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Foi então que ela compreendeu que a sua salvação se tinha ficado a dever aos esforços e receios de muitas pessoas. Meu Deus, pensava ela, e eu que pensava que era uma mulher sozinha e sem amor. Enganei-me. Não estou sozinha. Aqui ninguém está sozinho.
É precisamente esta a mensagem da obra que Andrzej Sczcypiorski escreveu nos anos 80 sobre a sua experiência na Polónia invadida pelos alemães, mais precisamente por altura da sublevação do gueto de Varsóvia, em 1944, que o atirou para um campo de concentração. Ainda que na restante Europa tenham optado pelas respectivas variantes do título mais sonante que é “A Bela Senhora Seidenman”, o original polaco limita-se a uma singela palavra “Começo”, porque Irma Seidenman não é a protagonista desta obra, que é antes um conjunto de histórias, cada uma centrada numa figura, em que as personagens estão interligadas entre si de formas que vamos descobrindo progressivamente e, por vezes, os seus caminhos cruzam-se, geralmente para salvar algum membro da comunidade judaica.
Costuma dizer-se que é preciso uma aldeia para criar uma criança, e aqui é preciso um conjunto de pessoas que aparentemente não têm nada em comum, nem religião, nem estatuto social, nem orientação moral, para salvar uma vida, tanto a da Sra. Seidenman que foi parar aos calabouços da Gestapo por uma denúncia…
Subitamente pensou que a vida era só passado. Não havia vida senão na memória. O futuro não existia, nem por detrás das grades nem lá fora, na rua. (…) A vida é aquilo que se realizou no passado, aquilo que lembramos, o que aconteceu e teve continuidade, o que vai permanecer lembrança.
…como a da pequena Joasia Fichtelbaum, tirada à socapa do gueto pelo contrabandista Wiktor Suchowiak…
É óbvio que Wiktor Suchowiak não era um homem honrado. Solidão e individualismo só por si ainda não eram suficientes para construir a dignidade humana, alguma coisa faltava. Mas ele era, sem dúvida, um homem de princípios que se entregava totalmente à profissão. (…) Amava o dinheiro, as mulheres, os carrosséis, a vodka, as criancinhas e o pôr do sol.
…como a do jovem Wladzio Gruszka, obrigado a adoptar este nome pela Irmã Weronika, religiosa decidida a salvar tantas crianças judias quanto possível, albergando-as no seu orfanato e convertendo-as ao catolicismo.
Por essa razão não podia conformar-se com a fé intolerante que Wladyslaw Gruszecki trazia em si. Ele era um lutador de Cristo e a sua arma era o sarcasmo, coisa que a Irmã Weronika não aprovava.
- Um pouco mais de amor, Wladzio- dizia ela com voz fraca de pessoa idosa quando ele a ia visitar. (…) Os seus olhos de judeu, escuros, chispavam num brilho frio e desagradável mal se punha a falar dos judeus.
Apesar das atrocidades e horrores narrados tipicamente nos relatos sobre a Segunda Guerra Mundial, este livro apresenta também o lado humano dos intervenientes que por decência, altruísmo, piedade cristã, amizade e até mesmo por dinheiro, acabam por formar uma rede que conduz à salvação de alguém, provando que, de facto, nenhum deles está sozinho.
Será possível que já nessa altura tenha tido a impressão de que o que estava a acontecer era o início de algo e não o fim? Será possível que no momento em que a silhueta de Henryk se desvaneceu perante os seus olhos tenha percebido que se iniciava um novo capítulo e que perduraria interminavelmente ao longo da sua vida? Mais tarde convenceu-se disso. Precisamente naquele dia, pensava ele muitas vezes mais tarde, percebi que tinha começado o tempo das separações, das despedidas e dos medos eternos.
E quando uma das personagens é salva ou não, é o novo começo de uma vida que Andrzej Sczcypiorski nos permite também vislumbrar dali a muitos anos, o que torna esta leitura ainda mais satisfatória. E isso, de certa forma, reconforta-nos.
Quem é que neste país não gostaria de ter sonhos tão doces quanto este nos seus últimos anos de vida? Mas só Wiktor Suchowiak e mais uma ou duas pessoas os tinham. Tais sonhos evitavam os veteranos bem alimentados. O sábio e omnisciente Morfeu distribuía-os pelas professoras na miséria que viviam nas pequenas cidades, juízes velhos e aposentados, engenheiros, ferroviários ou jardineiros e por vezes também pelas vendedeiras do mercado e pelos bandidos antes da guerra. Só se ficava a saber o que estas pessoas em tempos tinham feito se se ouvisse o que elas de vez em quando diziam durante o sono.