Para alguns, este livro servirá de ponto de partida para entender como foi possível que um único sistema agroalimentar se espalhasse física e ideologicamente pelo planeta. Para outros, será um ponto de interrogaçã por que cultivos que não alimentam seguem se expandindo ano após ano — e, pior, contando com uma profunda complacência diante da promessa eternamente renovada de que a solução para o problema da fome está finalmente a caminho? No Brasil, a soja, esse grão exótico que nenhum de nós come, é o vetor de uma guerra cultural chamada agronegócio. É o micro-organismo que une o latifundiário dos Pampas ao grileiro de Santarém, no Pará; o prefeito no interior de Mato Grosso ao desembargador no litoral da Bahia; o cantor sertanejo ao dono do frigorífico. Debaixo de colheitadeiras e biotecnologia, por trás da face tech, o recurso didático é o mesmo de a pólvora. É o colonialismo na forma de venenos que os europeus já não querem e do mito da agricultura de precisão, que fumiga os vizinhos dos latifúndios, adoecendo o corpo e afetando a mente. Junto com o casco do boi, a soja transgênica expulsa o Guarani e o Kaingang no Sul, o beiradeiro da Amazônia e o geraizeiro no Cerrado. A onça, a sucuri e a capivara. O arroz, o feijão e a mandioca. Expulsa, violentamente, a crítica — inclusive a de Larissa, obrigada a se mudar para a Bélgica após uma série de episódios traumáticos. Quando tudo já era suficientemente trágico, eis que o agronegócio e o mercado financeiro encontraram no bolsonarismo a possibilidade de catapultar a acumulação primitiva e a destruição do planeta. Desse encontro nasceram o dinheiro e a estrutura necessários para dar ritmo de progressão geométrica à expansão da soja, que ameaça se tornar a primeira cultura agrícola a reinar do extremo sul ao extremo norte do país. O futuro não está nas páginas do livro de é ao presente que ela nos convida, à urgência de um fim de mundo que se apresenta voraz. A pesquisadora reflete sobre a perseguição à cultura camponesa — especialmente às mulheres — e nos conclama a entender por que os conhecimentos acumulados ao longo de séculos são a única esperança de nos salvarmos do capitalismo.
todo brasileiro deveria ter um exemplar desse, esse livro deveria ser leitura obrigatoria nas escolas. sem palavras mesmo fugindo, não há saída. Nós, brasileiros, estamos respirando e nos alimentando de veneno.
Trechos que achei importante e dos quais quero me lembrar:
"A área destinada às commodities e à agroenergia continua crescendo, enquanto o espaço destinado a culturas agrícolas consideradas pilares da alimentação brasileira - arroz, feijão e mandioca - se reduz ano a ano." (pág. 26)
"Apesar de as áreas de maior desflorestamento da Amazônia estarem localizadas em sua porção oriental, nota-se que os estados que apresentaram as taxas mais expressivas de desmatamento entre 2010 e 2019 são [...] estados não contíguos às outras regiões do país ou à fronteira agrícola em expansão - o que é, de fato, muito preocupante, pois indica uma devastação 'de dentro para fora'." (pág. 40)
"Além de 'campeão mundial' no uso de agrotóxicos, [...] o Brasil também ostenta o título de país com os maiores índices de violência no campo e lidera o ranking de assassinatos de defensores socioambientais." (pág. 45)
"Marx falava em pessoas transformadas em anfíbios, expressão que [...] ilustra uma transformação corporal em decorrência da condição de vida e trabalho imposta aos camponeses expulsos das terras altas na Escócia. Marx relatava, portanto, uma adulteração, uma deformação física, imposta ao organismo humano. Atualmente, estamos diante [...] de adulterações químicas dos corpos." (pág. 48)
"Apenas em 2018 e 2019, a União Europeia exportou para o Mercosul mais de 6,84 mil toneladas de agrotóxicos proibidos em seu território." (pág. 69)
"O Brasil é um dos principais destinos de agrotóxicos proibidos na União Europeia. Dos dez agrotóxicos mais vendidos no país, cinco estão banidos na Europa [...]." (pág. 72)
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Não é à toa que Larissa Mies Bombardi viu-se obrigada a refugiar-se na Europa. Seu trabalho denuncia a alarmante situação do Brasil no que se refere ao uso indiscriminado de agrotóxicos, muitos dos quais proibidos no países do norte global que os produzem. "Agrotóxicos e colonialismo químico" é, em suas poucas dezenas de páginas, uma excelente introdução ao dramático problema, uma leitura tão fácil e rápida quanto desesperadora.
Ótimo livro para quem quer começar a entender mais sobre o impacto dos agrotóxicos na sociedade. Mostra uma série de dados alarmantes e os analisa sob uma ótica marxista. Ganhou "apenas" 4 estrelas pois deixa um gosto de "quero mais", já que os micro temas são passados de forma concisa para cobrir o máximo possível sobre o assunto.