no início era a rua de barro, a casa e o cheiro da casa, as paredes de madeira, lá de dentro se via os pés descalços, o canal ainda limpo e suas balsas boiando lentas, os homens chegando às seis horas vindos não sei de onde. lá dentro as mulheres e seus louvores, suas orações, suas idas à padaria que rendiam cuscuz e salsichas fritas. naquele pedaço de tempo, naquela terra o mundo fazia coisas, se divertia, não avisava o que vinha, não avisava da morte na frente da agência bancária, do ânus ensanguentado no banho frio, do drink de tangerina ali, naquele bar, na esquina da escola, não avisava de falar isso, escrever isso, filmar isso. mas é de lá, daquela casa, daquelas fraldas, das mãos e pés daquelas mulheres que nasce o mundo, foi lá onde ficaram as cabeças de galinhas, as penas impregnadas de morte, a chuva e a febre, a vontade de aprender a andar. deve ser assim para todos os gays, como foi pra ricardo, como foi pra mim, ter febre e aprender a andar, sair de lá, sentir saudade.