"Muitos dos temas aqui tratados são de profunda relevância e merecem muitas oportunidades para que sejam objetos de reflexão e diálogo. Vera Saad, excelente escritora, nos presenteia com uma protagonista que desperta nosso afeto e nos emociona. Um presente para quem lê e uma habilidade inquestionável de quem escreve." Jarid Arraes Na sua história recente, desde a redemocratização, o Brasil passou por muitas transformações e crises, principalmente econômicas. Talvez uma das mais marcantes tenha sido aquela do início do governo Collor, quando o autointitulado caçador de marajás confiscou as contas de todos os brasileiros. As famílias foram impactadas em diversos níveis, muitas vezes com consequências irreversíveis. A face mais doce do azar conta a história de uma família dessas, da época do recomeço do país depois da ditadura, de brasileiros comuns que sofreram com a sequência da irresponsabilidade de seus políticos – um fantasma que continua nos assombrando em ciclos da nossa história. Dubianca era uma pré-adolescente quando os fatos amargos que narra começaram a definir como seria sua chegada à adolescência. Observadora, a menina foi tentando compreender como as transformações do país estavam agindo sobre as relações entre as pessoas à sua volta. Vera Saad confere à sua narradora uma voz falsamente leve, em que as frases curtas denunciam as fissuras nessa mulher que volta a um pedaço do seu passado com sabor amargo.
a face mais doce do azar é narrado pela dubiana, uma menina de treze anos que atravessa sua infância e adolescência em meio ao colapso de uma família devastada pelo confisco das poupanças no governo collor. a narrativa mistura acontecimentos históricos, da era do cruzado à eleição e ao impeachment, com a intimidade de uma vida marcada por perdas sucessivas: financeiras, emocionais e afetivas. é um retrato duro de como a política atravessa a vida cotidiana, arrancando não apenas economias, mas também infância, sonhos e até a fé.
ler (ou melhor, ouvir) essa história foi sufocante e poderoso. dei 4,5★ e saí completamente triste, sentindo que a dubiana teve a infância roubada pela falta de tudo: dinheiro, esperança, lugar, amor. o livro mostra não só os efeitos econômicos de collor, mas como isso desencadeou surtos psicóticos, abusos físicos e psicológicos, traumas profundos que ela não merecia viver. a cena final, em que ela diz que com deus aprendeu apenas a odiar, foi uma das coisas mais devastadoras que já li.
cresci ouvindo relatos familiares sobre o confisco, mas sempre como lembranças distantes. esse livro deu rostos e nomes a essa dor. foi impossível não pensar “e se fosse eu?”. a primeira pessoa da narradora faz com que o estômago aperte e as mãos suem, como se estivéssemos presos dentro daquela realidade.
no fim, é uma história sobre miséria, loucura e perda da inocência, mas também sobre memória coletiva. daqueles livros que ecoam e não deixam a gente sair ileso.
a perda da inocência, a miséria e a loucura em meio às catástrofes do governo Collor, pelos olhos de uma menina de treze anos. foi muito bom, talvez o único problema seja ser tão curto, queria mais! um carinho especial pela singela homenagem ao “A vida mentirosa dos adultos” e outras similaridades com a obra da Ferrante, que tanto amo, com um gostinho de brasil
3,5 ⭐️ É sempre muito interessante ler sobre a realidade de outro país, neste caso os anos pós ditadura no Brasil. Aprendo sempre muito e este livro tem o acréscimo de nos trazer aquela realidade pelos olhos de uma miúda a fazer-se mulher…gostei!
2⭐️ quando o livro começa a ficar interessante, ter uma narrativa que algo acontece, ele acaba
não me prendeu, nem a história nem os personagens. achei os diálogos desconexos, a narrativa muito das vezes desconexa, lenta demais. só não dei 1 estrela pelo rumo que a história tomou no final, mas mesmo assim, o livro não me ganhou e não funcionou pra mim.
[audiobook] um 2.5 talvez? foram abordados tantos assuntos que no final me pareceu só um amontoado de assuntos desconexos, mas me marcou de alguma forma
É bem interessante ver um recorte de um Brasil que atualmente não é tão falado nos livros (o período Collor). Porém, por mais que a narrativa da autora seja envolvente, sinto que a quantidade de assuntos abordados em um único livro me deixou um pouco perdido, sem saber em qual deles eu deveria focar ou entender, qual ponto a autora quer firmar.
O pano de fundo político faz com que diversos momentos da vida de Dubianca se tornem mais complexos e profundos, já que o acesso à informação, desde a infância até a vida adulta, contribuiu para que ela compreendesse melhor a complexidade da sociedade em que vivia.
Foi uma boa leitura, mas sinto que, no momento em que achei que teríamos mais um desfecho na história da personagem, o livro acaba de repente com uma frase “impactante”. Para mim, parece que finalizamos mais um capítulo dessa história, e eu estava pronto para ver uma Dubianca ainda mais madura e com novas informações, principalmente pelos acontecimentos dessa última parte do livro, mas, isso não aconteceu.
"Não seríamos nós o ponto de fuga? Uma conversa é também um arrenedo de imprecisões. Uma imagem borrada de algo que se diz. A procura na vista daquilo que se ouve. A busca por qualquer sentido no encontro de duas paralelas."
Este libro de Vera Saad lleva por dos caminos que parecen paralelos y terminan siendo sorprendentemente intrincados, determinantes. El contexto de la realidad brasileña con la llegada al poder del olvidable Collor de Melo y la escala cotidiana de un crescendo que discurre de forma lenta y angustiante, para llegar a la catástrofe sabida. Ese contexto, además de apuntar a la memoria obligatoria y necesaria, sirve de espalda, de transporte, a otra realidad, donde unas vidas se decantan, en particular la de Dubianca, una personaje entrañable que lleva puesto su drama íntimo a lo largo de la novela. Nos lleva de la mano por unos escenarios que poco a poco detonan el dolor, la ausencia y el tránsito a las nuevas etapas de una vida que no sabemos por donde va a fluir.
El contexto histórico llama a la reflexión, en tiempos que se repiten, con la llegada al poder de populistas y autoritarios. El contexto personal convoca la empatía y el cariño.
“A Face Mais Doce do Azar”, de Vera Saad, é um livro curto, com uma escrita impecável. Dá para devorá-lo em um dia, mas no meu caso foram dois — vida adulta, né?
O que mais me encantou foi a forma como a história se entrelaça com a era do cruzado no Brasil, passando pela eleição de Collor até seu impeachment. Esse pano de fundo histórico dá ainda mais força à narrativa.
Ao longo da leitura, senti raiva, piedade, tristeza e alívio. Para um livro tão curto, ele conseguiu me surpreender. Um dos trechos que mais me marcou foi:
“Durante muito tempo sintonizei contigo porque conhecia a tua vida através da minha própria existência e porque queria ajudar-te. Mantive-me perto de ti porque via que te era útil e que aceitavas o meu auxílio com prazer e, não raro, com lágrimas nos olhos. Só aos poucos percebi que o aceitavas, mas que não eras capaz de defendê-lo. Defendi-o e lutei para ti, por ti. Foi então que os teus chefes destruíram o meu trabalho e que tu os seguiste em silêncio…”
Esse trecho me fez refletir sobre submissão, alienação e a dificuldade de se libertar de certos ciclos. A forma como o livro explora essas questões, ligadas tanto ao contexto histórico quanto às relações pessoais, é brilhante.
O final, no entanto, não me impactou tanto quanto eu esperava. Talvez eu tenha criado expectativas demais, mas isso não tira o mérito da obra. Vale muito a pena a leitura!
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Quanto é preciso para enlouquecer? Cresci ouvindo histórias sobre o confisco das poupanças nos 80 e criava na mente uma imagem dessa situação. Esse livro me colocou lá: ele deu rostos, nomes. Uma família completamente impactada pelo drama de perder toda sua economia. Uma dor que a minha geração e as outras depois da minha não tem a menor ideia do que seja. Essa história de duas primas - que me lembraram Lila e Lenu (as Ferranters irão me entender) - fez com que eu fosse atravessa por memórias familiares anteriores ao meu nascimento. Sinto que quando a história é ambientada num panorama real o estômago percebe. As mãos transpiram e não temos como fugir do "e se fosse eu?". Principalmente aqui onde a narradora nos traz a trama em primeira pessoa.
Alguns trechos que me atravessaram: "O que sentia por minha avó oscilava entre birra e carinho."
"Passei a associá-la a implicância, mofo e gotas grossas de chuva."
"Já ouvi dizer que uma das maiores causas da loucura é a miséria. Não imaginava que meu pai tivesse caído na loucura, tampouco que estivéssemos na miséria. Mas algo nele continha ambas as coisas."
Adoro quando narrativas consideradas adultas São contadas sob o ponto de vista de crianças e adolescentes. A autora é certeira em fazer uma ambientação histórica a partir das sutilezas das observações de uma pré-adolescente
O livro receberia uma nota maior se a autora não tivesse tentando colocar tantos assuntos em um livro só — acabou não concluindo nenhum, de fato. O tanto de assunto que tem aqui daria uns 10 livros. Queria que as coisas tivessem um desfecho, uma explicação, algo. Faltaram páginas. Além disso, fiquei com a sensação de que ela foi má com a protagonista a troco de nada. O enredo do início e meio do livro era um, e era bastante promissor — minha nota estava alta aí. Do meio pro fim se tornou uma outra coisa totalmente diferente, de modo que foi esquecido o começo. O foco não era o presidente e a família? Por que todas as garotas são retratadas como essas safadas promíscuas? Por que nenhum pedófilo é exposto? Por que acrescentar crimes de est*pro tão facilmente na história sem uma resolução satisfatória, pelo menos pra quem tá lendo? Ultimamente eu tenho lido cenas de est*pro que parecem ter sido colocadas nos livros de forma tão gratuita, pra chocar ou pra ser considerado um livro "pesado" — precisamos reavaliar: é realmente necessário?
Eu gostei da narrativa, gostei dos assuntos até o meio do livro, gostei da fluidez da leitura e de como as cosias estavam se desenrolando. A escrita dela eu também achei muito boa. Mas se tivesse focado, eu teria gostado desse livro muito mais.
como são complexos os fins que não esperamos, né? foi terrivelmente angustiante chegar ao fim e me dar conta que o livro havia acabado.
saad escreve de uma forma brutal que abraça, uma lembrança remota da escrita de ferrante porém com um jeito diferente, um jeito singular, “tão dela”.
uma história narrada por uma adolescente, em que o cenário político é o centro da narrativa que costura vários tipos de violência contra: filhas, amigas, mães, avós, homens que carregam e perpetuam a marca do patriarcado. um livro tão brasileiro, “tão gente da gente”, vivências que pelo menos algumas dela você já viveu ou se deparou.
no último capítulo perdi o fôlego para encontrar o rumo. por aí, acredito que bons livros são assim: nos desatinam para retomar outras maneiras de pensar e caminhar.✨🍂
Triste demais. A gente logo se encanta pela Dubianca, que é apenas uma adolescente, com tanta coisa ainda pra viver, mas que está enfrentando um momento muito difícil. Acompanhamos sua família se desestabilizando totalmente com a perda das suas economias durante o governo Collor. Eu gosto de livros com convivência em família, mostrando a casa da vó, as conversas com a prima, os parentes falando mal um do outro e dos políticos. Ouvir o audiobook tornou os xingamentos ainda mais engraçados. Mas o clima de fofoca inocente do início vai piorando cada vez mais, chegando a um ponto realmente muito pesado. O final corta o nosso coração.
Foi uma boa leitura, mas fiquei com a sensação de que acabou de repente. Eu ainda não estava pronta pra terminar assim.
Se você já leu Marcelo Rubens Paiva, você vai gostar deste livro. A história é narrada por uma criança que assiste de perto os impactos negativos da política atingirem e destruírem a sua dignidade e a da sua família.
A autora atravessa uma fronteira entre história, ficção e política trazendo a utopia e a distopia em destaque na literatura contemporânea - que é uma das minhas favoritas -.
achei ok. tem uma boa escrita e uma história envolvente até certo ponto, mas depois (pro final) achei que a autora adicionou temas importantes que não tiveram um bom desenvolvimento. mas gostei bastante da parte da família e do pai da personagem, tendo como cenário de fundo o período do confisco do fhc.
Eu amei esse livro, mas fiquei muito mal com as cenas de . Eu ouvi o audiobook, e a narradora foi incrível, como se ela realmente fosse quem contava a história, até eu descobrir que a escritora é quem narra.
Acho que preciso de mais um dia para processar todas as informações. O livro é curto, mas muito acontece e no meio de toda a turbulência envolvendo adolescência, ditadura militar, crise política e abusos tentamos entender a perspectiva de Dubianca. A protagonista de 13 anos que é forçada a entender, ou tentar entender, um mundo confuso e cruel.
Parecia só mais um conto sobre a vida de uma menina, mas ela vai te envolvendo de uma forma que você quer saber onde vai dar. E o final te deixa esperando.
“Já ouvi dizer que uma das maiores causas da loucura é a miséria. Não imaginava que meu pai tivesse caído na loucura, tampouco que estivéssemos na miséria. Mas algo nele continha ambas as coisas.”
um recorte de memórias da autora que, talvez sem querer, seja também uma historiografia. A forma como a sombra da ditadura estabelecida pelo golpe de 64 ainda assombrava, a mobilização popular do movimento dos caras pintadas e o domingo negro. A narração despretensiosa da autora de, embora ter feito parte deste evento, não ter percebido o impacto da situação no momento. É interessante ver como muitos momentos históricos por vezes são apenas eventos quase que rotineiros.
Esqueci de escrever sobre esse. Leitura interessante que se inicia no período Collor, e fala muito sobre os impactos do confisco das poupanças na vida cotidiana das pessoas comuns, como destruiu vidas e moldou a desconfiança que o povo brasileiro tem para com o Estado. Interessantíssimo, porque é um período da nossa história um pouco escanteado na literatura (ao menos nos livros que leio), com muitas obras sobre o período militar e seus reflexos, mas não sobre o duro período pós redemocratização
Minha ressalva é somente que parecem dois livros em um. Talvez a autora tenha tentado fazer um romance de formação, uma menina crescendo e virando adulta, passando pela perda de inocência e dificuldades familiares, mas os dois conflitos principais, apesar de uma leve relação de causa-consequência, não parecem conectados na construção narrativa da protagonista. O saldo final é de sentimentos mistos e de confusão quanto o que acabei de ler
Mas é um bom livro, curto e de escrita legal. Audiolivro narrado pela própria autora, mas ela faz um bom trabalho. Não me foi memorável, mas é legal
Adorei o livro, no começo fiquei um pouco confusa para onde o livro estava indo, decidi não pesquisar nada sobre quando fui ler, mas o livro é bem envolvente. Ver a protagonista amadurecendo e começando a entender como o mundo ao redor dela funciona de maneira tão horrível, realmente nenhuma criança deveria ser obrigada a passar por isso. Ler a narração dela dos eventos era como ver um acidente de carro em câmera lenta. Horrível a forma como ela própria silenciou a sua dor, e não tinha ninguém ao redor dela para se apoiar. A vergonha e a culpa do que aconteceu com ela soam bem familiares, pensei que com a avó dela, ela encontraria algum conforto, mas não. Pelo menos ela saiu daquela casa.
O livro é bem rápido de se ler, de uma sentada só. Os capítulos não são tão longos e as coisas vão acontecendo de maneira rápida e lenta ao mesmo tempo.
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Não tenho muito o hábito de resenhar os livros que leio, mas senti mais uma vez a necessidade.
A história de Dubianca não é nada mais nada menos do que a história de grande parte da população brasileira nos anos 90. A fome, o desespero, a tristeza, a solidão e a angústia de saber que tudo lhe foi tirado de um dia para o outro. O relato aqui é muito forte, a perspectiva de uma garota que vê o sofrimento da família e se vê refém e indesejada a vida toda por aquele que deveriam amá-la. Do meio pro final esse livro conseguiu me pegar um modo muito direto e sincero, a crueldade a qual essa menina foi apresentada sobre o mundo de uma hora pra outra me abalou profundamente.
A perda do pai, em seguida a mãe em desespero, o crescente desejo de saída da casa que morava/sobrevivia, mãe se casando, o estrupo vivido por essa menina por um homem nojento e manipulador, as amizades tóxicas que não lhe foram alertadas pq estava praticamente largada sozinha ao mundo.
Esse livro me fez refletir que mais que tudo, a convivência de um lar instável é o caminho exato para a escuridão daqueles que saem dele. Dubianca é o exemplo de um pai mentalmente instável e sem condições, de uma mãe que não me move, de uma família que não vê sua presença como necessária. Nos mostra o quanto o homem é um ser que depende do outro de modo muito direto. O quanto o pensamento político e a falta de uma leitura e de uma perspectiva de mundo pode impactar toda uma sociedade. O plano Collor foi o divisor de água de toda uma população, que dilacerou famílias, fechou negócios e acabou com vidas.
A principal reflexão imposta aqui também é a propaganda que nós é passada. Os pais de Dubianca são facilmente manipulados pela visão simplista de uma política que mente, que corrói e que destrói. O tio ainda se mantém contra - mas um homem contra o resto mundo não é nada mais uma pedra no caminho que pode ser descartada. A vó é o retrato daqueles que foram inseridos num contexto de preconceito e de normas que não existem, mas que impõem ao outro sofrimento e angústia.
Debianca era forte - e ainda é -, uma garota cheia de sonhos que lhes foram roubados pelo despertar da vida que te destroça e te mostra o quanto a decisão de uma minoria pode acabar com a vida de tantos.
Esse livro é cheio de nuances, de detalhes e de camadas. Se eu fosse falar sobre ele, ficaria aqui o dia todo - é incrível em todos os campos o quão se adentra. A escrita é instigante, a perspectiva simples, porém intrigante de uma criança que cresce nesse ambiente nos faz devorar essa história vorazmente.
Vera Saada nos faz sentir, chorar, pensar e amar alguém tão simples, mas representativa de milhares de pessoas ao redor desse país inteiro. Nenhuma nota além de 5 estrelas entraria melhor para descrever meu impacto ao ler isso. Com certeza consumirei mais obras dessa escritora tão perspicaz e realista.
Indico fielmente a todos que leram a essa resenha, você não se arrependerá. E espero que amem Debianca tanto quando eu amei.