Conhecido por suas histórias inquietantes, Marco Severo chega ao seu quinto livro de contos com um título Não há castigo maior do que um amor que dure para sempre. Um título que pode nos causar, de saída, diversas sensações e questionamentos. Por que um amor que dure para sempre seria um castigo? Pode um amor durar para sempre, sendo a própria vida finita, ou seria aqui um “para sempre” nos moldes de Vinicius de Moraes que, sabendo ser o amor fadado ao fim, “posto que é chama”, que seja infinito enquanto dure? Qual é a real medida do eterno? A obra evoca também Nelson Rodrigues, presente através dos “interlúdios rodrigueanos”, em que Severo busca um diálogo com a obra do autor pernambucano – um provocador de primeira – por meio de contos que ecoam sua obra, mostrando que a realidade – fragmentada, tecnologizada, dura como seja, continua a mesma, porque o ser humano, matéria-prima da qual são feitas estas histórias, também continua o mesmo, não importa o tempo que passe. Em contos que evocam os mais diversos tipos de relações humanas, Marco Severo coloca diante do leitor uma obra profundamente eivada de dor e beleza, de recomeços e buscas por novos caminhos e, sobretudo, da complexidade labiríntica que é estar vivo.
Marco é um estudioso do conto e, como tal, certamente está em ótimas condições ao escrever também os seus próprios contos. São textos bem escritos e bem construídos, que podem lidos com facilidade - a não ser por eventuais choques com a crueza de certos relatos de quem o amor não durou para sempre. Acho que ela desenvolve tramas bem interessantes, ainda que, pela proposta do livro, muitas vezes elas descambem para tragédias impressionantes. Os "interlúdios rodrigueanos" são um ponto alto, pois é sempre bom evocar o velho mestre. Acho que eu teria dado 4 estrelas, se o último conto não tivesse me desagradado (é a história mais sexualmente crua, e também é extenso). Há vários contos que achei "legais", como "A última pá", "O primeiro a pular", "O último mugido" e outros, mas não tantos que, em uma leitura pessoal, naturalmente, fiquem guardados na memória.
(Lido em versão e-book, 13-09-2025. Sugestão de leitura feita por Ana Lima Cecilio, em sua newsletter A Lábia, edição 30, intitulada "Conto" (25-08-2025). )
Há certa desigualdade de resultados entre as histórias, descambando pontualmente no artificioso. Em seu melhor, especialmente nos primeiros três contos, há uma fluência de desenvolvimento capaz de exercer forte atração. O que, curiosamente, coincide com as passagens de maior violência (p.ex., "O primeiro a pular"). O diálogo explícito com Nelson Rodrigues consegue ir além do derivativo. Sendo o meu primeiro contato com o autor, me sinto estimulado a explorar mais seu universo ficcional.