O primeiro sinal é a linguagem que se desfaz, se confunde, se reinventa; a narradora olha para John, seu pai, e se «O que havia em sua cabeça? Se fechava os olhos, ou quando sonhava, visitava um mundo figurativo?». Este ensaio autobiográfico acompanha a experiência de um pai sofrendo de demência aos olhos de sua filha, os dois gradualmente afastados pela memória vacilante, pelos gestos em falso de John — «o extravio da língua […] uma língua que minguava» — e reaproximados então pelas revisitas constantes ao passado, a uma pátria anterior, a uma língua materna. Julia de Souza recorre a uma sensibilidade peculiar, ao movimento do arqueólogo que delicadamente encontra estilhaços sob os farelos do tempo, para construir uma narrativa tão íntima quanto honesta, tão sóbria quanto lírica. Compõe-se aqui um autorretrato por meio do outro, uma leitura de si pela transformação do olhar alheio — «Temos as mesmas iniciais, e principalmente a forma como escrevo a letra J é muito semelhante à de John. Julia de Souza, escrevo repetidas vezes com a caneta azul. Tento forjar a assinatura do meu pai, como chegamos a fazer algumas vezes quando ele já não conseguia escrever. John Manuel de Souza. John de Souza. John». Mergulhamos, enfim, no vazio revolto onde se fincam as raízes da memória, «a memória dos seres e objetos que já passaram por este mundo e que, como tudo o que é matéria, sempre correm o risco de desaparecer».
Julia de Souza nasceu em São Paulo em 1986. Estudou Letras na FFCH da USP, onde atualmente faz mestrado sobre a obra de Hilda Hilst, no departamento de Literatura Brasileira. Foi vencedora do Prêmio Nascente 2012 com uma série de poemas. Trabalha como tradutora e preparadora de textos para algumas editoras.
Há alguns anos minha madrinha foi diagnosticada com demência. A doença avançou rapidamente e de um dia para o outro as coisas mudaram em muitos sentidos. Tão jovem, sabe? Nem 60 anos. Quis ler esse livro em busca de uma identificação ou de talvez uma ajuda pra lidar com tudo isso, já conhecia a escrita da Julia e sentia que poderia ser bom. Lágrimas rolaram. Aos poucos a gente vai elaborando uma espécie de luto de quem ainda está vivo, mas agora existe em um outro formato. Uma nova linguagem, um novo olhar, um novo viver.
Que livro lindo! É triste mas tão genuíno! Senti vontade de conhecer o John. Acho que esse processo de escrita também ajuda no luto. Não nos acostumamos com a perda. A verdade é que não queremos perder ninguém e temos medo. Nunca é suficiente a presença de alguém que amamos na nossa vida, especialmente quando se trata dos nossos pais. Tem todo o meu carinho e admiração Julia.
Escrever o pai descobrindo uma parte de quem somos, de quem a escritora é. Sensibilidade delicada sem (aparentemente) grande afecto, a relação de uma filha com um pai tardio e em processo de esquecimento. Uma bela surpresa de Agosto