Jean_Francois Braunstein - A Religião Woke
Este livro de JF Braunstein aborda um tema que eu, como muitos intuímos o que poderá estar em causa, mas desconhecemos como se chegou a esta alucinação coletiva. Se o caminho para a mesma e a sua história não me parece suficientemente desenvolvida, já os conceitos teóricos subjacentes a esta “Religião” woke são expressos de forma tão clara que faz deste livro uma ferramenta indispensável para quem os quiser entender melhor.
This book by JF Braunstein addresses a topic that many of us, like myself, intuit what may be at stake, but are unaware of how this collective hallucination came about. While the path to it and its history may not seem sufficiently developed to me, the theoretical concepts underlying this "woke" religion are expressed so clearly that it makes this book an indispensable tool for anyone seeking a better understanding of these issues.
Uma resenha / A review:
A Lei de Pareto, também conhecida como o “Princípio 80/20”, é um conceito que sugere que em muitas situações 80% dos efeitos resultam de 20% das causas. Vários são os contextos, onde esta proporção é verificada ainda que com pequenas oscilações. Também na sociologia e nos movimentos sociais este princípio pode verificar-se quando uma pequena percentagem da população tem um efeito maior que o da maioria. No ocidente, os activistas Woke, ainda que em número reduzido parecem ter tido a capacidade de condicionar o funcionamento da sociedade sem que os mais arrojados tenham a mesma eficiência que a criança na história de Hans Christian Andersen.
O termo Woke surgiu na cultura afro-americana em inícios do Século XX, e teve em finais do século XX um “up-grade” que nos levou à actual situação. Envolto em meias verdades, cristalizadas num delírio onírico, empolando a vitimização, extrapolando a vitimização efetiva de uns poucos, apar da culpabilização dos que nunca agrediram, só e apenas porque nunca foram vítimas, esta narrativa delirante assenta em verdades muito, muito parciais e é defendida por uma elite “iluminada” que com zelo e devoção religiosa, fica completamente impermeável à razão, optando sempre por negar a realidade se algum dos seus dogmas for posto em causa. Argumentar com um Woke é a melhor definição de solipsismo que alguma vez poderemos encontrar.
De onde vêm estas pessoas, quem são e o que defendem? No livro “A Religião Woke” de Jean-François Braunstein, ou em “A Insanidade das Massas” e “A Guerra ao Ocidente” de Douglas Murray encontramos muitas respostas a estas questões.
Sabe-se que os movimentos antirracistas da actualidade tiveram a sua origem no esclavagismo nos EUA, uma organização social que se manteve desde a proclamação da independência em 04/07/1776 até à ratificação da 13ª emenda à constituição em 1865, altura em que a escravatura foi abolida. Uma emenda constitucional que surge mais em resultado das necessidades de mão de obra “barata” por uma indústria dos Estados do norte em franco crescimento e cujos interesses colidiam com os “direitos” dos “donos” dessa mão de obra. A aprovação de 13ª emenda se historicamente marca a abolição do regime esclavagista nos EUA, a segregação racial continuou primeiro pelas leis de Jim Crow, abolidas após os movimentos de direitos cívicos das décadas de 50 e 60, para depois continuarem inculcada no superego coletivo de uns, enquanto detentores de direito à agressão e outros, enquanto vítimas ou testemunhas. A questão racial nos EUA nunca foi devidamente resolvida e os movimentos surgidos em finais do século XX inícios de XXI são paradigma disso. O movimento #BlackLivesMatter, fundado por três afro-americanas Patrisse Cullors, Alicia Garza e Opal Tometi, em 2013 surgiu em reação ao assassinato de Trayvon Martin e à absolvição do seu putativo perpetrador. Era na origem um movimento inspirado na figura de Malcom X e das lutas pelos direitos civis e o seu objectivo era o da denúncia activa da brutalidade policial, discriminação racial e a desigualdade socioeconómica. Em 25 de Maio de 2020 o assassinato de George Floyd durante uma acção policial captada pelas redes sociais levou ao ressurgimento mo movimento #BlackLivesMatter e a novos movimentos de protesto nas redes sociais, o #GeorgeFloyd e o #ICantBreath.
Anos antes um outro movimento importante para a compreensão da ideologia “Woke” tinha surgido em reacção ao drama social da discriminação e agressões sexuais. Tarana Burke, uma ativista social estadunidense e organizadora comunitária, em 2006 popularizou a frase "Me Too". Mais tarde, em 2017 atriz estadunidense Alyssa Milano, popularizou este Hashtag no Twitter após uma série de acusações de agressão sexual contra o produtor cinematográfico Harvey Weinstein.
Todos estes movimentos sociais no início incidiam a sua acção reivindicativa nas relações socio-económicas. Eram movimentos de denuncia, muitas vezes abusivas, de injustiças aos mais variados níveis, mas se assim o era na origem, rapidamente a contestação deixou a exclusividade dos temas sociais e contaminou toda a sociedade. Se de início eram as vítimas que exigiam legitimamente respeito e igualdade, rapidamente o movimento alastrou e contaminou outras áreas. Passou de defesa das vítimas para um ataque a tudo o que não era vítima. Entrou-se num mundo de culpabilização, onde os acusados em vez de se defenderem assumiram-se como “Snowflakes” – frágeis como flocos de neve. Era um mundo securitário onde tudo se garante desde que se submetam à “ditadura da igualdade e da responsabilização histórica”. É o mundo dos alertas diários, o mundo do confinamento, o mundo dos medos do presente e do futuro – o mundo de “Farenheit 451”.
Mas, o que move essa gente, quais são as suas verdades e em que ponto as ultrapassam o razoável para entrarem na alucinação que professam. São três os princípios que determinam as suas posições e que pomposamente apelidam de “teorias”.
“Teoria Crítica da Raça”
É eventualmente a mais antiga do movimento. Alicerçada nos movimentos anti raciais acima descritos, rapidamente evoluiu de uma posição de defesa das vítimas de discriminação, para uma outra de acusação e condenação de tudo o que não é negro, ou na melhor das hipóteses, de tudo o que se possa relacionar com o homem branco. Evoluiu da defesa dos desprotegidos e ofendidos para uma doutrina que dá pelo nome de “Teoria Crítica da Raça”.
O homem branco é o inimigo e não se aceita mesmo que se descreva como não racista e cabisbaixo, com sentimentos de culpa reconheça que os de raça negra foram vítimas em muitos momento da história. A luta dos negros contra a discriminação pela cor passou para uma luta contra tudo o que não for negro. Ser-se branco é crime, assim como é crime tudo o faça recordar a opressão do homem branco. Criaram assim o conceito de “branquitude” onde os novos xenófobos condenam todos os indícios e resquícios dessa opressão: o conceito de individualismo e a sua interligação à liberdade, as formas de organização social baseadas na família nuclear, a utilização pela ciência do método científico, a primazia da cultura greco-romana, a tradição judaico cristã, a ética protestante do trabalho, o respeito pela autoridade e pelo trabalho, o ideal de progresso da sociedade, a religião cristã, o espírito de competição, o pensamento racional, a procura da resposta certa, o racismo intrínseco de disciplinas como a matemática e a biologia, a responsabilidade no cumprimento dos horários, ser-se bem educado, entre muitas outras. Todas estas são características civilizacionais atribuídas ao homem branco e como tal manifestações da sua “branquitude”. Inevitavelmente estes conceitos permearam os meios universitários, com os alunos como principais apoiantes. Os de raça negra impulsionados por motivos históricos, mas o espantoso foi o apoio que estas ideias colheram junto dos caucasianos que parecem encontrar “paz de espírito” na expiação de crimes cometidos há séculos. E se julgávamos que estas ideias ficavam restritas a uns poucos na comunidade estudantil das ciências sociais, rapidamente a realidade nos desmentiu quando estes conceitos alastraram a toda a uma comunidade escolar onde nem a classe docente nem as ciências exatas escaparam.
A culpa do homem de hoje por ações que ocorreram há séculos, é um caminho de justicialismo que uma vez postos os pés em marcha nos longe. Por que não revoltarmo-nos contra os Sapiens sapiens que há 40.000 anos, que vindos de África invadiram o planeta, dizimaram todas as outras espécies de hominídeos existentes. Por que não recuperar os genes dos Neandertais que persistem no nosso genoma e corrigir uma injustiça histórica. O mundo da injustiça e desigualdade é tão mais vasto. Sempre que houve evolução, houve algo que ficou para trás, nunca houve evolução sem injustiça.
A “Teoria de Género”
A “teoria do Género” genericamente defende que os caracteres sexuais são irrelevantes. Há género, e o género não resulta dos caracteres sexuais. À nascença nunca poderemos dizer qual é o género de uma criança só pelos caracteres sexuais que apresenta. Temos de esperar que o género se expresse e então, em consciência, identifique o género com que se identifica. Para estes “prosélitos” o corpo é o invólucro de uma consciência que tem supremacia sobre o corpo. Nega-se a biologia? Claro que sim, mas apelando à “Teoria Crítica da Raça” a biologia não considerada uma ciência exata mas apenas uma manifestação de “branquitude”.
Uma vez que é a consciência de cada um que revela o género, também o número de indecisos é grande. Há assim os que não tomaram uma decisão e têm uma identidade flutuante, os não-binários que optaram por recusar a inclusão em estereótipos do género, os que têm dois géneros em simultâneo e os que vão alterando o género. Mas como pode o ocidente enveredar por esta loucura? Ao certo não sabemos, mas olharmos com atenção, esta realidade não parece diferir muito da “realidade virtual”. Reciclada do virtual, ou não, a “Teoria de Género” é algo que os Woke não exploram devidamente, pois há seguramente outras possibilidades. Por que não reconhecer também a estes o direito a uma escolha, afinal o que determina é a consciência e o corpo é só um invólucro.
“Teoria da Intersessionalidade”
Dizem os woke que numa mesma pessoa podem coexistir vários factores de exclusão. Uma mulher negra está sempre em desvantagem perante uma mulher branca ou um homem negro. Dizem os proponentes desta teoria que estes factores negativos têm interconexões que se potenciam no resultado final. Parece haver alguma lógica nisto. Agora afirmar que a presença destas desvantagens devem ser tomadas como vantagem perante os que as não possuam, não lhe consigo encontrar qualquer razoabilidade. Mas afinal, também não necessita, razoabilidade é um conceito derivado da branquitude. O mérito é assim um factor negativo. Os intersessionalidtas argumentam que as minorias não só devem protegidas como favorecidas activamente porque se não têm o mérito, é porque foram oprimidas por outros que tiraram proveito disso. É trocar o mérito pela sua ausência numa sociedade que só consegue funcionar porque os wokes vivem num mundo virtual ainda não entrou em choque com a realidade porque outros há que continuam a garantir-lhes a satisfação das necessidades mínimas.
Os Wokes a ciência e a cultura trans.
É aqui que estes prosélitos entram numa diatribe demasiado perigosa. Assistir ao ataque que esses prosélitos fazem à herança cultural, a entrada destes conceitos nos programas do sistema educativo, observar a complacência dos docentes universitários, ver como de uma posição de defesa das vítimas se passou para uma outra que remete ao ostracismo todos os desalinhados é algo que é preocupante. O “spook” de Philip Roth já aí está.
Dizem os wokes, a ciência ocidental foi fundada no conhecimento do homem branco e por isso repleta de injustiças. A matemática permitiu contar os escravos, é por isso culpada de racismo. O ensino da matemática passa então ao ensino de uma “matemática antirracista”. Não está preocupada com a procura do resultado certo, este é uma manifestação de racismo, e ao fazê-lo deixa de ser uma ciência e passa a ser uma religião com crentes, eleitos e prosélitos. Olham para ciência como uma manifestação dos privilégios do homem branco e criaram o #ScienceMustFall cujo conteúdo é suficientemente explicito. A biologia é um outro exemplo onde o conhecimento ficou contaminado pela epistemologia do ponto de vista.
Claro que todas as ciências são apenas e só narrativas, formas de descrever a realidade, podendo por isso a qualquer altura serem negadas pela evolução do conhecimento. Uma ciência permite sempre o contraditório – Karl Popper. Na “ciência Woke” não há lugar para o contraditório. Todas as afirmações são dogmas aceites como tal, mesmo que a realidade os contradiga. Há sempre a possibilidade do respaldo num mundo virtual, de onde nunca deviam ter saído.
Para os Woke a epistemologia é contaminada pelos pontos de vista. Nesta nova forma de relação com o conhecimento será sempre privilegiado a origem do mesmo.
Na Europa muitos são os países que têm aprovado legislação alinhadas com a “teoria de género” e a “teoria crítica da raça”. Em Portugal foi recentemente aprovada legislação para “proteção da liberdade de género”. Noutras paragens a agressão ao mundo e cultura ocidentais foi ainda mais longe. O governo da Nova-Zelândia entendeu por bem que introduzir a magia e bruxaria tradicional Maori como disciplina de ensino nas universidades, não nas disciplinas de antropologia onde faria todo o sentido, mas a par da biologia e genética, dando aos alunos abertura para outras formas de descrever o mundo.
A religião woke, um livro indispensável para se entender a gravidade e urgência com que nos defrontamos.