Antígona, Ifigénia, Joana d’Arc ou Julieta. Apenas alguns exemplos de mulheres que, na tradição ocidental, ofereceram as suas vidas ao sacrifício. Para salvar um país, um familiar, um amado.
A tradição cultural ocidental atribui às mulheres essa vocação para a abnegação e o sacrifício. Ao mesmo tempo faz corresponder a essa vocação o sentido de uma vida plena e digna. Sempre me interroguei sobre esta ligação das mulheres ao sacrifício, parecendo-me que tem subjacentes expectativas sociais e culturais e não tanta a real existência de tal vocação. Por isso, quando vi este livro pareceu-me um bom caminho para testar as minhas interrogações.
A filósofa e psicanalista Anne Dufourmantelle oferece-nos este trabalho extraordinário. É uma obra bem estruturada, onde é evidente a sólida formação académica da autora e a sua capacidade de exposição. O livro pode ser lido com proveito e gosto quer por quem está familiarizado com a cultura clássica, quer por quem ainda não teve oportunidade de explorar esse campo. Isto porque, graças às suas capacidades pedagógicas, Dufourmantelle apresenta de forma clara as várias outras e arquétipos que utiliza para ilustrar as suas teses. Tem depois a capacidade de nos mostrar que estas figuras, como arquétipos ou pelo menos elementos culturais de referência, se projectam directa ou indirectamente nas nossas construções e respostas sociais. Mergulhamos em referências clássicas analisadas com profundidade numa aventura intelectual que qualquer leitor ou leitora não consegue recusar. Seguimos a escritora que vai dialogando connosco. Mostra-nos como figuras sacrificiais são privilegiadas na narrativa em detrimento de outras que escolheram o seu caminho pessoal (como Heloísa), recusando o sacrifício. E leva-nos a perceber como os mitos e construções clássicas estão presentes anos nossos dias.
Com este livro compreendemos melhor o mundo e adquirimos instrumentos para nos entendermos também melhor.