A leitura de A velha senhora Webster acabou por se revelar um presente de natal inesperado e, já agora, depois do último desgosto literário, bem merecido. E a coisa começou logo muito bem com uma caracterização de personagens forte e uma figura central, a própria da senhora Webster que titula a obra, a revelar-se uma mulher estóica, de contornos gélidos e intrigantes que agarram o leitor de imediato:
Naquele carro, ficava com a sensação de estar demasiado perto da bisavó Webster. Isoladas atrás da divisória de vidro que nos separava do motorista, conseguia, ou assim me parecia, sentir o aroma ácido da sua velhice, o amargor do seu desagrado com tudo, passado, presente e futuro.
Os ambientes soturnos e góticos (finalmente, um exemplo bem conseguido de gótico que não tem de ser um desfiar de miséria, misoginia e falta de amor próprio!) e uma narradora jovem, simples, tranquila e enganadoramente ingénua, cujo sentido de humor, apesar de bizarro é altamente eficaz, fazem de A velha senhora Webster um pequenino tesouro que se começa a revelar logo nas primeiras páginas:
A mera ideia de tentar convencer esta idosa carrancuda e ferozmente soturna a deslocar-se à ventosa praia de Brighton, onde poderia muito bem sofrer um ataque cardíaco em resultado do horror e choque de se ver obrigada a passar por cima do aglomerado de corpos seminus dos «excursionistas», era inconcebível, sem qualquer dúvida.
Recorrendo a várias vozes para traçar retratos de efeito grandioso, e a várias histórias imbricadas como construções de LEGO na figura da bisavó Webster, Caroline Blackwood traz até nós a história de várias gerações de uma família (a sua família, dado o caráter autobiográfico do texto) cujas figuras centrais são as três mulheres que descendem hierarquicamente da intrigante matriarca Webster:
Julgo que desde então não conheci um ser humano que sorrisse tão pouco, que encontrasse na vida menos motivos de diversão. Orgulhava-se da sua falta de humor, como se visse nela uma virtude da aristocracia escocesa. Se o humor pode às vezes ser usado como uma defesa contra os golpes do fracasso, da dor e da perda, ao reduzir ao absurdo todas estas coisas, a bisavó Webster desdenhava de tal escudo, encarando-o como uma defesa apenas adequada a «excursionistas».
- A vida não é uma brincadeira - disse-me ela numa ocasião. - A vida jamais pode ser uma brincadeira para quem usa a cabeça.
Quando se estava com ela quase nos convencia de que havia algo de cobarde e vil em qualquer evasão emocional, na recusa de enfrentarmos de caras todos os golpes que a vida nos prepara. Levava-nos a acreditar que havia uma coragem quase sobre-humana na maneira como não receava admitir que a única coisa que esperava da vida era uma consciência ininterrupta, desagradável como ela sabia que teria de ser. Tudo o que ela queria de cada novo dia era saber que continuava desafiadoramente viva, que, contra todas as probabilidades, conseguira sobreviver no vazio solitário e desprovido de amor que criara para si mesma.
Os retratos dessas figuras, traçados para o leitor de forma sólida e espantosamente segura num tão curto espaço de tempo, vão desde a avó Dunnmartin, cuja «crença nas forças sobrenaturais se tinha tornado uma verdadeira fixação, pois tentava converter toda a gente às suas crenças e tornava-se ríspida e hostil se achasse que o seu público a tratava com condescendência. Afirmava ser capaz de entender a linguagem das fadas, que lhe enviavam mensagens constantes e que era importante dar apenas ouvidos às instruções das fadas boas, já que elas poderiam ajudar-nos e evitar os terríveis feitiços que os demónios nos deitavam»; à tia Lavinia que, apesar das recentes tendências suicidas, «era sempre descrita como uma jolie laide. Era uma playgirl ao estilo dos anos vinte, famosa pelas suas bonitas pernas e pelo facto de ter sido casada com três milionários ao mesmo tempo que entretinha um amplo sortido de amantes, que além de serem amigos dos seus maridos eram também financeiramente quase tão bem-dotados quanto eles»; à jovem narradora cuja figura, de caráter supersticioso e índole espirituosa, se vai desvendando ao leitor lentamente como uma extensão da própria autora.
Com uma galeria de personagens fascinantes trazidas até nós por uma narrativa que abarca cerca de cinquenta anos de (conturbada) história inglesa, vários são os intervenientes que competem pela primazia maior nesta pequena novela e eles não se restringem a figuras humanas, mas alargam-se também aos espaços habitados. Desde a casa da bisavó Webster, cujo coração é uma grandiosa lareira de braseiro sempre apagado...
Richards cozinhava todas as nossas refeições na cave(...).Arfando e resfolegando, roxa do esforço, lá conseguia a duras penas carregar a nossa comida até à sala de estar numa pesada bandeja eduardiana de mogno com pernas.
Quando por fim nos servia a refeição, a bisavó Webster agradecia-lhe sempre, mas num tom que deixava entrever uma extrema coragem, como se falar lhe tivesse exigido um esforço doloroso e heróico. Ali sentada, com uma expressão tão assombrosa de exaustão e desconforto que até conseguia eclipsar Richards, fazia qualquer pessoa sentir que a façanha da criada com a bandeja de mogno e as terríveis escadas de acesso à cave não era assim tão extraordinária se pensássemos que a bisavó Webster estivera, desde manhã cedo, sentada num silêncio corajoso e estoico, suportando sem queixas o desconforto atroz da sua cadeira de espaldar duro.
...a Dunnmartin Manor, a mansão familiar esquálida e em ruínas onde os criados reinavam desregrados e «onde proliferava o entulho tipicamente anglo-irlandês composto por faturas por pagar e por abrir, raquetes de ténis com as cordas partidas, botijas de água quente de louça sem as tampas, faisões empalhados em vitrinas rachadas, exemplares amarelados de revistas sobre cavalos, páginas rasgadas do Times londrino. (...) onde o mobiliário de época picado pelo bicho da madeira se amontoava com selas e cilhas, onde um emaranhado de canas de pesca se entrelaçava com arreios bolorentos e enferrujados, onde em cima de mesas de pingue-pongue e de bilhar havia aros de cróquete espaIhados ao acaso ao lado de espingardas antigas e galochas.»
O magnífico sentido de espaço da narradora alimenta esta luta pela supremacia de protagonismo ao longo de todo o texto, oferecendo, nestas poucas páginas, uma amálgama de contrastes - negro e austero; branco e acolhedor - e uma capacidade ímpar de transmitir sensações físicas e psicológicas - frio, quente, molhado; temor, solidão, dúvida -, através de pequeninas vinhetas que deixam entrever como o ambiente exerce poder sobre a índole e se pode oferecer como um último, ainda que improvável, reduto de normalidade, de ancestralidade, e de segurança da hereditariedade:
«No universo bafiento e confinado que ela habitava, tudo tinha uma ordem e uma previsibilidade. À semelhança do seu mobiliário escuro, a bisavó parecia ter sido construída para durar. Não dava o menor indício de alguma vez ter sentido razões para questionar quem era e o que representava. Não obstante as humilhações da velhice, a noção que tinha do valor da sua identidade permanecia inalterada, porque era inseparável da estabilidade sagrada das suas rotinas imperturbáveis. Só quando perdíamos a bisavó Webster e rumávamos a um cenário mais moderno e povoado de identidades incertas magoadas, confundidas por valores contraditórios e e constante mudança, é que podíamos começar a dar valor à fiabilidade da sua tenaz circunspeção. Ainda que por acaso nos desagradassem tanto os seus costumes quanto os seus valores, porque ela se considerava demasiado acima dos demais e demasiado bem couraçada para se ralar com críticas vulgares, em certo sentido, era ela que saía vencedora. Ao jamais ter desejado receber prazer, ou dá-lo, obrigava-nos a admitir que havia algo de admiravelmente forte na sua total ausência de qualquer desejo ultramoderno e servil de agradar.»
A economia de palavras de Blackwood é admirável, e a forma como constrói este tríptico e a sua conclusão de teor macabro e irónico dá origem a um exemplar perfeito daquilo que é o bom humor inglês adoçado por uma veia poética. E esta pequenina novela, repleta de ínfimos, divertidos e excêntricos detalhes acaba por ser reveladora de uma autora que, sendo aristocrata de sangue, tinha mais de artista do que muitos artistas.
«Dir-se-ia que era para o seu coração que a bisavó Webste vivia, na verdade. O coração era a unica coisa que lhe importava. Produzira três gerações de descendentes e vivera anos suficientes para saber que nenhuma deles lhe importava minimamente, da mesma maneira que a um velho carvalho não mportam as folhas que ano após anos lhe caem dos ramos.
O seu coração era a única coisa que ela valorizava. Montava-lhe guarda perpétua como uma avarenta, contando cada passo que dava, poupando-se a esforços físicos do mesmo modo que racionava a comida. Pelo seu coração estava preparada para sofrer. Se as horas todas que se obrigava a passar imóvel na sua cadeira a entediavam de morte, sentia-se recompensada pela frugal sensação de que durante todo esse tempo estava a armazenar a energia do seu coração como quem armazena combustivel.»