Que coisa horrível!
A pior coisa que li em muito, muito tempo - e olha que nesse tempo eu cheguei a ler até Olavão. A sensação durante a leitura era de estar enfiando agulha embaixo das unhas cada vez mais fundo, a cada página era uma tortura a mais. Eu só continuei para receber o selo estoicista literário por aguentar (ok, ok - talvez não ganhe do Olavão, porque afinal, ele eu não consegui terminar)...
A autora, ao que parece, cunho o neologismo "aporofobia", definindo como uma forma específica de xenofobia não ao estrangeiro, forasteiro ou estanho, mas especialmente ao pobre que não contribui no processo econômico do local. O tema é extremamente relevante, e como ando em uma vibe de entender o fenômeno do fascismo do sec XXI, quando a sugestão apareceu na amazon e li a sinopse eu achei interessante, sobretudo pelo complemento do título "um desafio para a democracia", achei que seria uma análise interessante. A dinâmica é relevante, mas a abordagem da autora é um desastre...
A escrita se parece em muito com a do Olavão, não no estilo literário, mas na análise superficial de qualquer conceito etéreo e antigo, e trazer para a atualidade a questão e tirando conclusões esdrúxulas da bunda e apresentar como um 'achado' ou solução para o ambiente atual - sem sequer citar uma linha sobre quilos, toneladas, milhões de toneladas de literatura específica e análise contemporânea do fenômeno, que vem sendo alvo de debate na ciência política e na economia nos últimos 50 anos.
Aliás, esse texto me fez entender porque o Olavo se autointitulava filósofo: é o mesmo tipo de construção de argumento totalmente dissociado da realidade, criando mundos paralelos, usado por essa profa da Universidade de Valência - se estudasse lá, fugiria de aulas de profa assim, assim como fujo de 'aulas' do Olavão...
Começa todos as assuntos tal qual o Cortella falando (aporofobia, que vem do grego "aporos" que significa pobre...), mas não sucede a explicação ou a aproximação para o problema... Não, apenas entra na análise kantiana da metafísica dos costumes, em passagens bíblicas e nas cartas de Paulo aos hebreus, para desfilar interpretação para lá de questionáveis sobre a 'ética da recepção' e coisas do tipo.
Nos aspectos em que se mete a falar de economia (que é o que posso avaliar razoavelmente, porque a ciência política embora tenha lido alguma coisa, não tenho suficiente domínio a ponto de fazer qualquer consideração mais detalhada), abre as comportas de bobagens, de senso comum e de análises totalmente enviesadas e dissociadas da realidade. Vê-se que sequer abriu um livro de economia 101 para compreender as bases, mas sai fazendo classificações e ponderações sobre 'decisões econômicas racionais' de folhetim. A leitura dos dois ensaios do Adam Smith, que espantosamente não aponta como vilão, do sec XXIII que cita (alem do 'riqueza das nações', o 'teoria dos sentimentos morais), não foi suficiente para minimamente embasar conceitos básicos - desfila a série de padrões de bobagens sobre 'maximização de lucros', 'financeiristização' da economia e toda a sorte de bobagens do tipo, cujo suporte tira da bunda, para tentar criar um argumento. E mesmo assim o argumento é um banquinho de 2 pernas - não para em pé...
Enfim, é o tipo de leitura que, apesar de muitas citações, são forçações de barra para tentar emular algum tipo de abordagem científica, mas que não passa do desfile de tentativas de encapsular bobagens em abordagens sofistas (a escola filosófica, para combinar com a abordagem da autora) e discurso erístico (aquele que Schopenhauer abordou para explicar como vencer debates sem ter razão).
É a típica demonstração do motivo pelo qual muitos cientistas olham com desdém as ciências humanas, argumento que não são ciência: não há o mínimo de análise, confronto ou contraponto de ideias, apenas martelando uma visão de mundo (etérea, totalmente inverossímil) para determinar salvações e políticas públicas x ou y.
Em nada é diferente (aliás, é bem similar) a sermões (e ações) de padres e pastores...
Pelo título do livro, achei que pudesse ser um 5, quando fui ler o sumário e introdução, achei interessante a proposta, poderia ser 4. Ao ler efetivamente os capítulos iniciais, ficava esperando pelo que seria a evolução para me decidir entre 2 ou 3 - afinal, havia alguns insight interessantes sobre autores de filosofia do direito, embora utilizados bem tortamente no argumento.
Mas quando chegou no capítulo 4 e ela assassina a teoria da evolução para tentar encampar um argumento de que o cérebro é aporófobo, eu vi que seria dificil alguma coisa. No cap 6 chega a falar de transhumanismo e de intervenções genômicas para tornar o ser humano mais ético, como a criar um mostro do frankstein para "biomelhoramento moral" - e não, a alusão do dr Frankestein não foi minha, ela própria cita a criação de Mary Shelley como o fundamento.
A estrutura:
PREFÁCIO - O REMÉDIO PARA O ÓDIO CONTRA OS POBRES: escrito por Jessé de Souza, é a parte mais relevante do livro.
INTRODUÇÃO: é um artigo de opinião de jornal, que talvez fosse o que o livro devesse ter sido (se tivesse lido apenas as 6 ou 7 páginas da introdução, não teria me frustrado tanto).
CAP 1 - UMA CHAGA SEM NOME: aborda a criação da palavra aporofobia, que foi cunhada pela autora nos anos 90 e tenta evidenciar a importância de as coisas terem nome, utilizando a analogia da aldeia Macondo, do 'cem anos de solidão' do gabriel garcia marques (provavelmente a melhor citação do texto).
1.1 Da xenofobia à aporofobia / 1.2 História de um termo.
CAP 2 - OS CRIMES DE ÓDIO AO POBRE: trata da manifestação do discurso e do crime de ódio na sociedade, de forma superficial, recorrendo ao argumento de poder (embora nem chegue a citar isso no texto) e usa uma fábula para embasar a imposição do discurso ao pobre.
2.1 A chave do ódio: o que despraza ou o desprezado / 2.2 Crimes de ódio, discurso de ódio: duas patologias sociais / 2.3 A fábula do lobo e do cordeiro / 2.4 Estado e sociedade civil, uma cooperação necessária / 2.5 O pobre é, em cada caso, o que não é rentável.
CAP 3 - O DISCURSO DE ÓDIO: tenta fazer uma análise contrapondo o discurso de ódio à liberdade de expressão, em um debate etéreo, mas até aqui que poderia ter alguma conexão com a forma como o direito iria tratar o aspecto da aporofobia.
3.1 Um debate inevitável / 3.2 Liberdade de expressão ou direito à autoestima? / 3.3 A construção de uma democracia radical / 3.4 Miséria do discurso de ódio / 3.5 A liberdade é construída a partir do respeito ativo.
CAP 4 - NOSSO CÉREBRO É APORÓFOBO: faz uma análise extremamente enviesada da teoria darwinina (Dawkins e Hamilton ela destrói por completo) para tentar argumentar que a evolução da sociedade faz com que biologicamente a raça humana seja aporofóbica, simplesmente pelo "insight" de que os humanos são grupos sociais (e inventando montes de 'análises' que nunca passariam pelo crivo de alguém relacionado à teoria evolutiva).
4.1 Temos um sonho / 4.2 Um abismo entre declarações e realizações / 4.3 Três versões do mal radical / 4.4 As neurociências entram em ação / 4.5 O mito do cocheiro / 4.6 Somos biologicamente xenófobos / 4.7 Breve história do cérebro xenófobo / 4.8 Aporofobia: os excluídos.
CAP 5 - CONSCIÊNCIA E REPUTAÇÃO: contrapõe os aspectos comportamentais do ser humano diferenciando a consciência e a pressão social exercida pela reputação, que embora sem analisar toda a literatura sobre behaviorismo (se concentra basicamente em análises do sec XVII e XVIII), tem algum fundamento, mas se não fosse encheção de linguiça, não teria mais do que 2 ou 3 páginas.
5.1 A necssidade de educar a consciência / 5.2 O anel de Giges / 5.3 A origem biológica da consciência moral / 5.4 O sentimento de vergonha e a agressão moralista / 5.5 O jardim do Éden natural / 5.6 O que diz a voz da consciência? / 5.7 A força da reputação / 5.8 Educar para a autonomia para a compaixão.
CAP 6 - BIOMELHORAMENTO MORAL: atinge o ápice do absurdo, analisando transhumanismo e intervenções genéticas para programar melhorias humanas para a aceitação e não competição, porque é possível identificar o gene da competição. Discute a validade e ética relacionada a esse tipo de tratamento ou "melhoria" com uso de hormônios ou genéticas (Anthony Burgess e Alex DeLarge mandam lembranças).
6.1 O problema da motivação moral / 6.2 O novo Frankenstein / 6.3 Transhumanistas e bioconservadores / 6.4 Biomelhoramento moral sem dano a terceiros / 6.5 Um imperativo ético / 6.6 É realmente um caminho promissor?
CAP 7 - ERRADICAR A POBREZA, REDUZIR A DESIGUALDADE: depois do ápice da maluquice do capítulo anterior, desfilar montes de bobagens sem qualquer conexão com a realidade e "análises" econômicas completamente dissociadas de qualquer realidade possível, fica até parecendo "normal". Mas realmente, filósofos falando de economia, dessa forma, é de uma alienação impossível de definir. O lugar-comum de falar bobagens poderia ser evitado com um mínimo a leitura de farto material para não-economistas (mas com a leitura de Darwin mostrou no cap anterior, talvez fosse ainda pior)...
7.1 O pobre na sociedade de troca / 7.2 É um dever de justiça erradicar a pobreza econômica? / 7.3 A pobreza é falta de liberdade / 7.4 A pobreza é evitável / 7.5 Não apenas proteger a socieade, mas, sobretudo, empoderar as pessoas / 7.6 Esmolas ou justiça? / 7.7 O direito a uma vida em liberdade / 7.8 Reduzir a desigualdade proposta para o século XX.
CAP 8 - HOSPITALIDADE COSMOPOLITA: usa Kant e a análise do sec XVIII (compara as visões diferentes entre 1780 e 1795) e a moral religiosa da idade das trevas e da peregrinação cristã da idade média ou dos cânones do antigo testamento como fundamento para uma ética de hospitalidade. A única análise atual que faz, não é da análise dos aspectos de políticas de integração, imigração moderna ou qualquer coisa, mas o conceito de hospitalidade no código de ética do turismo das 'ciências da hospitalidade'. É o fim do sofrimento (o livro acaba, sem qualquer análise com o objeto central e seu título).
8.1 A crise do asilo e refúgio / 8.2 Um sinal de civilização / 8.3 Uma virtude da convivência / 8.4 A hospitalidade como direito e como dever / 8.5 Acolhimento: uma exigência ética incondicionada / 8.6 O urgente e o importante / 8.7 Hospitalidade cosmopolita: justiça e compaixão.
Obviamente sempre se aprende algo com qualquer coisa que se leia, ainda que nesse caso a maior parte esteve ligado ao charlatanismo de alguém inventando (e empacotando com um sumário mentiroso) e a uma ou outra referência interessante, sobretudo de filosofia do direito. Mas essa leitura eu tive que encarar como imposto por um dia ter aprendido a ler ou por ainda ter olhos que permitam ler...
Em resumo: FOI UMA MERDA...