐⭐ A Casa do Velho Pimen ⭐⭐⭐⭐ A Minha Mãe e a Música ⭐⭐⭐⭐
As coisas que mais amo no mundo: a música, a natureza, a poesia e a solidão. (...) A vida é uma estação, em breve partirei: para onde - é coisa que não penso dizer.
Véronique Lossky écrit une postface très remarquable. Je la cite donc: «[...] De nombreuses ellipses et sous-entendus de fins de phrases, des bribes d’expressions toutes faites rendent aussi la lecture laborieuse et, comme dans les vers, apparaît parfois l’hermétisme ou simplement l’obscurité, par excès de concision. Dans les souvenirs d’enfance de Marina Tsvétaeva, il y a un effort conscient pour recréer une vision enfantine des choses. Mais le point de vue de l’enfant est brouilllé par l’interprétation de l’adulte, il en résulte un mélange subtil constant qui oblige sans cesse à réfléchir, pour faire la part de l’un et de l’autre. [...]» La complexité de Tsvétaeva (ou son infortune?) dans toute sa splendeur.
Costumo revisitar o livro, relendo algumas passagens e o folheando quando termino mas demorei pra fazer isso com O Diabo porque fui muito impactada pela leitura. Creio que se eu tivesse uma bagagem religiosa mais pesada, teria criado uma conexão maior com o livro, embora esse livro já tenha um grande significado emocional pra mim (que não está atrelado à religião). Reli as últimas páginas umas cinco vezes por ter gostado tanto dessa parte. De certo modo, foi até bom ter demorado a escrever a resenha porque só hoje assisti um filme que chama Belladonna of Sadness e tem muitos paralelos entre as duas obras. No filme, a personagem principal faz um pacto gradual com o Diabo e a relação que eles têm e as coisas que ele fala me lembraram demais o que Marina escreveu no livro. Para Marina, o Diabo acompanha os excluídos, sua presença é natural (e não imposta), quem a conhece é o Diabo e não Deus. Nenhum dos dois é bom e, no entanto, nenhum é mau. No filme, é o Diabo que sempre esteve ao lado da Belladonna, é ele quem a faz rir depois de tanto tempo chorando, a presença dele também é natural, não existe culpa, ele a acolhe, ainda que ele não seja bom. Quem lamenta a morte de um rapaz que foi à guerra e morreu é o Diabo.
Há música nestes textos e a tal magia, sim. Fica justificada a classificação favorável. Depois há perguntas que me atravessam sempre que, como dessa vez há alguns anos, numa feira do livro quando dedilhava naqueles gavetões repetitivos dos saldos na Relógio de Água, resolvo trazer comigo uma obra em prosa de alguém mais conhecido pela poesia que escreve, cuja, manco que sou, nunca lerei. O que pensam os poetas da ficção que escrevem? Julgo sempre que só o fazem in extremis, com um retorcer de nojo nos lábios puros - aqui a hipótese parece tão mais literal quanto a biografia conta que os contos foram escritos em tempo de penúria, para ganhar o pão. Outra questão: como sobrevivem os ficcionistas sem imaginação? Usando a vida que têm, é a resposta óbvia, e certa. Mas para que isso funcione (como claramente funciona aqui) é preciso que a vida tenha sido retorcida (como é o caso) ou basta que a cabeça dê as voltas necessárias ao banal (como talvez tivesse bastado a esta poeta, não sabemos)?
La infancia rememorada puede ser un territorio de extremos: o se la equipara con la felicidad irrecuperable –adultos Peter Pan que darían lo que fuera por volver a ser críos–, o se la acusa de ser la época donde se crearon todos los traumas y fallos que nos llevaron a ser adultos insatisfechos. Este libro, que contiene seis relatos de la infancia de Tsvietáieva, tiene el gran mérito de no caer en ninguna de esas exageraciones. Quizá porque está escrito desde la óptica del presente permanente en que viven los chiquillos: no narra Marina adulta, sino Marina niña. Y lo hace con asombro e inocencia, pero también con esa maldad y agudeza infantil por la que no le damos crédito suficiente a los niños. Así, asistimos al sufrimiento tierno de una niña espabilada que desde muy temprano supo que su vocación era la poesía, pero cuya madre quería hacerla pianista a fuerza; que le escribía versos al Diablo, quien fue su primer amor; que siente una incomprensible fascinación ante las primeras veces que experimenta la religión, la muerte, el amor y la admiración. El mejor relato es “La casa del viejo Pimen”, donde Marina reflexiona sobre su familia y, especialmente, sobre las mujeres jóvenes que sacrifican su ardor y belleza por la estabilidad del matrimonio, y que después, inconscientemente, se desquitarán con sus hijas, a quienes no dejarán ser felices porque ellas no pudieron serlo. . . . “Y es así como surge subconscientemente la venganza contra las hijas por la propia vida desperdiciada. Alexandra devoraba la infancia de sus hijas. No, no la devoraba. No se alimentaba de sus jugos porque entonces esos jugos le habrían sido de provecho, lo que no sucedía. Ella las apretaba con su mano de hierro, no los dejaba moverse, para que sus retoños femeninos tampoco fueran felices. Es un envejecimiento distinto el que se alimenta junto a la juventud de las hijas, éste pesaba sobre ellas como una losa sepulcral. Yo me he asfixiado, entonces tú tampoco debes respirar”.
O relato de Marina Tsvetaieva sobre sua relação com o Diabo durante a primeira infância foi uma das leituras mais surpreendentes que eu fiz neste ano. Polissêmico, cheio de simbolismos, o Diabo de Tsvetaieva mostra o princípio da sua vocação poética, que, ainda criança, desenvolveu em seu contato com ele: o pendor pelo mistério, pela solidão, pelo desejo, pelo conhecimento, pelo etéreo, pelo calor; várias faces de uma menina que, rejeitada, cria o seu próprio mundo, excluída da normalidade.
Fico pensando se o retorno de Tsvetaieva ao Diabo de sua infância não tem a ver com a sua desilusão em face dos caminhos que a União Soviética tomava em 1935. Exaltando a figura cinzenta do seu companheiro de solidão, ela escreve:
"Tu não és beijado na cruz com um juramento forçado de testemunho falso. Contigo, na imagem do crucifixo, não sela a boca ao assassinato do Estado seu servo e cúmplice - o sacerdote. Tu, nesses lugares, não és nomeado.
Nem nas igrejas, nem nos tribunais, nem nas escolas, nem nas cavernas, nem nas prisões, lá onde está o direito - tu não estás. Onde está a multidão - tu não estás.
Tu não estás também nas assim chamadas 'missas negras', esses comícios privilegiados onde as pessoas celebram uma idiotia - amar-te na multidão, justamente a ti, cuja primeira e última honra é a solidão.
Se forem procurar-te, só pode ser nas celas solitárias da Revolta e nos sótãos da Poesia.
De ti, que és maligno, a sociedade não abusou" (p. 133, tradução brasileira de Aurora F. Bernadini).
Vários trechos da obra me chamaram atenção, os quais guardarei eternamente em minha memória. Especialmente o modo como a escritora analisa, sob seu ponto de vista de criança, cada aspecto de sua simpatia pelo Diabo.
Esse livro, enfim, apenas aumentou o fascínio que eu já nutria pela obra de Marina Tsvetaieva. Que venham outros títulos!
En conjunt són uns relats semi biogràfics en els quals ens revela els més profunds secrets de la seva infantesa. Els seus traumes, les relacions amb la seva mare i amb els seus germanàstres, el seu primer amor... Tsvetáeva escriu amb un estil magnífic i la traducció de Cabal Guarro et permet apreciar-ho.
1. El Diable: (5/5). Una narració sorprenent sobre els seus secrets i dubtes infantils. Explica com se li apareixia el Diable al llit de la seva germana Valéria i com tenia dubtes respecte Deu i el Diable.
2. Mare i música: (4.5/5) Retracta la complexa relació que va tenir de petita amb la seva mare. Com aquesta la va fer patir a base d'obligar-la a tocar el piano quatre hores diaries amb només 4 anys. Tracta també dels sentiments de dolor quan la mare l'abandona.
3. La casa del Vell Piment: (4/5) Més difícil de seguir per mi. Retracta la seva relació amb el seu avi, que no era el seu avi ben bé, sinó l'avi dels fills que la seva mare va tenir amb un matrimoni interior. També retracta la seva relació amb aquests germanastres que té. Parla del seu primer amor i del patiment per les pèrdues. Un relat revelador i psicològic.
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Sólo por el relato El Diablo estoy agradecido de haberla leído. Es un texto conmovedor, tierno, filoso, cruel e inocente. Sus últimas páginas, sin saberlo, las andaba buscando hace años en mi vida.
Con el resto de relatos, no pude conectarme. De todas formas, soy yo al que le cuesta más y más conectarme con cualquier cosa.
Libro chiquito pero intenso (he manejado la edición de Acantilado). La destreza con la que Marina Tsvetaeva consigue imprimirle sonoridad y ritmo a este cuento.
Un compilado de textos hondamente conmovedores. Desde estampas infantiles que juegan a confundir al lector porque constantemente nos preguntamos si será cierto lo que relata Tsvetáieva, hasta reflexiones que anotó en una libreta y hoy llegan a nuestras manos para que las resignifiquemos a la luz de su final.