QUANDO UMA SENTENÇA DE MORTE NOS CATAPULTA PARA A VIDA
"Não me lembro do dia exacto, nem da hora exacta, mas lembro-me exactamente de como me senti.
Despertei. Peguei no telefone e digitei o número que pretendia. A chamada estava estabelecida. Estava prestes a receber noticias que ansiava receber há já alguns dias. Mas nem por um segundo equacionei a hipótese de serem tão negras como aquelas que recebi naquele dia. Cancro. Sim, tinha ouvido bem. Cancro."
O diagnóstico de um cancro é uma bomba para o doente, mas também para aqueles que o rodeiam e o amam. Este livro é uma partilha bonita da perspectiva de um familiar perante esse diagnóstico. Achei muito interessante ler sobre este tema de forma leiga, enriquecendo-me com expressões mais simples e dando-me mais ferramentas para empatizar com o outro no momento de transmitir estas terríveis notícias.
Confesso que li este livro sob alguma influência, por seguir o autor e amigos do mesmo no twitter. Mas a razão que me levou a querer comprá-lo e lê-lo não foi só essa. Foi também pela história em si. Um romance sobre cancro são livros que, de alguma forma, despertam o meu interesse. São sempre histórias tão genuínas, tão sentidas, tão reais... E todo o mediatismo que estava a surgir sobre ele reforçou ainda mais a minha curiosidade. Eram idas À TV, com entrevistas que me deixavam ainda mais curiosa. E foi uma boa aquisição. Relatos histórias profundas. Dá-nos a conhecer um autor vulnerável. E quem é a pessoa, o jovem de 21 anos, capaz de escrever um livro a relatar assuntos tão delicados, e de uma forma tão transparente? Sem receio das criticas, sem receio de se expor. De expor os seus sentimentos, de alguma forma, a sua vida, de mostrar toda a sua vulnerabilidade. Ele não esconde nada daquilo que a palavra "cancro" faz viver. Todos os tratamentos, todos os sofrimentos, todas as dúvidas e ânsias, todas as incertezas com que um cancro deixa uma vida. Várias vidas, aliás, porque todas as pessoas que rodeiam a pessoa de quem o cancro resolveu se apoderar, passa também a ter vidas instáveis. Vidas em que sabem que, neste minuto, a pessoa está com elas mas que, num piscar olhos, essa realidade pode-se tornar passado. Há um capitulo em particular que me tocou. O capítulo em que ele fala do seu amigo que também passa por algo do género, e a maneira como a vida desse seu amigo e a vida de a sua tia se cruzam. De uma forma ou de outra, e indirectamente, acabaram de estar lá um para o outro. A forma frontal com que este livro encara a doença e todas as outras coisas em redor dela, faz-nos também pensar em nós, na nossa vida, nas coisas e pessoas que nos rodeiam. Faz-nos também ver as coisas de outra forma, ou pôr isso em casa. Porque, em momentos de "desespero", em que já não se tem nada a perder, todas as tentativas são válidas. Apesar de não ser uma história propriamente embelezada, é uma história bela, que transmite amor e esperança. Confiança. E pode-se tornar um bom livro de reflexão, tendo em conta as coisas em que ele nos pode fazer pensar, ponderar. Reflecti muito enquanto lia cada página e acho que, toda a gente que o ler, fará o mesmo.
Será que no fim continuaram a ver a vida da mesma forma? A acreditar cegamente nas mesmas coisas? A experimentar novas filosofias de vida?
Apesar de já ter tido oportunidade de ler alguns dos excertos do Tia Guida ainda não tinha tido oportunidade de o ler na integra.
Devido às circunstâncias caricatas da vida acabei por conhecer pessoalmente o André e a sua presença fez com que as minhas hesitações se dissipassem. Eu tinha de ler este testemunho que, na sua genuinidade vulnerável mas harmoniosa, nos transmite uma mensagem poderosa e que marca. E não marca só o momento da leitura, crava-se nas nossas memórias, altera a nossa visão do mundo, da vida, do outro e do Eu.
Foi sem dúvida um grande momento que partilhei, de alguma forma, com o André, com a Tia Guida e com todo o grupo de pessoas que estas duas "personagens-tipo" representam e ilustram à luz da mais crua e cruel realidade.
É, no seu âmago, uma mensagem de esperança, uma história de força, um exemplo para todos, que me emocionou por diversas vezes porque me confrontou com a certeza de que somos todos tão pequeninos, vulneráveis e instáveis que tudo o que nos resta é o agora e, se não o aproveitarmos já e sempre, ele passa e nós nem percebemos que ele existiu!
Tive conhecimento deste livro através de uma entrevista ao autor, no programa Você na TV. A forma de falar deste jovem autor cativou-me ao ponto de querer ler o livro de imediato. E valeu a pena! O livro foi uma extensão da entrevista. É um relato real, que expõe os sentimentos de quem convive com um problema que afecta cada vez mais pessoas, o cancro.
Parabéns ao André pelo testemunho incrível e obrigada pela viagem e por cada palavra e lição de vida que deixou, que com certeza farão e marcarão pela diferença. Pelo menos a mim.
Um livro estupendo que não esquecerei tão depressa; uma leitura que recomendo a todos… sem excepção.
O relato de quem acompanhou de perto a luta de um ente querido contra o cancro, contado não para chocar mas para apoiar e ajudar a ultrapassar a perspetiva da perda.