Com certeza uma leitura impactante e inesquecível destas primeiras do ano. Tive momentos ambivalentes na leitura, principalmente por não saber de antemão com o que eu iria me encontrar. Seria um relato de experiência, uma revisão de literatura científica séria pesando benefícios e riscos, ou somente um livro apologético que justifica a si mesmo com a pauta do antiproibicionismo?
Descobri com a leitura de "Flores do bem" que o livro se propõe a tudo isso. Impossível dissociar a trajetória pessoal de Sidarta Ribeiro do tema que ele, com tanta candura, rega e colhe sorrindo. Parêntese. É interessante como eu consigo dimensionar meu incômodo da personificação da cannabis como uma espécie de entidade inteligente e divina - ou seja, completamente "boa", como o autor costuma a se referir a ela - e como na vida já escutei também esta expressão de outros tantos usuários. Este talvez, seja uma das minhas ressalvas e estranhamentos durante a leitura. Algo que ressoa com a expressão usada por alguns místicos e religiosos como "plantas de poder", que talvez pela minha limitada experiência ou franca incompatibilidade, não encontra ressonância interna.
O tema da legalização da maconha quase sempre mobiliza uma série infindável de preconcepções, questionamentos, ambivalências e preconceitos, junto à possível história pregressa de experiências daqueles que se arriscam a pensá-la. Talvez pela progressiva liberação para uso medicinal e também de pesquisa, o tema vai se tornando cada vez mais elaborável: o próprio Sidarta tem o porte e cultivo legalizado para o tratamento de suas condições de saúde. Mas o que o livro demonstra é que o interesse científico nos benefícios ainda é parco, provavelmente imiscuído a um preconceito basal e cultural mais antigo paradoxal a presença milenar da maconha na história da humanidade.
É incontestável como muitas evidências científicas só passam a ser buscadas na ciência a partir do uso popular de certas culturas: a história das drogas (de forma ampla) é repleta disso. Especialmente de uma planta que, como vemos na leitura e em outros artigos, segue ao nosso lado desde o Neolítico. Por isso, os relatos bem sucedidos dos pais e mães de crianças com epilepsia, alguns sintomas de autismo, de adultos sofrendo de Parkinson severo, esclerose múltipla e dores crônicas descritos no livro deveriam levantar os olhos de todos pesquisadores de saúde e dar a devida atenção a futuros estudos rigorosos para tais condições com a erva. A própria descoberta do sistema endocanabinoide no ser humano, realizada em pleno século 20, mostra que há muito ainda a ser descoberto na relação de substâncias psicoativas naturais e nossa regulação fisiológica e emocional interna.
Como profissional da saúde e mestre em saúde pública, no entanto, sigo me fiando, por um lado, na pesquisa científica de qualidade e nos riscos e benefícios de quaisquer tratamento em saúde. Ensaios duplo cego randomizados e outros desenhos de estudo próximos ao padrão ouro na pirâmide de evidências científicas serão sempre uma referência inconteste em comparação a evidências anedóticas (ou seja, casos isolados). Muitos estudos nestes moldes ainda estão para serem realizados, mas alguns outros já trazem evidências num tema tão controverso como o da saúde mental e dos transtornos psicológicos ou psiquiátricos.
Já sabemos que existe uma correlação mais ou menos alta entre níveis de THC nas plantas e possíveis efeitos que levam a transtornos psicóticos nos usuários. Não se tem ainda nenhuma relação de causalidade: mas a força da associação aparece em inúmeros estudos. Há uma hipótese que ronda predisposições genéticas junto ao contexto e a idade do uso que podem eclodir neste tipo de condição. Isto é especialmente crítico num mundo em que variantes cada vez mais fortes e modificadas geneticamente da planta com níveis de THC altíssimos e pouco CBD (que se tem hipotetizado que serve de antagonista aos efeitos do THC), além de seus correlatos artificialmente produzidos em laboratório, estão entrando no mercado informal das drogas.
Sidarta não é cretino ao ponto de ignorar estes fatos. Ele menciona em dois momentos do livro como existiriam grupos de risco para usuários da planta e como algumas pessoas por sua constituição genética, poderiam estar mais propensas a desenvolver determinandos quadros psiquiátricos com o uso. Sim, evitar que crianças, adolescentes e mulheres gestantes e pessoas de até vinte e cinco anos tenham contato com a substância é prudente. Mas como, na falta de um biomarcador seguro, saber quem afinal pode desencadear um surto psicótico ou não com o uso? De que forma proteger a estes usuários? Já que, diferente de uma intolerância a lactose ou glúten, como o autor alude, não se tem tecnologia para dizer com certeza quais são as pessoas que precisam ficar longe e quais aquelas que se beneficiam do uso - nada além de relatos de primeira mão ou certo autoconhecimento adquirido a posteriori.
Agora, por outro caminho, minha formação como psicólogo e o entendimento da redução de danos me faz pensar que existem "usos e usos". A condição de dependência a qualquer substância é sempre problemática quando ela acarreta em prejuízos aos que estão ao redor ou ao próprio usuário. No entanto, fora o problema da ilegalidade da comercialização e do estigma social, um sujeito que vive uma vida funcional e faz um uso recreativo e medicinal de cannabis estaria necessariamente em condição de dependência? Sempre lembro das discussões de redução de danos da faculdade que implicavam problematizar inúmeras substâncias que consumimos por vezes sem controle: café, açúcar, alimentos processados, ricos em gorduras, álcool e por aí vai. Apesar dos riscos mesmos destas substâncias, não se proibe a elas o uso, especialmente do álcool e tabaco, que são, além de toda série de prejuízos fisiológicos, reconhecidamente carcinogênicos em qualquer curso de saúde pública.
Se me é possível ainda arriscar mais uma impressão sobre a leitura, a que faço afinal é o tom transcendental que Sidarta e talvez outros usuários mencionados no livro busquem na planta. Uma erva relacionada ao movimento contracultural de paz e amor, de união e reconexão com o próximo e algo maior... Da busca perdida pelo brio da vida que vai se ofuscando dentro da rotina acachapante e cinzenta do capitalismo tardio e impessoal. Da busca por aqueles que partiram, como é o caso do autor, que perdeu seu pai aos cinco anos e o reencontra durante uma consagração com a cannabis. Talvez seja esse, dos benefícios da flor, o maior bem.