Se você tivesse que definir o Brasil, sua história, sua cultura, seu povo, todas as suas variações, todos os seus detalhes, do Oiapoque ao Chuí, em apenas uma frase, quão longa essa frase acabaria se tornando? Uma ou duas décadas atrás, ela seria a mesma? E daqui alguns anos? Agora olhe a frase que seu vizinho escreveu e compare quantas diferenças existem entre as duas.
Sabemos que o Brasil é um país complexo, cheio de nuances e história, mas em 1985, João Amadeus Flynguer, empresário podre de rico e fã número um de Walt Disney, tentou dar uma definição do Brasil ao abrir as portas de Tupinilândia, seu projeto de vida faraônico. Misto de parque de diversões e cidade planejada, Tupinilândia foi construído em total sigilo no Pará durante os anos de ditadura, almejando representar e exaltar a cultura e a história do Brasil, a indústria nacional e, ao mesmo tempo, abarcar uma visão otimista para o eterno “país do futuro”.
A empreitada, porém, não se desenrola do jeito previsto, e está no centro do épico romance de mesmo nome, Tupinilândia, magistralmente construído por Samir Machado de Machado.
Ambientado em dois momentos importantes e complexos da nossa história recente, mas tendo sempre o parque como centro da narrativa, Tupinilândia explora o legado da ditadura sobre a república democrática e, mais importante, sobre a política pós-golpe de 2016.
A primeira parte se passa em 1985, quando o jornalista Tiago é convidado por João Amadeus para o primeiro final de semana de abertura do parque, onde convidados selecionados a dedo poderão experimentar o imenso mundo do parque.
É a época da transição de governo, do fim da ditadura e começo da Nova República, da complexa redemocratização e da infame anistia. Surgindo nesse período de transição, Tupinilândia tenta representar em todos os seus brinquedos, restaurantes, alamedas e performances não apenas o passado do país, mas também uma visão otimista de futuro. E o faz da forma mais consumista possível, seguindo o roteiro deixado por Walt Disney em seus gibis, filmes, parques e produtos licenciados.
“Em Tupinilândia tudo sempre daria certo, pois fora planejado para ser assim, para sufocar com a alegria do samba, o sabor das frutas e a rapidez de seus ritmos aquela tão sutil e oculta tristeza brasileira, tristeza que nascia do sentimento de fracasso pela miragem do progresso, do país do futuro, um futuro que se projetava constantemente à sua frente e fugia para longe na mesma velocidade com que se corria atrás dele. Em Tupinilândia a realidade cinzenta de inflações e desmatamentos descontrolados, dívidas externas e generais antipáticos, oligarcas grosseiros e celebridades vulgares seria trocada por outra versão da realidade, com seu colorido hiper-realista de gibi, onde tudo funcionaria perfeitamente, tudo seria sempre feliz e animado como num programa infantil onde todos teriam direito a prêmios.” (pg. 105)
Porém, por conta dos investimentos recebidos e de certa incompetência militar, Tupinilândia é alvo de uma tentativa de golpe nas mãos de integralistas liderados por um general ressentido com o fim de seu tempo no poder. (Não se preocupe, isso não é spoiler, está na orelha do livro.) Tupinilândia, então, se torna apenas mais uma obra faraônica dos anos da ditadura, esquecida no meio da floresta amazônica.
Com o fim do sonho de João Amadeus, o livro salta trinta anos no futuro, chegando aos igualmente complexos anos de 2015/2016, quando (bem lembramos) o país se convulsionou em um novo golpe político-midiático que visou tirar um governo de esquerda do país e substituí-los pela velha política de direita que se veste de centro só pelas aparências. Nesse contexto, Artur Flinguer, arqueólogo do IPHAN, consegue uma bolsa de apoio para ir atrás do mito de Tupinilândia, a cidade perdida na Amazônia, que ele conhecia apenas através dos gibis e copos plásticos de sua infância. Sua viagem, porém, não corre tão tranquilamente quando esperava, pois descobrem que Tupinilândia se tornou uma paranóica visão de país que extrapola a própria paranoia dos militares e dos chamados “cidadãos de bem” que chamam de comunistas qualquer um que discorde deles.
“O parque. A ideia. (...) É assim que Tupinilândia começa. E então se espalha, e contamina e nos deixa maravilhados com a mera hipótese da sua existência. (...) Tupinilândia traz consigo uma estética, uma paleta de cores, um conjunto de ideias e valores específicos, pensados pelo meu pai. O espírito de uma época, antes de tudo. De uma época em que ainda se pensava na possibilidade de futuros melhores.” (pg. 293)
Impressiona na escrita de Samir Machado de Machado a atenção aos detalhes na sua construção de Tupinilândia e na reconstrução histórica do país. Prepare-se para longas e densas discussões sobre o processo de redemocratização, a inflação rompante, o zeitgeist oitocentista brasileiro, o aparecimento da epidemia de HIV/AIDS, misturados aos personagens dos gibis do parque e muitas marcas nacionais de guaraná.
Além da reconstrução histórica recente e super-recente da Nova República, Tupinilândia tece discussões sobre a prevalência da nostalgia dos anos 80, que passou a influenciar diversas mídias e criar uma estética que encanta até mesmo os que não viveram nela. É uma nostalgia largamente baseada nos anos 80 como aconteceram nos Estados Unidos, pois, por aqui, a história foi bem outra. E, nisso, se encontra outra grande discussão que atravessa o livro em todas as suas camadas: a importação de valores e estéticas estrangeiros aplicados à nossa realidade, só passando uma demão de tinta com as cores da bandeira e chamando de nosso.
O próprio parque é um exemplo disso, criando uma espécie de Disneylândia tupiniquim com atrações como o Elevador Lacerda do Terror, ou o Castelo Encantado Piraquê. Mas o romance também discute como o Integralismo, o movimento fascista brasileiro, é uma cópia verde e amarela do nazifascismo europeu (que teve grande prevalência por aqui antes do Brasil trocar de lado na Segunda Guerra Mundial). E também como o temor de uma eterna ameaça comunista, importada do governo dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, segue moldando eleitores paranoicos que, entre outros, elegeram quem elegeram em 2018.
Além disso, o próprio romance utiliza esse modus operandi na sua construção. Tupinilândia conta uma história 100% brasileira, completa com todo o absurdo que nosso país é capaz de produzir semanalmente, nos fazendo rir para não chorar dia após dia, mas o faz sobre moldes e referências estrangeiras. Em especial, os filmes blockbuster dos anos 80 e começo dos anos 90, repletos de ação, drama e alívio cômico, como Jurassic Park (e sua sequência, O Mundo Perdido), que possui em João Amadeus Flynguer uma versão tupiniquim do John Hammond de Michael Crichton e de Steven Spielberg, completo com o bordão similar: “não poupei em pesquisas”.
Leitores atentos também pescarão influências de Duro de Matar, Indiana Jones e muitos outros filmes nos capítulos de ação, misturados a personagens criados por mentes brasileiras como o Capitão Aza, os automóveis Gurgel, os sorvetes Cairú e o Vigilante Rodoviário.
São figuras, tramas e referências nostálgicas, sim, mas que, na pena de Samir Machado de Machado, ganham contexto histórico e social, compondo, em Tupinilândia, um estudo e uma crítica do estranho fenômeno que é a nossa falta de memória da história recente misturada à adoração de uma imagem idealizada desses mesmo tempos.
“Então, a pós-modernidade fez da nostalgia uma reprodução, não uma imersão. E isso acontece porque a nostalgia é, essencialmente, história sem sentimento de culpa. E aceita desse modo, ela se torna uma abdicação da responsabilidade pessoal. Esquecemos que, socialmente, os anos 80 foram uma época de preconceitos intensos. Misoginia, racismo, homofobia, tudo mostrado de um modo tão agressivo que tinha o efeito prático de silenciar qualquer voz dissonante. Como a censura, isso tinha o efeito prático, anos depois, de gerar o famoso fenômeno da falsa memória, de um problema que não existia porque “ninguém falava nele”.” (pg. 267)
Isso pode tanto se traduzir em um voltar a usar polainas, penteados frisados, brincos imensos e jaquetas jeans largas para ir a uma festa onde a playlist “Anos 80” estará tocando no repeat, ou em pedidos encolerizados de uma nova intervenção militar, como infelizmente bem sabemos. Então, faz-se necessário o apelo de não esquecermos, jamais, a nossa própria história e seu contexto específico, suas nuances e episódios mais sombrios. E Tupinilândia, mesmo sendo um livro de ficção, já é um bom começo.