As Crónicas 1998/2013 e As Outras Crónicas 2013/2019 dois volumes que reunem muitas das crónicas que António Lobo Antunes escreveu entre 1998 e 2019.
Embora fossem sempre desvalorizadas pelo Escritor,
"comecei a escrever crónicas porque precisava do dinheiro"
"Voltei a escrever crónicas porque pedi um valor exorbitante e eles aceitaram".
Estes textos são talvez a maior biografia/diário que irão encontrar sobre ALA.
Aqui vemos retrada a infância e a adolescência ou o sofrimento a escrever em alguns momentos, as doenças os amores e a familia. A Morte dos amigos e alguns familiares....
Com uma escrita em prosa poética sem ser textos trabalhados que exigem toda a nossa dedicação como a sua obra,
Estas crónicas de Lobo Antunes são um enorme romance biográfico de Portugal dos portugueses e do próprio escritor,em nenhuma entrevista ele se expôs como nestes textos.
Excerto de uma crónica
"É o que mais me persegue. A minha mãe, na sua cadeira, a pedir aos filhos - Tenham misericórdia de mim. O sofrimento destas palavras ainda não parou de doer-me. Mãe. Dizia- lhe versos, lembra-se? Era muito inteligente, a mãe. ○ que eu desejava voltar para a barriga dela
-Mãe
- ○ que foi?
-Quero voltar para a sua barriga. E o sorriso dela quando eu pedi isto, tão sincero. A varanda para a serra, em Nelas. Os castanheiros. O meu avô, de casaco branco, a ler o jornal. Agora estou a sorrir porque vi o D. João I Borges, o mendigo oficial, a subir a vinha, de barba comprida. Isto, em compensação conservei tudo. A burra, ○ Virgílio na carroça, o barulho da bomba de água. O João e eu a partirmos pinhas com uma pedra. Os correios, o sol na vila, ○ nevoeiro na Praia das Maças, até aos ossos. Um menino na praia a que o avô chamava - Serafim e não tornei a ver. O vendedor de barquilhos. Os caranguejos da vazante. O mar à noite, a passar a cabeça enorme no parapeito da janela do meu quarto, fitando-me. Luzes de barcos distantes. 0 meu pai a acender o cachimbo em silêncio. O senhor do café, o senhor Franquelim. Também já não há Franquelins. Cigarros às escondidas uma gaivota sem uma pata. Olha, afinal falo mais do que pensava. Lia Sandokan, Soberano da Malásia e adorava."
Leiam vale muito muito a pena...