Coisa Que não Edifica nem Destrói é uma experiência social em que Ricardo Araújo Pereira divaga sozinho durante bastante tempo sobre assuntos que o entusiasmam muito mas talvez não interessem a mais ninguém. Às vezes, aborrece as pessoas.
O objectivo começou por ser obter o maior número possível de ouvintes, como «quando aquele ovo era a fotografia com mais likes do Instagram, e agora é obter também o maior número possível de leitores. Partindo de temas específicos — como o medo, a precisão de uma piada, excrementos, moscas, irritações e, sempre, o humor —, RAP ilustra os seus argumentos recorrendo a textos, desde a antiguidade clássica até aos nossos dias, que usam a linguagem como motor da eficácia nos mecanismos humorísticos.
O podcast homónimo está disponível nas plataformas do Expresso e da SIC.
«Vai falar-se desavergonhadamente de humor. É melhor dizer esavergonhadamente, porque isto de um humorista falar do seu ofício é um passatempo que às vezes é não só escarnecido, como até desaconselhado. A primeira frase da História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois, é: ‘O riso é assunto demasiadamente sério para ser deixado aos cómicos.’ Ora, eu estou-me borrifando para as advertenciazinhas do Georges e falo do que eu quiser. Mas de facto não falta quem ache esquisito que um humorista se entretenha a falar de humor, e eu tenho impressão que isso se deve a algumas expectativas que nós costumamos ter não só em relação ao humor, mas também, por extensão, aos humoristas.
Por exemplo, isto não acontece em outras área de actividade, muito pelo contrário. O que causaria estranheza seria que um músico, um pintor ou um realizador não tivessem uma ideia sobre o que o seu trabalho deveria ser. E um escritor que não saiba nada de literatura é, aliás, muito justamente, reputado de idiota. Quando se trata de humor, parece que se considera que falar do assunto estraga uma espécie de magia, ou destrói aquela espontaneidade que está normalmente associada ao discurso humorístico. Mas convém não perder de vista que essa espontaneidade é quase sempre apenas aparente e que é tanto mais persuasiva e eficaz quanto melhor for fingida. No fundo, o que eu quero dizer é que isto do humor tem tanto de místico como qualquer outra forma de escrita ou de trabalho, ou seja, nada.» —RICARDO ARAÚJO PEREIRA
Filho de um piloto da TAP, Artur Álvaro Neves de Almeida Pereira, e de uma assistente de bordo, Emília Rita de Araújo, foi aluno de colégios de freiras vicentinas, franciscanos e jesuítas até se licenciar em Comunicação Social e Cultural, na Universidade Católica Portuguesa. Seguiu-se o trabalho como jornalista, na redacção do Jornal de Letras, Artes e Ideias.
De seguida tornou-se argumentista da agência de criadores Produções Fictícias, tendo sido co-autor de vários programas de sucesso do humor português, entre eles Herman 98 e Herman 99 (RTP, 1998 - 1999), Herman SIC (2000 - 2005), O Programa da Maria (SIC, 2001), Hermandifusão Portuguesa (RDP, 1999 - 2001), as crónicas Felizes para Sempre, no semanário Expresso e As Crónicas de José Estebes, no Diário de Notícias, entre outros.
Por volta de 2003, depois das primeiras aparições na televisão, designadamente no programa de humor stand-up comedy, Levanta-te e ri, na SIC, e criando, já ao lado de Zé Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis, várias rubricas no programa de Nuno Markl, O Perfeito Anormal, na SIC Radical, dá arranque ao projecto Gato Fedorento, cujo colectivo se tornou uma referência do humor português contemporâneo.
A equipa assinou várias séries do programa Gato Fedorento, na SIC Radical (Série Fonseca, Série Meireles e Série Barbosa), e depois na RTP1 (Série Lopes da Silva). Também na RTP1 apresentou Diz Que é Uma Espécie de Magazine em 2007, para de seguida voltar à SIC, com Zé Carlos, em 2008, e Gato Fedorento: esmiúça os sufrágios, em 2009. Na internet os humoristas mantêm o blogue homónimo, onde Ricardo Araújo Pereira assina as suas entradas com as iniciais RAP. Teve ainda várias aparições no programa de humor da SIC, Levanta-te e Ri, onde mostrou por várias vezes os seus dotes no stand-up.
Actualmente escreve todas as semanas no jornal A Bola e na revista Visão. Na TSF integra o painel do debate Governo Sombra, com Pedro Mexia e João Miguel Tavares.
As personagens de Ricardo Araújo Pereira, que encontram eco na actualidade política, desportiva ou social, destacam-se pelos tiques que «saltam» para a rua (como acontecia com as criações de Herman José) e são absorvidos em regime multi-geracional, alimentando campanhas publicitárias de sucesso.
É co-autor do livro O Futebol é Isto Mesmo (ou então é outra coisa completamente diferente) e do disco O disco do Benfiquista, naturalmente. Compilou as suas melhores crónicas da revista Visão nos livros Boca do Inferno e Novas Crónicas da Boca do Inferno. Com Pedro Mexia realizou uma adaptação da peça de teatro Como Fazer Coisas com Palavras, do filósofo inglês John Austin, que também interpretou, no Teatro São Luiz em 2008.
É casado com a produtora de rádio Maria José Areias, com quem tem duas filhas, Rita e Maria Inês. Vive na Margem Sul, Quinta do Conde, e gosta de afirmar que é o sócio nº 17 411, do Sport Lisboa e Benfica, clube de que é adepto fervoroso. Foi militante do Partido Comunista Português, partido que veio mais tarde a abandonar. Continua, porém a afirmar-se como "Marxista não Leninista".
Em nome da honestidade, devo reconhecer que, de facto, as piadas são perigosíssimas e podem matar. Numa das poucas vezes em que tive a sorte de falar com Raul Solnado, perguntei-lhe: -Há uma lenda segundo a qual, no decurso de um espectáculo seu, uma senhora da plateia riu tanto que acabou por morrer. Isso é verdade? Ele disse: -Não, Ricardo. Foram duas. Mas também houve uma senhora grávida que se riu a ponto de ter o bebé no teatro. Portanto, está 2 a 1. Não é um resultado assim tão mau.
Os textos apresentados neste livro são os que RAP narrou no seu podcast com o mesmo nome, por isso, quem ouviu os episódios não pode esperar nada de novo. Apenas não tem as partes com os convidados de cada episódio. O autor entretece relações entre textos já muito antigos, mas nem por isso desatualizados, e situações do mundo atual, no que ao humor diz respeito. É uma forma de pensar se existem limites para o humor e se tudo é válido para fazer rir. Eu acho que não há limites para o humor a não ser os nossos próprios limites, mas, aí, cada um saberá dos seus. No entanto, apesar de cada um com os seus limites, estes nunca poderão ser motivo para agredir ou até matar alguém.
E, hoje em dia, numa sociedade cada vez mais de ofendidinhos, o humor é uma coisa que pode começar a escassear. E, pelo menos eu, não quero isso.
Há um grupo de pessoas estranhas que, apesar de tudo, insiste em fazer este exercício, tão desprezado, de se livrar da seriedade, imaginar coisas que outros consideram de mau gosto, e submeter-se às consequências. Vamos esperar que as consequências sejam cada vez menos graves.
Um livro para quem não ouviu o podcast ou para quem, tal como eu, quer rever algumas das coisas que lá foram ditas. Gosto muito do raciocínio do Ricardo Araújo Pereira, nem sempre concordo com ele e acho que às vezes tem posições demasiado absolutistas, mas gosto muito da forma como expõe a sua opinião e acabo por ler e gostar muito das bibliografia que ele sugere. Gosto de dissecar sobre o humor e ele faz isso muito bem. É sempre um prazer ler o que ele escreve.
Conhecendo o autor que é humorista e escreve umas coisas, não me admirei que em todos os capítulos alertasse o leitor que discorre chatamente sobre alguns assuntos (não me dediquei a ouvir o podcast porque outras chatices têm prejudicado a minha concentração e disponibilidade). Desavergonhadamente fala de humor, uma coisa que não edifica nem destrói. E crítica social.
Humor inteligente, que questiona, interpreta e dá que pensar. Humor que corrói certezas instaladas. Não edifica nem destrói mas desconstrói.
Um livro que não compromete.Habituadas às suas crónicas cheias de verdades e humor uma vez mais Ricardo Araújo Pereira lança os seus pensamentos sobre a actualidade
“Há um grupo de pessoas estranhas que, apesar de tudo, insiste em fazer este exercício, tão desprezado, de se livrar da seriedade, imaginar coisas que outros consideram de mau gosto, e submeter-se às consequências. Vamos esperar que as consequências sejam cada vez menos graves.”
Muito interessante a forma como uma coisa aparentemente tão simplória como basicamente o "engraçado" pode ser dissecada e analisada tão em profundidade como qualquer outra área artística ou científica. Gostei imenso de acompanhar esta dita dissecação e fico triste por ter acabado tão depressa. Felizmente tenho o 2º volume à minha espera e infelizmente vou devorá-lo tão ou mais depressa 😔
Apesar de o autor, o humorista Ricardo Araújo Pereira, não considerar que este é um livro de ensaios, eu vou continuar a defender que são. Ricardo é demasido humilde para achar que são ensaios, mas eu acho que são demasiado geniais para não o serem.
Esta série de livros com um podcast homónimo tem dois volumes. Eu comecei a ler o segundo volume, apesar de ter comprado primeiro o volume inicial. No entanto, perdi-o no meio da minha biblioteca e o Ricardo e a Tinta-da-China foram a tal ponto generosos que me ofereceram o volume. Notícia de última hora: ontem encontrei o livro no meio dos outros livros de crónicas da minha biblioteca. Lá está, devia estar juntos dos outros ensaio e, por isso, não o encontrei quando precisei dele.
Aconselho vivamente o livro - e recomendo que comecem a ler, de facto, por este primeiro volume. Tem matérias mais iniciais sobre a história e a teoria do humor, que se tornam mais interessantes de saber aquando da leitura do segundo volume.
Um dos grandes méritos deste livro é que junta histórias que, não fosse o interesse e pesquisa de Ricardo, nunca nos íamos cruzar com elas - e que pena seria. Ricardo faz o trabalho por nós (ele que diz que a leitura e a interpretação de textos são fundamentais na sua vida) e oferece-nos textos com várias fontes sobre humor, religião e literatura.
á aqui escrevi em várias ocasiões que sou um grande apreciador de Ricardo Araújo Pereira, e não apenas como comediante, mas também como “pensador”. Provavelmente ele não gostaria de ser chamado assim, mas o que RAP faz neste "Coisa que Não Edifica Nem Destrói", e naturalmente no seu podcast com o mesmo nome é isso mesmo, agir como um pensador, alguém que pensa e reflete sobre temas de uma forma que a maioria de nós não faz.
Os temas tocam necessariamente muito no humor nas suas mais diversas dimensões, mas RAP dá-lhes contexto, elabora sobre eles, mesmos os mais estranhos (as moscas por exemplo) e presenteia o leitor com textos de grande qualidade de escrita e de conteúdo.
Por vezes sinto grande estranheza que tenham de ser humoristas a mostrarem-nos de forma clara o que está mal na nossa sociedade. Fazendo-nos rir de coisas que, se pensarmos bem, até são para chorar, e elaborando sobre como humor é muito mais do o ato de fazer rir sobre algo. RAP é mestre nisso mesmo.
Uma leitura de excelente qualidade, um podcast que vale muito a pena ouvir. Goste, ou não, RAP é muito mais do que um humorista. Ainda bem para todos os nós. 5 estrelas.
Neste livro, o humorista Ricardo Araújo Pereira fala da sua vocação: o humor. Não admirará ninguém que o livro é engraçado e que dá motivos de reflexão nos tempos de hoje, como grande parte da obra dele. Fala sobre as raízes de humor e os métodos que os mestres usam para o produzir. Também fala sobre a tendência das pessoas, tanto nesta época quanto no passado, para ficarem zangadas e não aceitarem as piadas feitas sobre elas próprias. O exemplo mais recente é o de Chris Rock, mas há muitos ditadores e ainda mais terroristas que querem matar quem não obedece às regras aleatórias que eles querem impor à gente.
O autor dá muitos exemplos e citações selecionadas da história incluindo Roland the Farter e Ronnie Corbett (da Inglaterra), Mark Twain e Bill Hicks (dos EUA) e Dario Fo e Rabelais (de outros países europeus) para demonstrar a natureza universal do humor.
Depois de comprar o livro, percebi que existe um podcast com o mesmo título que contém não só os textos do livro mas também mais capítulos e entrevistas com comediantes e escritores. E não custa nada... Ora bem, não faz mal, tenho um livro bonito e uns conteúdos extras. É um bónus.
Sete ensaios que serviram de guião para o podcast com o mesmo título. Rir é uma forma de afastarmos o medo da morte, ou melhor do envelhecimento, voltando ao básico, o nosso corpo. As figuras de estilo, a literalidade tem sido uma grande inimiga do humor.
Mais uma excelente coletânea de crónicas do RAP. Desta vez viradas mais para aquilo que é o humor, que como o título diz "não edifica nem destrói", e o papel do humorista na sociedade.
Ensaios sobre o humor que proporcionam um prazer desmedido de leitura. Li tudo e ouvi os podcasts em viagens intermináveis de autocarro via casa-trabalho-casa. Nada podia ser mais perfeito, obrigado Sr. Humorista.
Engraçado e por vezes informativo. Lamentavelmente, há um capítulo inteiro a defender piadas estigmatizantes, algo que o Ricardo tem vindo a fazer ao longo da sua ilustre carreira :(
Adoro o Ricardo enquanto humorista mas este livro ... É engraçado até certo ponto, apresenta reflexões sobre o Humor mas faltou algo mais. Livro muito pequeno