Após 25 de abril de 1974, com a Revolução dos Cravos, milhares de pessoas que viviam em Angola, então colônia portuguesa, deslocaram-se para Portugal e foram nomeadas por “retornados”. Entretanto, enquanto muitas dessas pessoas haviam saído da metrópole e estavam retornando, outras haviam nascido na colônia e não tinham laços com o país europeu. Aida Gomes aborda esse fluxo migratório em seu livro de estreia Os Pretos de Pousaflores, publicado pela primeira vez em 2011. Ao abordar o lugar dos africanos e dos afrodescendentes na sociedade portuguesa, neste contexto de descolonização, Aida Gomes traz o conceito de "refugiado" para o debate sobre os "retornados", assim como novas perspectivas sobre o fim da experiência colonial, o desenraizamento e o racismo português. A partir de seis personagens da mesma família que retornam a Portugal, Os Pretos de Pousaflores, trata da alteridade e mostra como a (não) inserção de alguns “retornados” na sociedade portuguesa é marcada por questões étnico-raciais, que constroem muros e distinções entre pretos e mulatos, entre retornados, desalojados e refugiados, colonos e colonizados, definindo o “outro”. Com fundo autobiográfico, neste livro de Aida Gomes, personagens muito bem construídos e cheios de sentimentos vivenciam questões de pertencimento, deslocamento e identidade, trazendo a memória colonial para compreender complexidades contemporâneas.
Nascida no Lundimbale, Huambo, Angola, Aida Gomes vive desde 1985 na Holanda onde estudou Ciências Sociais e fez um mestrado sobre processos históricos e políticos na África Subsariana (Universidade Radboud de Nijmegen). Trabalhou e residiu no Camboja, em Moçambique, no Suriname, em Angola, na Libéria, no Sudão e na Guiné-Bissau. Desenvolveu actividade em projectos comunitários para jovens, na formação para jornalistas e na construção de paz e diálogo político. A sua experiência profissional em missões de paz da ONU está marcada por situações de conflito ou pós-conflito, por vezes em condições extremas de subdesenvolvimento e caos tecnocrata. Viu alguns países renascerem da mais cruel violência com sorrisos de vitória, e viu outros perderem a esperança de um dia conseguirem livros, uma estrada alcatroada, uma cama limpa num hospital e líderes políticos um pouco menos maus do que o habitual. Escreve porque a beleza anda por aí aos pontapés e acredita, tal como a avó de Saramago, que o mundo é muito bonito e é uma pena um dia termos de o deixar.
4,5 Adoro a premissa de uma história de 'retorno' diferente. Adoro a polifonia e o dominio magistral das linguagens das personagens. Adoro a linguagem humorada e poética de Justino. Só achei que o romance podia ser mais curto porque senti o enredo a enrolar mais para o fim.
Drawing on the author’s formative years in Portugal as a mulatta (her father was Portuguese, her mother an Angolan of Ovimbundu extraction) this book tells inter-linked stories of people adjusting to life in a fictitious Portuguese village “Pousaflores” whose residents are anything but cosmopolitan. Action begins in 1976-78 and extends for roughly twenty years thereafter, interspersed with flashbacks to colonial Angola before 1975. Dramas of social non-acceptance, meagre parental love, racial discrimination, male chauvinism and female vulnerability are all at hand. Chiefly affected are three Angolan-born children fathered by the Portuguese ex-colonial patriarch Silvério, with three different Angolan women. Two of those women don’t figure in the book, but a third, Deodata, shows up later, having made her way to Portugal unassisted. A further voice is that of Silvério’s sister, a conservative villager lacking schooling and social status.
The reader must cope with overlapping, interspersed narrations from all six of these characters, whose identities may or may not be clearly given as the book takes us along dim pathways of the avantgarde. Some passages consist of internal, sometimes dream-like monologues.
This is not a low-threshold, easy-to-read novel. Yet it successfully reveals social stresses and personal scars of colonizer and colonized in a poor and often heartless post-colonial Portugal.
Um romance confuso e falhado. Narrado a cinco vozes (episodicamente, na 1.ª parte, aparece mais uma) às sucessivas entradas de cada uma não são imediatamente identificáveis (primeira confusão) além de que três delas (as dos filhos) são “insubstantivas” e geram o caos (segunda confusão). Apenas Deodata e Silvério são personagens “corpóreos” e bem cacterizados e nas falas deles caberia seguramente boa parte (e a parte boa…) das que compõem a dos outros três (a “outra” parte é lixo). Ainda assim, fiquei com curiosidade em relação a romances posteriores de Aida Gomes (este é de 2011).