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Marinheira no mundo

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"É janeiro outra vez." A literatura de Ruth Guimarães aflora todos os nossos sentidos, mas tem cheiro de terra. E é como cronista que esse cheiro exala com mais força. Não apenas pela própria narrativa que esse gênero propõe, mas pela capacidade de Ruth ser uma "observadora-vivente", de ver o outro sem máscaras e de se deixar ver. As crônicas reunidas neste livro nos trazem o Brasil visto, escrito, vivido por uma mulher que pertence a si mesma e aos seus filhos, que não recusa suas raízes e que faz da literatura a sua própria potência. Ruth nos apresenta um país com rostos, nomes, cores, línguas, preces e dilemas, não aquele do mapa, dos livros de história e dos cartões postais. Ruth escreve o que vê, o que sente, o que pesquisa, o que vive. O Brasil de uma mulher negra, pobre, professora, escritora, caipira… Marinheira no mundo pela sua literatura…

252 pages, Paperback

Published October 20, 2023

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Ruth Guimarães

21 books21 followers
Nascida em Cachoeira Paulista-SP, em 13 de junho de 1920, Ruth Botelho Guimarães, além de poeta, romancista, contista, cronista, jornalista e teatróloga, notabilizou-se como tradutora e pesquisadora da literatura oral no Brasil.1 Além disso, lecionou Língua Portuguesa por mais de 30 anos em escolas da rede pública de São Paulo.

Ainda menina, revelou-se poeta e, aos dez anos de idade, já publicava seus primeiros versos nos jornais A Região e A Notícia, ambos de circulação local. Aos dezoito anos, mudou-se para a capital paulista a fim de prosseguir seus estudos na USP, onde concluiu os cursos de Filosofia e, mais tarde, de Letras Clássicas. Cursou também Folclore e Estética.

Como jornalista, colaborou na imprensa paulista e carioca, mantendo também por vários anos uma seção permanente de literatura nas páginas da Revista do Globo, de Porto Alegre, em que resenhava livros, mantinha um concurso de contos, e onde publicou seus primeiros textos literários e traduções. Escreveu, também, crônicas e críticas literárias nas páginas de Correio Paulistano, A Gazeta, Diário de São Paulo, Folha de Manhã e Folha de São Paulo.

É como romancista que Guimarães consegue projeção nacional. Em 1946, publica Água funda, obra aplaudida por intelectuais de peso como Nelson Werneck Sodré e Antonio Candido, que assina o prefácio da segunda edição. Para o crítico, "Ruth Guimarães nos prende porque tem a capacidade de representar a vida por meio da ilusão literária, graças à insinuante voz narrativa que inventou." (2003, p. 11).

Com o romance Água funda, Ruth Guimarães oferece uma intensa e deliciosa viagem pelo universo caipira da fazenda Olhos D'água, localizada em uma cidadezinha do interior mineiro, aos pés da Serra da Mantiqueira. O mundo de atmosfera mágica por onde desfilam senhores e sinhás, contadores de casos, ou causos, e no qual a superstição e o sobrenatural muitas vezes orientam a vida cotidiana. (apresentação da autora durante debate no Museu Afro Brasil, em 2007).

Pode-se dizer que Ruth Guimarães foi uma das primeiras escritoras negras a ocupar espaço nacional no cenário da literatura brasileira. Estudiosa da cultura popular, principalmente do folclore, e autora de diversas obras que valorizam essa vertente da nossa cultura, Ruth teve como mestre ninguém menos que Mário de Andrade. Segundo a escritora e pesquisadora, Mário foi o grande responsável por apresentá-la melhor ao folclore brasileiro. Entre suas dezenas de publicações, destacam-se, além de Água Funda, Calidoscópio - A saga de Pedro Malazarte, Lendas e Fábulas do Brasil, Contos de Cidadezinha e o ensaio Os filhos do medo. Traduziu Balzac, Dostoievski, Daudet e Apuleio, além de ser autora de um importante dicionário da Mitologia Grega.

Em 18 de setembro de 2008, a escritora foi empossada na Academia Paulista de Letras, sendo eleita imortal em 5 de junho do mesmo ano, com 30 dos 34 votos válidos. Às vésperas de completar 89 anos, foi convidada pelo prefeito Fabiano Vieira para assumir a pasta da Cultura em Cachoeira Paulista, na sua cidade natal. Após aceitar a proposta, afirmou que estava ansiosa para trabalhar de forma efetiva pela sua cidade. Ruth Guimarães também integrou importantes entidades culturais, como o Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade e a Sociedade Paulista de Escritores.

Com a saúde debilitada, faleceu, aos 93 anos, em 21 de maio de 2014.

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Profile Image for Caroline Sol (Drinks & Livros).
191 reviews9 followers
April 18, 2024
Livro de crônicas .

Achei umas tão lindas, tão poéticas... mas o nível não é mantido ao longo da leitura. Acho que melhor do que publicar tantas, valeria mais uma seleção mais cuidadosa, porque em diversos momentos tive vontade de largar por achar cansativo. Aí de repente me deparava com um texto lindo. Um pouco inconsistente demais para o meu gosto.
Profile Image for Dulcinea Silva.
281 reviews
July 27, 2025
Ruth Guimarães: uma marinheira que retorna à superfície

Esse livro chegou a mim pelo Clube de Leitura Severina. De Guimarães somente conhecia o adorável romance Água Funda. Marinheira no mundo é uma coletânea de crônicas da escritora. Ele se inscreve com beleza no atual movimento de resgate de vozes literárias que, por diversos motivos, permaneceram à margem. E que bom que Ruth esteja voltando agora, num momento em que estamos aprendendo a escutar de outros modos.

Ruth Guimarães é uma dessas autoras que desafiam o cânone: mulher, negra, interiorana, escritora, tradutora, pesquisadora. Sua escrita, lírica e sensível, sempre dialogou com o cotidiano e com as tradições culturais brasileiras, mas durante décadas sua obra ficou fora do radar das grandes instituições. Seu nome costumava surgir mais como curiosidade do que como parte essencial da literatura brasileira. Isso vem mudando. E Marinheira no mundo é uma chave para entendermos por quê.

Neste livro, Ruth reúne crônicas sobre sua cidade natal, Cachoeira Paulista, sobre o folclore, o idioma português, pequenas situações cotidianas e temas sociais. São textos breves, mas densos, conduzidos por uma prosa que mistura lirismo, observação aguda e um sentimento de encantamento pela linguagem e pelas pessoas.

As crônicas sobre a infância e a vida em Cachoeira Paulista talvez sejam as mais tocantes. Ruth Guimarães não escreve com nostalgia, mas com ternura. Ela reconstitui um tempo afetivo, um espaço de formação e encantamento, onde o passado ganha contornos quase míticos. Não se trata de uma idealização do interior, mas de uma escuta profunda dos seus sons, cores e gestos. É o Brasil dos quintais, das cozinhas de lenha, das vizinhanças e dos causos — como o seu Água Funda — um Brasil que vai desaparecendo, mas que permanece em nós como memória viva.

A autora tem um olhar que se demora no detalhe: um costume, um modo de falar, a posição de uma cadeira à porta da casa. Ruth Guimarães transforma o banal em beleza com uma leveza que é, ao mesmo tempo, artesanato e escuta.

Outro ponto forte do livro é sua abordagem do folclore. Ruth o trata não como matéria folclórica a ser catalogada, mas como experiência viva e formadora. Ela compreende as narrativas populares, os mitos, os ditos e os saberes orais como uma verdadeira filosofia brasileira, acessada não por tratados, mas por contos e cantigas. O Brasil profundo que fala através das lendas e provérbios é o mesmo que molda nossa forma de ver e sentir o mundo.

Ao valorizar esse saber, Ruth realiza um gesto político. Ela legitima modos de conhecimento que foram por muito tempo desvalorizados. E o faz com naturalidade, sem didatismo, como quem diz: isso também é literatura, isso também é inteligência. Sua valorização da oralidade, da cultura popular e da sabedoria dos “anônimos” mostra sua atenção a um Brasil real, que pulsa fora das grandes cidades.

Mas talvez nenhuma parte do livro seja tão apaixonada quanto suas crônicas sobre a língua portuguesa. Ruth era fascinada pelas palavras, pelas construções orais, pelos regionalismos, e seu encantamento é contagiante. Ela fala da língua com humor, admiração, reverência e liberdade. Trata-a como matéria viva, cheia de mistério e invenção, feita por todos, e não apenas pelos eruditos. Cada crônica dedicada à linguagem é, também, um tributo à escuta: à escuta do outro, à escuta da fala que resiste.

Há nisso um exercício de delicadeza. A linguagem, para Ruth, é lugar de encontro e de resistência, não instrumento de dominação. Suas crônicas linguísticas não são normativas nem prescritivas, mas celebratórias. Ela se diverte com os modos de dizer, reconhece a criatividade do povo, observa a mutação constante da fala como quem acompanha um rio: fluido, vivo, irrepetível.

No entanto, como toda autora atravessada pelo seu tempo, Ruth Guimarães também traz em sua obra visões que hoje lemos com distanciamento crítico. Em algumas crônicas, por exemplo, aparece uma defesa do mérito como caminho legítimo para a ascensão social. Ruth parece crer, com sinceridade, que o esforço individual, o “crachá”, o estudo e a perseverança bastam para que alguém vença as dificuldades.

Essa confiança, tão típica de uma certa mentalidade da segunda metade do século XX, soa hoje descompassada. Sabemos que o mérito, embora importante, não é suficiente quando as estruturas sociais mantêm desigualdades profundas. Há barreiras que a vontade não ultrapassa. E, por isso, certas passagens da obra parecem reproduzir uma visão liberal que ignora os privilégios e os bloqueios invisíveis que moldam as trajetórias.

Não se trata de desqualificar sua visão, mas de reconhecer que ela foi formada em outro tempo, onde os debates sobre raça, classe e gênero ainda não tinham a mesma visibilidade que têm hoje. Ruth viveu na pele o esforço para conquistar reconhecimento num país excludente, e talvez, por isso, tenha depositado tanta esperança no “crachá”. Essa crença, no entanto, não impede que sua obra tenha valor, apenas revela seus limites e nos convida a lê-la com escuta crítica.

Outro ponto que causa certo estranhamento é a ausência das datas originais de publicação das crônicas. Como os textos foram inicialmente escritos para jornais e revistas, seria importante saber quando e em que contexto foram produzidos. A ausência dessas informações enfraquece um pouco a leitura histórica e política do livro. Saber que determinada crônica foi escrita em plena ditadura ou em tempos de redemocratização, por exemplo, mudaria o peso de suas palavras.

Esse detalhe editorial não tira o brilho do livro, mas sinaliza a importância de contextualizar a obra de autoras que foram lidas e esquecidas sem o devido cuidado. Ruth merece não apenas ser relida, mas também ser situada, compreendida dentro das lutas e contradições de sua época.


O título do livro, Marinheira no mundo, é uma imagem forte. A marinheira é alguém que navega, mas que não tem pleno controle das águas. É assim que Ruth escreve: como quem navega entre tempos, espaços, sentidos. Suas crônicas são pequenos barcos líricos que atravessam o cotidiano, ora com leveza, ora com melancolia, mas sempre com escuta.

Sua literatura não se impõe, mas convida. Ela não se pretende grandiosa, mas funda-se na precisão do gesto, na beleza do instante. É um tipo de escrita que parece simples, mas não é. Sua força está justamente na sutileza. Ruth Guimarães foi, antes de tudo, uma observadora. E suas observações resistem ao tempo porque são feitas com amor e com rigor.

Ler Marinheira no mundo hoje é reencontrar um Brasil íntimo, múltiplo e contraditório. Um Brasil de encantos e silêncios, de sabedorias esquecidas e ideias antigas. É reencontrar também uma autora que soube, com lirismo e coragem, contar esse país por dentro. O resgate de Ruth Guimarães é mais do que literário, é um ato de justiça simbólica. É dizer: estávamos aqui o tempo todo.

E assim seguimos com ela, marinheira entre palavras, navegando devagar por um mundo que ainda precisa aprender a escutar.

Marinheira no Mundo de Ruth Guimarães. São Paulo: Primavera Editorial, 2023. 256p. Leitura de Julho 2025.
Profile Image for Guilherme Eisfeld.
322 reviews4 followers
February 26, 2025
Conhecer o mundo através de Ruth Guimarães é interessante. Algumas construções extremamente poéticas, sonoras, o Vale do Paraíba, questões raciais, mas como em todas coletâneas de crônicas, algumas se destacam, outras parecem estar ali para dar volume ao livro, que talvez pudesse ser um pouco mais enxuto.
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