Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é um texto curto em extensão, mas denso em pensamento e urgência histórica. Escrito em um Brasil ainda profundamente marcado pela desigualdade de gênero, o livro se impõe como uma defesa firme da educação feminina e da dignidade intelectual das mulheres, articulando crítica social, reflexão moral e um projeto de transformação.
Nísia Floresta constrói sua argumentação a partir da constatação de que a inferiorização da mulher não é natural, mas produzida socialmente pela negação do acesso ao conhecimento. A educação surge, portanto, como eixo central do texto, não apenas como instrumento de emancipação individual, mas como condição necessária para o progresso moral e civilizacional da sociedade como um todo. Há, nesse sentido, uma consciência aguda de que a exclusão feminina compromete o próprio futuro da nação.
O tom do opúsculo oscila entre o didático e o combativo. Ao mesmo tempo em que dialoga com modelos europeus de pensamento, Nísia Floresta adapta suas reflexões ao contexto brasileiro, revelando um esforço pioneiro de pensar a mulher dentro de uma realidade marcada por conservadorismo, escravidão e hierarquias rígidas. Essa adaptação confere ao texto uma força particular, pois evita a mera reprodução teórica e se afirma como intervenção política e intelectual.
Apesar de seu caráter progressista, o livro carrega marcas de seu tempo, sobretudo na defesa de uma educação feminina muitas vezes vinculada à moralidade, à família e ao papel social da mulher. Ainda assim, essas limitações não anulam a importância da obra, que deve ser lida como um gesto inaugural no pensamento feminista brasileiro, abrindo caminhos para debates que ainda hoje permanecem atuais.
Opúsculo Humanitário é uma leitura essencial para compreender as origens do discurso em defesa da educação das mulheres no Brasil e o papel de Nísia Floresta como uma das primeiras vozes a desafiar, de forma sistemática, a ordem patriarcal no campo intelectual.