Bem vindos à revista Trasgo, uma revista de contos de ficção científica e fantasia. Queremos trazer os melhores contos em língua portuguesa, de autores novos e consagrados.
Por que Trasgo? Trasgo é uma criatura do folclore português, confundidos com duendes ou trolls. Mas também pode ser o nome de um planetóide distante, lar de um único ser vivo. Uma maldição que sai de sua caverna escura à noite, ou uma pequena nave mineradora com tripulantes suspeitos.
Índice de conteúdos: Editorial Ventania - Hális Alves Azul - Karen Alvares Náufrago - Marcelo Porto Gente é Tão Bom - Claudia Dugim A Torre e o Dragão - Melissa de Sá Galeria: Filipe Pagliuso Entrevista: Filipe Pagliuso Entrevista: Hális Alves Entrevista: Karen Alvares Entrevista: Marcelo Porto Entrevista: Claudia Dugim Entrevista: Melissa de Sá
Rodrigo van Kampen é escritor, editor da Revista Trasgo, redator publicitário e foge de moto nos fins de semana. Já publicou em coletâneas da Aquário, Draco e em publicações independentes. Mora em Campinas com sua esposa e uma vira-lata, escreve em viverdaescrita.com.br e pode ser encontrado no Twitter como @rodrigovk.
A Revista Trasgo tem publicação trimestral e reúne contos de diversos autores, com temas voltados para fantasia e ficção científica. Hoje trago a resenha dos contos da primeira edição, que foi uma edição piloto com contos de escritores convidados.
Nesta resenha, falarei um pouco sobre cada um dos 5 contos:
Ventania (Hális Alves)
Ventania nos apresenta um mundo futurista e pós-apocalíptico, em que os pouquíssimos sobreviventes lutam para conter os bandos, grupos formados por humanos afetados pela radioatividade e que devido a isso perderam qualquer tipo de empatia.
Foi o meu favorito da coletânea. O autor apresenta uma narrativa interessante e envolvente, introduzindo o leitor aos poucos neste mundo que ele criou, que foi muito bem estruturado. As reviravoltas são interessantes, com cenas bem escritas que não decepcionam o leitor, e a alternância de pontos de vista só acrescenta mais tensão. O único ponto negativo é que há muitos personagens, e exceto pelos principais, fica fácil esquecer quem é quem.
Azul (Karen Alvares)
Nora bebeu demais na festa e, ao encontrar um homem azul no ônibus, acredita que é sua mente alcoolizada pregando peças. Esse conto, apesar de curto, é muito interessante. Gostei muito de como a autora mostrou as mudanças de Nora e como conseguiu passar para o leitor o clima de medo e tensão, deixando um final em aberto.
Náufrago (Marcelo Porto)
Narrado em primeira pessoa por Diogo, um professor de história a caminho para sua palestra, este conto se passa, em sua maior parte, em um ferry boat que sofreu uma pane e está à deriva. Em meio a isso, surge uma tempestade repentina.
Trabalhando com viagem no tempo, esse conto foi muito interessante, embora eu tenha sentido falta de uma dose a mais de tensão nas cenas em que a ação começa a aparecer. Porém, o protagonista nos apresenta ao contexto histórico do local (a Bahia), e isso adicionou um toque a mais ao conto.
Gente é tão Bom (Cláudia Dugim)
Esse conto nos apresenta uma protagonista não tão convencional, que odeia pessoas e seu emprego e não hesita em deixar isso claro. Naquela manhã isto não é diferente, até que um estranho acidente ocorre a caminho do trabalho: pessoas estão se metamorfoseando em frangos. Apesar de eu ter gostado da narrativa, o acontecimento não me convenceu muito. A ideia era, provavelmente, chocar, mas de alguma forma isso não pareceu convincente no ambiente criado pela autora.
A Torre e o Dragão (Melissa de Sá)
Esse foi também um dos que mais gostei. Uma princesa está presa na torre, protegida por um dragão, e isso há tanto tempo que ela sequer se lembra da vida que teve antes. Há o príncipe que veio para salvá-la, mas essa história não segue o caminho convencional.
O que mais gostei nesse conto foi a maneira como o mundo em que a Princesa vive, que se resume à Torre, foi construído. Interessante também é a maneira como o relacionamento com Tristam, o Príncipe, foi desenvolvido: no início havia apenas fascínio, que aos poucos se transformou em afeto. O final apresenta os fatos de maneira bem sutil, deixando para o leitor algumas pistas do que realmente aconteceu à Princesa.
Esse é um conto que se passa em um Brasil pós-apocalíptico no qual nossos personagens estão em um prédio muito grande próximo a um farol. Eles tentam a todo custo sobreviver às intempéries de um mundo cruel e à violência que assola os grandes campos. A proposta pós-apocalíptica quando bem trabalhada sempre gera boas histórias e é isso o que vemos aqui.
Não sabemos ao certo o que aconteceu ao mundo e isso talvez nem seja o mais importante na história. Mas, de toda forma o autor apresenta pequenas pistas do que pode ter ocorrido. Sabemos que os campos foram tomados por algum tipo de radiação que afetou alguns grupos humanos de maneira irreversível. E acho que essa maneira de escrever é muito interessante porque ao mesmo tempo em que ele não diz muito, ele fala bastante ao leitor. Somos capazes de construir a imagem acerca do que aconteceu em nossas mentes. Seja a devastação ou o que sobrou dos lugares.
O conto trabalha muito com a psiquê dos personagens. Mostram como é o sentimento de cada um deles diante de um mundo devastado pelo próprio homem. Alguns que perderam entes queridos, outros que estão solitários, outros que não veem a possibilidade de um mundo melhor e alguns poucos que já perderam a esperança. Nesse sentido me lembrou muito o espírito por trás da escrita de A Estrada de Cormac McCarthy (claro, dadas as devidas diferenças estéticas e de escrita). Os personagens são bem redondinhos e muito bem trabalhados pelo autor. Chega um momento em que somos capazes de diferenciar as diversas vozes presentes na narrativa.
A narrativa é escrita em terceira pessoa, acompanhando esse grupo de sobreviventes. O cenário é esse imenso edifício. Acho que até daria uma história legal saber como esse grupo vivia nesse prédio, se haviam divisões sociais. Sei que isso já foi abordado por Hugh Howey em Silo, mas eu acho um tema tão legal e diferente. E saber que temos um autor com uma escrita muito boa e com uma pegada nesse gênero é legal. Mas, infelizmente a história acabou não me comprando completamente. Senti um pouco de peso na narrativa da metade para o final. Como se o autor quisesse explorar mais, mas precisasse encontrar alguma forma de encerrar o conto ou passaria demais dos limites impostos pelo gênero proposto. Achei até que o clímax foi um pouco corrido demais e subitamente a história se encerra. Para o Hális, fica a dica de ampliar o escopo do conto. Daria um ótimo romance.
2 - Azul (Karen Álvares) - 3 corujas
Azul é uma releitura para mim. Este é um conto presente na coletânea Horror em Gotas da autora. Por isso, adorei rever este conto até porque eu sou um aficcionado pelas histórias de terror da Karen. Já brinquei com ela dizendo que ela deveria publicar só terror. Isso porque ela tem uma sensibilidade única para este tipo de narrativa, sabe fazer o crescendo e manter a tensão do leitor.
É inacreditável o talento da Karen para compor histórias. Aqui nós temos uma narrativa com apenas uma personagem, Nora. Ela está voltando de uma noitada e se depara com um estranho homem todo azul dentro do ônibus. Nora faz o possível para se desvencilhar do ônibus, mas ele de alguma forma a alcança. Quando ela acorda no dia seguinte ela descobre que ela mesma está toda azul, só consegue enxergar ou tocar coisas azuis. Entre outras coisinhas mais.
O legal na história é como a Karen consegue compor as cenas. Você compra a tensão subjacente na história. Tudo acontece de maneira orgânica e as reações da protagonista são inteiramente verossímeis. Mesmo com o elemento fantástico presente na história, somos colocados de uma tal maneira que passamos a acreditar que aquele terror é real. Os grandes autores de terror são aqueles que conseguem assustar o leitor com coisas simples. Não há invencionices ou firulas presentes aqui. Apenas boa escrita. Então, meus caros, minha recomendação é: leiam Karen Alvares. Não vão se arrepender.
3 - Náufrago (Marcelo Porto) - 1 coruja
Um conto tem o poder de criar uma tirada curta capaz de te surpreender, te fazer refletir ou apenas brincar com um conceito. É isso o que Marcelo Porto faz ao nos colocar no papel de um professor de História que estava em um catamarã (?) chegando em Porto Seguro. Para alegrar o passeio de uma menininha ele comenta alguns aspectos históricos de paisagens urbanas que há muito tempo atrás representavam coisas completamente diferentes. Mal sabe ele que sua vida irá mudar quando o navio é arrastado através de um vórtice para o que parece ser o passado.
Eu entendi aonde o autor quis chegar e isso fica claro no final da história, mas mesmo assim a história não me convenceu. Achei legal a proposta, mas por que ali naquele lugar ou naquele momento? Existia alguma lenda nas redondezas sobre fenômenos parecidos? Me pareceu muito mais um efeito narrativo para que esta seguisse adiante. Em alguns momentos a história me pareceu bastante divertida e interessante, mas no cômputo geral eu acabei não curtindo. Achei a situação toda muito forçada somente para brincar com o leitor no final. Por exemplo, no conto que eu vou comentar a seguir da Cláudia Dugim, a ideia dela era fazer uma sátira ou até uma crítica à toda a questão da TPM. O leitor percebe que a autora está brincando em toda a narrativa. Aqui a construção toda era para ser uma história com seriedade.
Gostei da maneira como o autor buscou tornar a disciplina História interessante na narrativa. Esse foi um dos efeitos mais positivos do que eu li. A abordagem tranquilo, o uso de imagens reais (o leitor consegue se localizar espacialmente), todos são elementos que contribuem para uma fácil compreensão da história. A escrita do autor também é muito boa, não apresentando palavras difíceis ou diálogos chatos. O que realmente me incomodou foram as condições para que a história acontecesse. Não tenho muito mais o que comentar a respeito porque a proposta era um plot twist no final que se eu mencionar pode estragar toda a graça. Mas, assim, por ser um conto rápido e divertido, recomendo pelo menos que vocês passem os olhos e conheçam um pouco mais sobre o autor.
4 - Gente É Tão Bom (Cláudia Dugim) - 3 corujas
A Cláudia conseguiu criar cenas dignas de Um Dia de Fúria nesse conto. Como eu curti a acidez da protagonista. A narrativa é contada em primeira pessoa por uma mulher claramente com TPM que acorda extremamente mal humorada. Nesse dia parece que tudo dá errado para ela: mulheres que a irritam, motoristas idiotas que a cortam, e um homem que acaba botando um ovo. Hein? Como assim? É isso aí: um cara botando um ovo dentro do carro.
Essa é uma daquelas histórias que quanto mais você reflete a respeito, mais camadas você enxerga na mesma. Aparentemente a autora faz uma sátira a esse momento de fragilidade ou destemperança feminina. Mas, tem muito mais escondido no meio do texto: uma crítica às experiências de indústrias alimentícias, a maneira como as grandes empresas colocam as burradas que fazem para debaixo do tapete. Esse conto é como uma cebola que você vai tirando camada por camada e vai encontrando uma riqueza cada vez maior em sua essência.
A personagem é qualquer coisa menos uma heroína: desbocada, maluca e que pensa apenas nela mesma. Quando lhe oferecem uma mamata no final da história, ela pega numa boa. Eu dava risadas altas com as frases dela. Não sei como foi o processo de criação desse conto, mas eu tenho certeza que a autora ou se divertiu muito nesse dia ou ela estava realmente irritada. Em todo caso, Cláudia, por favor, traga mais dessa acidez. O mundo precisa um pouquinho desse Um dia de fúria.
Não preciso dizer que esse conto é recomendadíssimo. E cuidado para não lê-lo em um ambiente com muitas pessoas. É arriscado de você dar altas gargalhadas.
5 - A Torre e o Dragão (Melissa de Sá) - 3 corujas
Contos de fadas são sempre histórias imortais. Muitas delas já sofreram inúmeras releituras. E aqui Melissa de Sá pega uma delas, que é a história da princesa refém de um dragão no alto de uma torre, e dá uma releitura mudando detalhes aqui ou ali. Particularmente eu gostei muito da escrita e da maneira como a autora deu o seu toque na história.
Aqui temos a história da Princesa que está no alto da torre e um Dragão a guarda contra invasores. Até que um dia um intrépido cavaleiro chamado Tristam escala a torre para poder salvá-la. Só que ele acaba permanecendo na torre porque a Princesa tem medo de o Dragão fazer algum mal a Tristam. Os dias se passam e eles acabam precisando conviver juntos até encontrar uma forma de ela sair da torre.
A escrita da Melissa tem muito do estilo de contos de fadas. O estilo majestático na fala, a maneira como as situações se sucedem e até a sua metade correm como seria de esperar em uma narrativa do gênero. Só que ela dá alguns twists. Por exemplo, Tristam cria uma história para tentar entender a história da princesa antes de chegar na torre. O mesmo faz a princesa a respeito de Tristam. Ou seja, vemos um pouco mais de profundidade nos personagens o que não é muito normal em histórias desse estilo. Outra coisa muito legal foi essa quebra narrativa no meio da história para contar algo sobre os personagens. Melissa deu um efeito metanarrativo na maneira como esta foi apresentada. Outro detalhe pequeno e que poucos leitores se deram conta é de que só existe um personagem com nome na história: Tristam. A princesa é sempre referida como a Princesa e o dragão como o Dragão. Outro efeito típico de contos de fada.
Posso estar enganado, mas a narrativa seria em segunda pessoa? Me pareceu que a Princesa está contando a história para o príncipe, como se ela estivesse contando coisas que já se sucederam (ah.... não quero dar spoiler... tenho que me segurar aqui). Ou a narradora é alguém que conhecia a Princesa e Tristam e se referia a ele após saber dos acontecimentos. Essa parte não ficou inteiramente clara para mim. Mas, o efeito narrativo que isso dá a como entramos na história é bem diferente. Fora que existe uma boa divisão entre início, desenvolvimento e conclusão. Isso é perceptível a partir de leves divisões dos fatos: a chegada do príncipe na Torre, a convivência entre Tristam e a Princesa e o fechamento. A mudança no gênero narrativo para o plot twist que a autora quis fazer acontece no clímax da história, entre o desenvolvimento e a conclusão. Ali, a autora muda bastante o approach da história.
Uma coisa muito bacana destacado na entrevista da autora ao final da revista é a convivência entre os personagens que é algo não visto em contos de fada. Geralmente o príncipe aparece e faz o seu papel dentro da história. Não há tempo para que os personagens possam interagir. A autora também tenta tornar os personagens mais complexos ao apresentar um pano de fundo para eles. No geral, a história já é muito boa ao fazer uma releitura sobre histórias clássicas. Mas, na minha opinião, e é o que vale as três corujinhas, são os pequenos detalhes aqui e ali que fizeram da história única. É o estilo Melissa de contar histórias. Ou seja, recomendo fortemente a leitura.
Confesso não saber bem se devo registrar estas antologias em forma de revista aqui no Goodreads. Não fico confortável em considerar exatamente um livro, eu acho que é uma revista. E eu não gosto de registrar minhas revistas em quadrinhos aqui (já li 57 HQs esse ano, para ver como seria discrepante do que registro aqui), então não sei bem o que fazer. Decidi pelo menos não colocar na minha prateleira do ano, criando uma nova para revistas. Ao menos me evitará de contar no registro de livros.
Enfim, a Trasgo é uma iniciativa excelente do Rodrigo Van Kampen, que recebe contos de ficção especulativa, seleciona, edita e publica. Eu estava devendo começar a acompanhar a revista, e pretendo agora alternar com os livros até chegar na edição atual. Este primeiro volume traz cinco contos: Ventania, do Hális Alves (coincidentemente, meu amigo. Nem sabia que ele havia publicado!), é descrito nas palavras do editor como um mad max do sertão, e não vejo forma melhor; Azul, da Karen Alvares, um conto mais curto de terror; Náufrago, do Marcelo Porto, meio aventuresco, mas com um final bem interessante; Gente é Tão Bom, da Claudia Dugim, quase um micro-conto, desafiador e ousado; e A Torre e o Dragão, da Melissa de Sá, que subverte os clichês das fantasias medievais.
Numa média, gostei de todos, e acho que todos têm pontos interessantes e coisas que poderiam ser melhoradas. Mas foi um ótimo começo para a Trasgo!
Esta nova revista digital brasileira de FC e Fantasia é uma excelente surpresa. A qualidade narrativa dos contos coligidos é muito elevada, com destaque para a bem construída distopia pós-apocalíptica de Hális Alves que abre a revista, bem como para a intrigante inversão de premissas do fantástico medievalista de Melissa de Sá que a encerra. A capa do ilustrador Filipe Pagliuso captura bem o espírito da fantasia mágica, e no interior uma galeria de trabalhos mostra-nos mais do bem conseguido trabalho deste ilustrador. Para além de contos a revista ainda nos oferece entrevistas com os autores, onde podemos ficar a saber um pouco mais sobre os seus processos criativos, influências e restantes publicações. Uma boa surpresa e uma excelente leitura. E surpreendente, para um leigo como eu na literatura fantástica que se cria do lado de lá do lago atlântico.
Ventania: num Brasil pós-apocalíptico, grupos de sobreviventes congregam-se junto de uma futurista e gigantesca torre eólica que, noutros tempos mais prósperos, ancorou uma sólida comunidade urbana. Dispondo de energia e de grandes quantidades de tecnologia, os habitantes transformam-se numa daquelas comunidades auto-sustentadas típicas de alguma FC mais utópica e tecnocrática (tipo de visão utopista que o fortemente individualista J.G. Ballard adorava arrasar, mostrando que as comunidades esclarecidas onde todos trabalham unidos por um ideal comum são implacáveis para quem pense de forma diferente). Mas a ameaça exterior de hordes semi-selvagens de cancerígenos mutantes radioactivos e cyborgs que fundiram a carne com as suas máquinas vai arrasar esta comunidade onde a luz da civilização ainda brilha. Um conto muito interessante, cheio de acção imparável e que vai revelando passo a passo um mundo ficcional mais vasto do que as suas páginas. Reflecte o estilismo de Mad Max e da restante cinematografia pós-apocalíptica de série B , aqueles atrozes mas divertidos filmes de adereços escandalosos e argumentos minimalistas que se ficam por pouco saudáveis doses de pancadaria e tiroteio entre gangs de motards em paisagens desérticas. Um belíssimo conto de Hális Alves.
Azul: pois, eu também acho que há algo de tenebroso e arrepiante nos Blue Man Group e não me refiro apenas às atrocidades musicais que cometem. Este conto de horror de Karen Alves tem uma estrutura clássica baseada na acentuação progressiva do terror e numa colisão entre os tais homenzinhos azuis e o enredo-tipo de maldição a ser passada de pessoa em pessoa. Ao regressar de uma festa uma jovem tem um encontro com um homem de tez azulada que a contamina com uma praga bizarra. Ela, uma Gregor Samsa dos trópicos, vai-se transformando não em barata mas numa criatura de azuis mas não consegue passar a maldição para outras incautas vítimas e acaba por se suicidar.
Náufrago: quando um ferry que atravessa a Baía de Todos os Santos se vê engolido por uma anomalia no espaço-tempo, um historiador especializado nos primeiros anos da colonização do Brasil vê-se aprisionado num passado que tão bem conhece ao salvar uma rapariga da morte nas águas revoltas. O conto de Marcelo Porto mete a meio uma caravela portuguesa com marinheiros de dedos sensíveis no gatilho das bombardas, acção pouco compreensível mas que permite o ponto de fuga da história de aventura num ferry à deriva no tempo para a queda ao mar da rapariga cuja salvação pelo historiador implica ficarem condenados a estar encalhados no passado.
Gente é Tão Bom: conto bruto e de linguagem sem papas na língua de Claudia Dugim. Numa cidade costeira uma funcionária muito mal humorado de um aviário atrasa-se para chegar ao emprego... e ainda bem, porque um acidente nos seus laboratórios liberta para a atmosfera hormonas capazes que metamorfoseiam humanos em aves gigantes. Mas tudo acaba bem. A contaminação biológica é circunscrita e o mercado ganha um novo produto de aviário.
A Torre e o Dragão: o conto de Melissa de Sá parece uma história de príncipes que salvam princesas aprisionadas por dragões em castelos de fantasia, mas não o é. O príncipe não é bem um príncipe. Não nasceu em berço de ouro nem pertence a qualquer aristocracia. É um sábio rapaz do povo, detentor de uma vontade imparável de conhecer o vasto mundo e levado por um mago também aparentemente maligno às mãos da princesa. Princesa que também não o é, só está consciente de que de quando em vez aparecem príncipes para a resgatar do castelo, mas que acabam invariavelmente carbonizados pelo dragão. Dragão este que nunca se vê, nem se vislumbra, nem sequer quando o rapaz do povo ascende ao castelo e se apaixona pela princesa. Ao longo da estrutura narrativa deste conto que inverte de forma muito interessante as premissas da fantasia a autora vai-nos fazendo perceber quem realmente encerra dentro de si o dragão que carboniza pretendentes.
Ventania Foi o conto que eu menos gostei, mas isso talvez se deva à minha animosidade com zumbis. Eu até entendo o que o autor quis passar com a narrativa, mas eu entendo e não sinto... É aquilo de eu entender o que eu deveria sentir com o conto, mas não senti nada disso. Achei muito arrastado, comprido demais, me perdi com todas as mudanças de ponto de vista, e também (talvez por ignorância minha, não descarto a minha própria ignorância), não entendi o final.
Azul O que a gente faz quando sabe que está amaldiçoado e, para se livrar disso, precisa passar a maldição pra frente? Quando temos a escolha de nos livrar de algo que nos cerceia a liberdade, mas ao nos livrarmos, precisamos impor a alguém a mesma prisão de que queremos sair, o que vale mais? A nossa própria liberdade ou a da nossa consciência? Às vezes, na nossa mania de simplificar as coisas e achar que existe um certo e um errado, esquecemos que podemos tomar um terceiro caminho. Gostei muito desse conto.
Náufrago Viagem no tempo! \o/ A levada do conto foi muito boa, mas as cenas de ação foram meio estranhas, pra mim. Além disso, inadvertidamente aprendi história do Brasil, e aprender sem querer é sempre vantagem.
Gente é tão bom Conto muito loco, com uma linguagem bastante coloquial e apropriada para a situação. Li esse conto na época da operação Carne Fraca da Polícia Federal, e eu pensei que o conto se encaixou perfeitamente na situação da vida real de absurdos cometidos pelos frigoríficos e de as pessoas, na verdade, não saberem o que estão comendo. Foi um dos contos que eu mais gostei.
A torre e o dragão Esse foi outro que eu mais gostei. Não sei se a reviravolta do conto deveria ser surpresa (eu já sabia o que era lá pro meio do conto), mas foi muito bem construída. Talvez se tivesse deixado menos pistas no decorrer da narrativa, tivesse sido mais surpreendente pra mim. A repetição Tristam, Tristam dá um ritmo muito bom ao conto, e gostei muito da história do Tristam, que não é bem um príncipe, mas a princesa também não é bem uma princesa.