Este livro pretende ser uma resposta ao livro de Natalia Pasternak e seu marido Carlos Orsi: Que bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados à sério (São Paulo, Contexto, 2023) onde a psicanálise é tratada de pseudociência e equiparada a outras mais “reconhecidas”, como astrologia, homeopatia, reiki e outras. Não li o livro de Pasternak, até porque tinha lido livros semelhantes e mais bem fundamentados, como Imposturas Intelectuais de Brinkmont e Sokal. Mas tinha folheado numa livraria e visto que o livro ia dirigido a um público geral, com argumentos simples, as vezes simplistas, e una bibliografia razoável.
O perigo de dar una resposta é aquela que atribuem a vários autores, Oscar Wilde entre outros, “Nunca discutas com um estúpido, te obrigará a descer ao seu nível e aí ele vai te ganhar.” Dunker e Iannini eludiram essa armadilha. Subiram o nível do debate, exageradamente, demais, o texto parece preparado para especialistas, cheio de referências bibliográficas e usando vários termos usados por especialistas e que são colocados sem explicação. Por outro lado, para o leigo tem muitas coisas que aparecem como repetidas em diferentes pontos do livro, como por exemplo as críticas de Kierkegaard a Freud, ou a comprovação de que a psicanálise é efetiva no tratamento de sintomas.
Teve argumentos que achei petulantes, do estilo de a psicanálise é una ciência porque todo ano se publicam centos do artigos em revistas internacionais de prestigio que passam pelo crivo de referees, ou que Grümbaum, um dos críticos mais sérios, foi convencido pelas evidencias dos estudos clínicos feitos por certo grupo de pesquisas.
Não gostei das coisas contadas a meias, na página 252 começa um parágrafo com a frase: “Lembremos que a contingência é um dos quatro modos da lógica descritos por Aristóteles…”, como se todo mundo tivesse lido Aristóteles e lembrasse da sua lógica de cor. Na página 254, tem una metáfora quase ridícula sobre os planetas, Terra, Mercúrio, Vênus e outros giram há 4,5 bilhões de anos (não verifiquei o dado) sem direito a férias… Na página 256 dizem que na segunda parte de Projeto de una Psicologia, Freud apresenta o caso Emma e que una das questões desse caso refere-se à temporalidade retroativa do sintoma. A discussão continua sem descrever o caso Emma nem os sintomas, como se o leitor fosse obrigado a conhecer. Eu não conheço. Não sou psicoterapeuta nem lembro de toda a obra de Freud, caros Dunker e Iannini. Citei esses exemplos, porque como comprei o livro em papel, não marquei pontos anteriores, mas ao longo do livro se sucedem casos explicados parcialmente ou não explicados, refutação de críticas sem dizer como foram refutadas, coisas que vão ser discutidas mais adiante e que se perdem no inconsciente e assim por diante.
Para coroar, o livro termina com una minibiografia dos autores. Dunker é lacaniano. Não consigo levar Lacan a sério desde que li que para ele a unidade imaginária i dos números complexos é una representação do órgão sexual masculino (tal vez tentava, como dizem os autores, una explicação matemática racional da psicanálise). Também diz que tem filhos gêmeos com ascendente em escorpião, enquanto Iannini diz ser escorpionano com ascendente em câncer. Só posso pensar que se trata de uma private joke dirigida ao casal Pasternak-Orsi.
E já estava esquecendo. Depois de 285 páginas de argumentação os autores concluem que a psicanálise não é nem ciência nem pseudociência… Comprei a refutação esperando aprender alguma coisa sobre os fundamentos científicos da psicanálise, especialmente porque gosto muito dos textos do Freud, mas senti que desperdicei meu tempo.